terça-feira, 25 de agosto de 2026

Lembrar Agosto

 

                            (Em memória da minha mãe, no dia do seu aniversário.)

Majestosa, no cimo da escarpa, a casa grande de pedra foi a tua última morada.

Os velhos da aldeia diziam que o primeiro de Agosto era o primeiro dia de Inverno. Outros juravam que Agosto rimava com desgosto. Em criança, nunca compreendi o peso dessas palavras. Hoje compreendo.

Agosto era o mês do teu aniversário. E quis o destino que fosse também o mês da tua partida. Desde então, esse nome passou a trazer consigo uma claridade triste, como se o verão escondesse um inverno só meu.

Partiste, mas nunca deixaste verdadeiramente de partir. Permaneces nos gestos que aprendemos contigo, na força discreta com que enfrentavas os dias, na firmeza das tuas convicções e nesse amor que raramente fazia ruído.

Quando, antes de adormecer, vinhas cobrir-me com a manta de ternura que as tuas mãos haviam tecido, para abrandar o frio do Inverno.

Depois vieram os dias difíceis. Degraus que desciam e outros que tivemos de subir, quando já julgávamos não ter forças. Ainda assim, seguimos caminho, tantas vezes sem perceber o perigo dos atalhos.

Com o tempo, aprendemos que recordar-te não era alimentar a tristeza, mas guardar o sorriso que também nos deixaste.

A casa já não existe no alto da escarpa. Mas, sempre que a memória regressa àquele lugar, és tu quem primeiro encontro. Como se nunca tivesses saído dali.

E quando Agosto volta, voltas também tu.

Silenciosa.

Como sempre soubeste ficar.

Até um dia.

©Piedade Araújo Sol 2026-08-21
Imagem : Andrea Kiss

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Alter-Ego

O meu alter-ego tem uma alma nómada
anda por aí entre arribas e marés
a sonhar tempestades de emoções.

Não me obedece
já não lhe tenho mão nem braço
faz o que quer.

Desenha emoções em cores
inventa soluções em sorrisos
e desmente a ficção.

Voa em asas de gaivota
quando elas pousam na areia
e se preparam para partir

Nunca se perdeu, até hoje
anda por aí sem mim
mas volta sempre ao mar.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-08-17
Imagem : Marko Nadj

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Rosto que o Mar Devolve

Há silêncios que sabem nadar melhor do que algumas palavras.

Há amores de verão que ficam enterrados na areia. O tempo cobre-os de marés, como se a água pudesse ensinar o esquecimento.

Mas o oceano nem sempre devolve aquilo que leva.

Há amores que nunca chegaram verdadeiramente a existir. Foram apenas o brilho breve de uma estação, um encontro sem raiz, uma promessa que a maré apagou antes sequer de ganhar nome.

Ainda assim, existem cicatrizes que o calor desperta. Basta o sal na pele ou o rumor da maresia para que um segredo antigo volte a respirar.

Então, o mar devolve-me à praia. Não me traz o passado nem o rosto que esperei rever. Devolve-me apenas a mim, diferente daquela que um dia ali deixou o coração.

As águas salgadas lavam a memória como uma lenta catarse. O corpo regressa mais leve, mas há marés que continuam a morar por dentro, onde nenhuma onda consegue chegar.

E se os meus passos deixarem sulcos na areia, tento agarrar o brilho do luar para continuar a caminhada. Nem sempre essa luz é suficiente para me descortinar a saída mais segura, mas visto-me de maresia.

E nada nem ninguém me faz desistir, porque há caminhos e memórias por percorrer. Mesmo que permaneçam inalcançáveis, nem por isso morrem; apenas insistem em ficar.

À primeira vista, parecem apenas silêncios. Mas, quando os escutamos com paciência, descobrimos que nunca guardaram o mar; guardaram apenas o eco de quem um dia o escutou e ali plantou a esperança...

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-08-10
Imagem :  TJ-Drysdale

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Poço sem Fundo

Há dias em que a realidade se veste de crueldade
por vezes insana, num compasso sem razão
um desnorte que tropeça em si mesmo,
onde a cegueira impera
e até a luz desaprende o caminho.

´Há risos que se confundem com golpes,
gestos que desnudam quem os pratica
e deixam, em quem os recebe,
o peso invisível de um nome que nunca escolheu.

O poço já não tem fundo.
qualquer pedra encontra a alma,
qualquer palavra sabe ferir.

Abrem-se fendas difíceis de sarar,
estilhaçadas como cacos de vidro,
que permanecem sob a pele
mesmo depois de varrido o silêncio.

E há dores que não sangram.
apenas ensinam o coração
a caminhar descalço
sobre os destroços da própria dignidade.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-08-03
Imagem : Anna O.

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