terça-feira, 23 de agosto de 2016

Deambulações


Saiu cedo para o dia
quase antes do seu nascer
Acertou os passos
E ligeiros foram deixando pegadas nas areias da praia

Quis usufruir todos os sons
Os odores
A movimentação do mar
A linguagem das nuvens

Aprendeu pouco
Absorveu muito
e coloriu todo o seu saber
Num sorriso maior que o dia

E sabe que as gaivotas que estão a voar
Sabem falar com o vento
E que o vento sorriu
Quando abriu os braços
E começou a semear sonhos
nas águas salgada da praia

© Piedade Araújo Sol 2016-08-23

terça-feira, 16 de agosto de 2016

....


Alexandra Sophie


Abraço o dia
No olhar que me espraia a visão
Sobre o mar
A areia
E o sol

Pincelo a vida na incerteza
Das cores que não ensaiei
E não me saem enérgicas
Mas apenas
Melancólicas
E algo baças

Abraço a tarde
E a esperança amorna
A solidão
Entre a carícia de um olhar
Num sentir oblíquo
De memórias

E entro na noite
Com um sorriso enigmático
Entre um sonho e um beijo
E vejo (te) ausente
Na distracção das cores
Que ainda me faltam inventar

©Piedade Araújo Sol 2016-08-16

(também pode ser lido de baixo para cima)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ruas

Paolo Barzman

Se eu pudesse, voltava a calcorrear
As ruas
Da minha infância
Passeava-me
E sei que os meus olhos
Atentos e saudosos
Haviam de ver outras ruas
Nas mesmas ruas
©Piedade Araújo Sol  2016-08-09

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Insónia

norvz austria

Permaneço no tempo
do dia em declínio
sem me apetecer saltar os muros
para a noite
atribulada.

Procuro o trilho que me leve
a voar nas profundezas
do sono que nunca vem
nem amordaça
os vestígios dos fantasmas.

E tento desenhar
as memórias de sonhos dispersos
na efemeridade do tempo
e do ocaso
e das fantasias desconectadas.

©Piedade Araújo Sol  2016-08-01

terça-feira, 26 de julho de 2016

hoje encontrei um olhar

Eric Roux Fontaine

hoje encontrei um olhar
a desenhar raios de sol
com o reflexo ainda nas mãos,
pensei que talvez fosse
um pintor de abstractos
em completa inspiração.
não era!
era a imagem do instante
em que os dedos
insurrectos,
escrevinharam velozmente
no guardanapo de papel
rabiscos que formaram palavras.
era um poeta!
©Piedade Araújo Sol  2016-07-26

terça-feira, 19 de julho de 2016

Conjunturas




Os retalhos do dia,
caíram no horizonte da noite,
os passos enfraqueceram e a jornada ainda vem longa.


Não te iludas,
mas continua a tua caminhada,
porque as estrelas serão luz quando a lua se esconder.


Não esqueças de entornar os teus desejos no mar,
que um dia (outro dia) serão bálsamos,
de memórias (tuas).

©Piedade Araújo Sol 2016-07-19

terça-feira, 12 de julho de 2016

aquela porta

Andrew Wyeth

aquela porta sempre ficou,
apenas encostada, e quando fazia vento
ele entrava pelas frestas e eu esquecia,
que fazia vento, e esquecia que era da porta,
e esquecia as distâncias.
e os dias iam e voltavam,
assim como o vento,
e o seu eco em lamento era,
apenas um detalhe aceso,
no universo das alvoradas.

©Piedade Araújo Sol  2016-07-11 

terça-feira, 5 de julho de 2016

O Poeta


havia momentos que nada o aquietava,
e sabia que nada lhe pertencia, nem os dias,
e muito menos as noites,
onde as insónias faziam pousio sem pedir permissão.

semicerrou os olhos,
que eram uma mistura de verde e cinza,
verde como água, quando estava calmo,
cinza como as nuvens quando se sentia em conflito.

resvalou o olhar, hoje fusão das duas cores,
qual andarilho, ou simplesmente
vagabundo de olhares concentrados,
qual labareda em combustão,
talvez êxtase…talvez degelo.

esboçou  cores,
esculpiu sons, pintou letras,
e sentiu a rebelião dos pássaros,
em seu voo ininterrupto e lesto,
entoando cantos ininteligíveis.

com a mente em completa transmutação,
engalfinhou as mãos nas algibeiras,
cheias de sigilos.
Extenuado  sentou o corpo na areia,
sorriu e pensou,
como seria bom plantar flores sobre as ondas.

©Piedade Araújo Sol 2016-07-04

terça-feira, 28 de junho de 2016

deste lado...

Saul Landell
deste lado…hoje… sou a ave alienada
qual pássaro com o olhar tresmalhado,
sobre a terra e nesse horizonte, que percorrerei
com o meu voo tardio,
e lasso.

o tempo é assim,
uma espécie de legado que não sabemos,
nem queremos saber a finitude,
dos voos improváveis e quiçá,
irrealizáveis.

é tanta a poeira e a asa está ferida,
não sei se resiste a mais um voo,
talvez  a ventania ajude,
e me conduza nesse céu e nesse voo,
que ainda quero esvoaçar.

©Piedade Araújo Sol  2016-06-28

terça-feira, 21 de junho de 2016

Frente e Verso


Quando quis regressar,
perdi-me em labirintos escusos,
mas, com a força que detinha,
sem saber,
ancorei sempre nalgum porto,
mesmo que não fosse o meu
e, por vezes,  desconhecido.

Construí pontes flutuantes,
onde só quem as atravessava era eu,
e, quando a noite era escura,
imaginei pirilampos nómadas
a marcar as margens,
e em  meus olhos as estrelas
fizeram  a sua luz alumiar o caminho.

Sacudi a poeira entranhada nas mãos,
e na pele.
Fui caminhante,
fui aprendiz,
fui grito ecoado na planície,
fui silêncio golpeado,
fui ave arribada ao chão.

Hoje,
no outro lado do tempo,
da maresia,
e do vento,
da sombra do espelhado
es-ti-lha-ça-do, (eu)
em  frente e verso.

©Piedade Araújo Sol  2016-06-21