terça-feira, 19 de março de 2019

O sonho é como um poema ou não

Adam Bird
Eu tenho um sonho, e embora entres nele
ele (o sonho)  é só meu
porque tu terás os teus e também são só teus.

O  sonho é como um poema
só eu sei o seu desenrolar
não é para dar nem divulgar.

Podemos nem escrever mas não deixa de ser
o meu sonho poema
todo imbuído de sentires e utopias.

Hoje esbarrei sem querer num poema
que era um sonho que edifiquei
e nem sei como o poeta o achou.

Afinal o sorriso que transbordou foi real
não foi sonho, foi poema
foi uma janela aberta e o sol entrou.

Foi uma pedra da calçada que me sorriu
num poema irrequieto e sonhado
foi um abraço que ficou.

©Piedade Araújo Sol  2019-03-18

terça-feira, 12 de março de 2019

Amizade


johanna harmon.
Os amigos são pessoas que gostam de nós
E de quem nós gostamos

Há amigos a quem se conta tudo ou quase
outros há que não precisamos, esses
conseguem adivinhar o que nos destrói, apenas pelo olhar
ou simplesmente pelos gestos que fazemos.

Há amigos que permanecem mesmo sem estar perto
Porque quando precisamos eles
Aparecem  a destacar a sua presença
E a escutar-nos  com paciência e carinho
O que é muito importante
Tenho amigos que já nem sei onde estão
Partiram,  e a intensidade da vida
Levou-os para outros portos
Outros mares
Mas há coisas banais a quem eu os associo
E mesmo que não saiba fisicamente deles
Eles continuam meus amigos

Amizade é um sentimento profundo e bonito
É aquele gesto amigo que fica para sempre
Guardado no nosso intrínseco

 Naquele dia que julgavas que eu já dormia
Com um cuidado quase maternal
O aconchegares a roupa para um melhor repouso
Foi uma prova de amizade que me caiu tão bem

Tu não irás ler, mas eu nunca esqueci

©Piedade Araújo Sol  2019-03-11

terça-feira, 5 de março de 2019

Às vezes vivo plantando palavras no tempo

Joan Carol
.Semeio-as como se fossem gérmen,
sem horas nem regras impostas,
às sementeiras vulgares,
estendo-as  ao sol,
vezes outras,
pincelo como se fizesse uma aguarela.

E metade de mim fica como,
um esquisso de uma sombra que não sou eu,
nem ninguém, apenas réstias de um esboço
mal executado, sem graça nenhuma
apenas palavras, toleradas.

Mas, também podem ser belas e leves,
podem ser estrelas,
ou nuvens apressadas a dançar,
e a cobrir o céu,
deixando seu reflexo no mar.

Não questiones que eu sofro com algumas,
e com outras fico com um sorriso,
escancarado a me irrigar,
os sulcos das rugas que o tempo,
se encarrega de destacar.

Se algum dia me leres e nada compreender,
não desanimes,
lê outra vez,
porque a mensagem mesmo ténue,
sempre lá estará,
sem demandas.

Porque se metade de mim é sombra
a outra metade é, e será sempre poesia.

©Piedade Araújo Sol  2019-03-04

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

.....

Natália Drepina
Tenho as mãos cheias de terra
e esta terra não é minha. Não a sinto minha
é do mundo, e por aqui ficará,
e os campos estão áridos,
e escurecem tristes e esquecidos.

Que local é este que não reconheço,
em que instante vim aqui ancorar,
que não me recordo,
mas alguem me chamou,
em canto de pássaro brilhante.

E meu nome ressoou nas colinas,
em eco uníssono,
ou foi apenas impressão minha,
e os meus olhos vagueiam,
e sinto paz em esboços de cor.

As minhas mãos estão limpas,
e a serenidade em toda a sua essência,
diz-me,
que a terra era um símbolo,
num remoinho de sentires.

Não sei nada deste desnorte,
as janelas estão abertas, não as fechei,
tirei as cortinas para melhor ver o dia,
e a porta, essa, apenas está no trinco
podes abrir e entrar.

© Piedade Araújo Sol  2019-02-25

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Meditação




mikeilla borgia
A hora e desoras
com as minhas mãos
escrevi palavras como se fossem
catarse emocional
ou lavagem de lodos criados
às camadas num coração que se quer
vermelho e saudável.

Pretexto para os silêncios não serem ruidosos
mas as águas não lavam a dor
nem sequer as humedece de calor
e por vezes a pele arde
em gestos simples
na inexistência de cinzas
e nas minhas mãos tão cheias de confusão.

Lâminas de vento cortam a tarde gélida
e as memórias ficam a galopar
e um golpe de asa rompe o céu
é apenas um pássaro
que me assustou com seu voo
e me tira deste torpor
em zona de conforto ou meditação.

© Piedade Araújo Sol  2019-02-18

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Passeio os olhos por aí


Josephine Cardin
Passeio os olhos por aí

Hoje descobri um Poeta
Que no seu silêncio gritado
Escreveu o poema que eu deslacei
Desalinhei
Refiz e enlacei no meu silêncio
Que se transmutou em paz
Em luz
Em dia
Em generosidade
Passeio e consigo abarcar
As fores silvestres ao longo do caminho
Com aromas suaves e simples
E desembaraçada
Atiro-as para o mar
Que as levará além continente
Passeio os pensamentos
E sorvo sequiosa as palavras
Do poeta
Que tatuadas
Trespassam no âmago do meu viver
E assim ficam serenas
O universo é uma imensidão de ternura
Em que eu habito na sua plenitude

© Piedade Araújo Sol  2019-02-11

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Frio nasceu Fevereiro

Igor Morski
Frio nasceu Fevereiro
Parece incapaz
De uma quentura que seja
A tudo alheio cresceu
Nas suas águas amargas

Um barco de papel
Flutua longínquo
Embuçado refúgio
A deslizar de frio varado
A navegar com calor

Frio nasceu Fevereiro
Mas cresce o fogo de te querer
No meu veleiro embarcado

© Piedade Araújo Sol  2009-02-10

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

do avesso


mikeila borgia

tantas coisas que na escuridão tento aclarar
mas com palavras estranguladas que existem
e nem destino cobiçam

em dias que passam, céleres
em que a noite se confunde na margem
reflectida dum rio ou não

ajuda-me apenas  a colorir a noite
e antever o dia onde o sonho
pode ganhar maior viagem

e corre de vez com o silêncio
porque amanhã
já nada nos prende ao passado

e as tuas mãos serão onde
eu sossegarei as minhas
nesta ansiedade de futuro.

© Piedade Araújo Sol  2019-01-28

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Esse dia

Alexey Polskiy
Este dia. Recordo sempre as mesmas palavras
Adeus. Vemo-nos por aí…

Esse dia eu só queria reter um olhar
E só isso me bastava. O teu olhar…

Esse dia. Senti um peso em meus ombros
E fiquei.A olhar o carro a esgueirar-se na curva…

Este dia. Evoco tudo e a luz fere-me
Os olhos. Que fecho calmamente…

Esta noite. Olhei o meu leito vazio de ti
Oiço um eco. Adeus. Vemo-nos por aí…

© Piedade Araújo Sol  2006/01/16

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sonhar


Partiste
E isso não foi um sonho
Foi apenas a finitude de tudo

Dizias que não sabias a cor dos teus sonhos
Porque por vezes eram esmaecidos
E outras vezes de cores garridas e selváticas

Iludir o sonho que ficou
Iludir a dor pungente
E a morte como oferenda

Esculpir ventos de sol
E dias de jubilação
Quiçá a dor será menor

©Piedade  Araújo Sol 2019/01/14