a tela do poema

pintando papoilas rubras, desbravamos
a tarde nas planícies, prenhes de terra ávida
a pedir sementes na carência
de um dilúvio que tardava no tempo.
fomos aprendizes e descobrimos telas,
esquecidas, em quadros suspensos
nos espaços vazios de olhos,
ao vermos sentimentos saídos de nós.
na preguiça da tarde, estremecemos
e desvendamos, fugindo, manuscritos
em alvoradas cruas, como se fôssemos
balas perdidas de algum terrorista.
porém, um mar de ondas serenas
inundou a nossa pele e, afogados
na indolência do desejo estilhaçado,
fomos dois corpos num poema,
imortalizados nus na tela do pintor.
e, suspensos num quadro, estamos
algures num museu de uma cidade…
Foto:Margusta
a fábula dos sentires

as perguntas desnecessárias evitam-se. nunca te perguntei quem eras! porque eu sempre soube precisamente quem eras. e quando te disse que te amava. eu sabia que te amava como acho que tu me amavas. e quando entre nós só havia silencio, ele era pleno de cumplicidade e eu sei que morava em ti e tu em mim. posso nem saber quem és, mas sei ler nos teus olhos os mistérios que encerras, as mágoas e os deleites, por isso nunca te vou perguntar de onde vens e para onde vais, porque mesmo que não digas eu sei que vens dum país onde o sol se derrama e te acaricia o corpo moreno. e quando vais sei que te perdes no mar que te seduz e te leva a sonhar com o meu mundo de enternecimento e onde fazes de conta que eu sou uma protagonista de uma fábula onde os animais ainda falam…
.
Foto:Elena Dodina
Passos
Os meus passos andam intolerantes
arredios da luz, e dos caminhos normais.
.
Não os comando mais,
não me obedecem.
Tornaram-se ainda mais ligeiros,
esquivos e indomáveis,
calcorreiam em caminhosde musgo, onde antes só lodo existia,
por vezes fazem-me sentir
como se fosse uma
uma paleta de cores indefinidas .
.
Eu queria ter a respiração,
das plantas, e dormir
com a serenidade das águas,
e assim sossegar meus passos..
Existes em mim
Existes em mim
preso como hera, e penso que
podias ser a réstia dum sonho
que ainda mantenho comigo, nas mãos
que entrelaço, e com que seguro o rosto.
semicerrando os olhos, para melhor
a tua imagem reter.
Levo-te comigo, para todo o lado
aconchegado, polvilhado de afectos
e sei, que não és presença nem sonho
no deslumbramento da minha verdade
com que te sinto e inspiro
qual aroma importuno e inconfundível.
Resumo, e tenho os olhares que dei,
e que fui presenteada, de todas as
tardes frias e quentes que não esqueceram
com as mãos entrelaçadas, e o abraço..
aquele abraço!
irrepetívelnas margens do meu (?)mar.
.
Foto:silvia-ana
Na mágoa das tuas palavras
Na mágoa das tuas palavras
desdobro as folhas com
cheiro a cor do silêncio
paira um vislumbre seco
no odor do teu olhar
verde e por vezes negro, e
sinto a noite que não se escreve. .
Queria tecer com seda,
mas no linho do teu vestido
não consigo vivacidade, e
nos tons neutros do teu sono
sou um fantasma, com água e terra
planto um plátano sem chave
que cresce no espaço aberto
do céu que se abraçará no mar
e renascerá quiçá um sorriso no teu rosto.
.
Poema de © Piedade Araújo Sol e PAS[Ç]SOS
Portas
Fecho portas.
Não há espaço no meu silêncio, para escrever o dia que se desvanece. A mágoa renasce nas lembranças cor de cinza que flutuam escarnecendo de mim.
A mágoa não tem cor.
As portas fechadas, são páginas despedaçadas, que as trevas encobrem nas masmorras bafientas e terríficas.Não as vou abrir.
Deitada no silêncio, forçado, eu respiro, defronte da praça repleta de plátanos, que soltam algodão esvoaçante dos seus frutos maduros, que me irritam as narinas.
Talvez eu seja um plátano no meio da praça, mas, os plátanos não se vestem, como eu estou, com um vestido de linho em tons neutros de verde seco.
O sono é breve e desassossegado. Um cheiro de noite invade o dia.
Fecho portas, que já estão fechadas.
.
Foto:mniak
foi em junho
subiste a alameda com o semblante reservado.
foi em junho, e eu estava sentada numa cadeira branca, que até podia ser de outra cor, mas era branca, desmaiada e sem vida aparente.
.
as cadeiras não têm vida.
trazias a curiosidade espalhada no olhar ensombrado de incertezas. os passos cadenciados, ligeiros e quase assassinos.
os passos podem ser possíveis assassinos.
escrevi o teu nome emaranhado em forma de acróstico num livro, que se perdeu na estante onde repousa junto com a poeira, quieto e esquecido.
e tu sorriste, os teus olhos resplandeceram e a tua presença, foi o melhor presente que me aconteceu.
e ainda hoje junho traz com ele o teu sorriso.
.
foto:netiee
Presságio
Emudeci
e um presságio feroz
penetrou no ocaso
engalfinhado como fogo
sepultando no mar
a réstia de esperança.
Um presságio desenfreado
na soleira do meu desencanto
jazendo em filamentos de cores
em mágoa, incendiada e cega
ferindo-me os olhos pesarosos.
No mar alteroso, e de onde já
a noite seu manto desenrolou
eu senti em forma de presságio
o teu adeus
cingido em sal na aragem
que em mim se abraçava.
Cerrei os olhos
e , no sussurro de vozes
imagináveis
que a escuridão agora me tráz
eu não sei ainda
se foi presságio ou apenas
e somente uma divagação..
Foto:ja-nusz
Há sempre um abismo
Há sempre um abismo
Que nos impele
E se desfigura
Em trevas, a cada anoitecer
Para renascer nos segredos
Potenciais suicidas
Em cada alvorada.
Há sempre resquícios
De estalactites paradas
Nas grutas descobertas
Depois da estupefacção do olhar
Que deixaram símbolos inscritos
Para a posteridade.
Há sempre em mim
Sangue e vida
Que do abismo se delonga
E deixa no ar um bálsamo de framboesas
Que se confunde com a terra molhada
E me deixa estática
Como se fora uma estátua de pedra.
.
A noite resvala

A noite resvala
na correnteza do rio
carregando a madrugada
que nasce desinquieta
ante a janela entreaberta
que deixa transpor a luz ainda mortiça
sobre o vulto do teu corpo entorpecido
exausto, a recompor-se da
sofreguidão do fogo extinto.
A inocência perversa repousa
nos cascos dos potros selvagens
em nós metamorfoseados
em embevecida entrega de
beijos
mãos
bocas
corpos e suspiros em cascata
de águas líquidas transbordadas.
Renasceremos antes que a aurora
invente o dia
porque havemos sempre de compreender
os silêncios das palavras inaudíveis
nos olhos nos olhos
e na dilatação dos corpos.
.
Foto:Dorota Dzidudi