terça-feira, 17 de janeiro de 2017

às vezes

Olga Astratova

às vezes ainda pego nos pincéis,
quando fatigada estou das fotografias e da escrita,
dissolvo cores e pinto coisas sem nexo.
sem mágoa sem culpa,
apenas abstractos como uma metamorfose, ou catarse
às dores que ficaram desse mês de Janeiro de todos os anos que se sucederam.
às vezes entro na Basílica, 
e em monólogos que só eu e tu entendes (entenderias)
falo contigo, para amenizar as cicatrizes que ficaram.
e saio com a alma mais leve,
e o coração fortalecido, mas não esqueço,
dia 1 foi o dia que partiste e dia 11 era o teu aniversário.

(em memória do meu pai)


© Piedade Araújo Sol 2017-01-11

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

areias

   

Areias na minha mão
que a onda molha e beija
em vão
como se não fosse o tempo
ou o vento em contra mão.

E a brisa que rente
à cara
fustiga como se vento
fosse castigando
quem se sente pecador ou não.

Abro as mãos e a areia molhada
cai abrupta na dança
que entrelacei nos dedos
desprotegidos da sensação
e da ilusão, dançando no chão.

E fica o perfume do mar
que nas narinas se prende
na quimera de saber ser aroma ou não
melodia sem pauta
sem cifras sem sequer ser canção.

Areias na minha mão
agora, apenas  vestígios são
e ficam deitadas na praia
espalhadas e sossegadas
esperando o beijo do mar ou não…

©Piedade Araújo Sol 2017-01-10

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

pazes

sasu riikonen
entra no dia como um peregrino
e o dia entra
como um refúgio apaziguador.
e o tempo deixa espaço
para  as pazes
com os fantasmas.

depois,
a noite pode chegar…

© Piedade Araújo Sol 2017-01-03

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Constatacões

trini schultz
O mundo está repleto de muralhas,
onde os silêncios habitam, no negrume
dos labirintos sem cor.

E a cor do sorriso que por vezes esboçamos para fora,
é pouco,
muito pouco para diluir esses silêncios.

Que um bando de pássaros inunde o mundo,
que sejam pombas brancas com asas multicores,
a transportar paz, em nossos corações.

E em balanço do ano que caminha para o seu términus,
que nos muros e em todas as ruas  da cidade, ressurja um sorriso
num olhar azul inundado de luz e esperança.

© Piedade Araújo Sol 2016-12-26

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

prece

Elizabeth Gadd
hoje, tudo o que quero dizer,
cabe na minha mão fechada,
porque eu quero dizer aquilo que, não
sossega o olhar em dias de inquietação.

e em tempo de festas,
e embustes.

eu só queria que a paz,
transbordasse nos corações,
dos senhores do mundo…
 © Piedade Araújo Sol 2016-12-19

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Poema

norvz austria

quero ver-te,
mesmo que seja ao lusco fusco,
mesmo que seja nas tardes frias,
ou ao nascer do dia
assim, em forma de pássaro
a voar
selvagem e livre
dentro e fora de mim…

© Piedade Araújo Sol 2012-12-12

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A casa grande

ionut caras

A casa grande, era tão grande,
e por vezes tornava-se pequena demais para nós
As nossas vozes confundiam-se como chilreios desafinados
As gargalhadas ressoavam
E tudo era motivo de alegria
Na pressa de viver a vida
E sorver as emoções à flor da pele
Havia o poço cheio de água onde os patos nadavam
O cão Setter que um dia matou  duas galinhas,
o gato amarelo que passava o dia a dormir e que nunca caçou nada na vida,
e as plantas viçosas e bem tratadas.
O jardim era tão grande
Com flores  que tingiam a nossa vista de cores
E as narinas de bálsamos
A casa grande está lá, tão grande, e tão pequena
Ainda resiste ao tempo e ao vento
Abandonada
E  vazia
Tão vazia como nós…

© Piedade Araújo Sol 2016-12-05

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A vida de um poeta

peter neske

Quando lhe faltava  inspiração
andarilhava pela cidade, e pensava
no destino, diziam que todos tinham um,
ou um porto onde ancorar.
Não se importava muito com isso,
bastava um farrapo de nuvem,
um sopro de vento,
e a inspiração voltava silenciosa,
por vezes violenta e sem maneiras,
outras vezes,sorrateira e ardilosa.
Outro dia pensou que os seus passos
eram desordenados,quando o seu olhar leu o sentir
no orvalho de uma planta,
cheia de estilhaços de vidros,
de algum espelho que se partiu
e ali foi cair, sobre a planta desprotegida.
Sentiu-se desconfortável porque
colorir a vida, era seu apanágio.
E voar pela escrita, era necessidade
do corpo e da mente.
Nesse dia a folha branca sem mácula e sedutora
à espera de ser escrita
continuou  impecavelmente em branco
enjeitada sobre a secretária,sem uma letra sequer…

© Piedade Araújo Sol 2016-11-28

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O poeta em criação


Coisa estranha essa de querer escrever sobre as águas diáfanas e cheias de transparências.
 Mas tu dizias:
-É tão fácil escrever sobre as águas…e sorrias.
Um dia tentei entender essa teoria e quedei-me quieta a olhar o mar e seu persistente marulhar.
Entendi o sol em seu beijo nas águas, entendi a lua em seu clarão nas noites mais amenas, e entendi as pinturas que se podem fazer na água.
E entendi (tarde) quando dizias que era fácil escrever sobre as águas.
E senti garatujos de saudades a sulcarem as marés e suas águas, quando por vezes calmas, outras vezes ferozes, vinham beijar a areia.
Entendi a tua teoria,
Aos poetas tudo lhe é possível.
E, nunca tive tempo de te dizer.

© Piedade Araújo Sol  2016-11-21

terça-feira, 15 de novembro de 2016

As mãos

anna o.photography

Tantas vezes demos as mãos.
Entrelaçadas,
pele com pele,
e vezes outras, tantas,ficaram
desamparadas, ao longo do corpo
onde pesavam os anéis inexistentes.

Aprisionamos o que tínhamos,
em marés de devaneios,
levados no tempo e no vento,
tantas vezes, confundimos as mãos,
as cidades,
o horizonte e o poente.

Hoje!
Ao ver o dia despedir-se de mim,
cheio de segredos, e antecedendo os mistérios,
da noite e do novo amanhecer,
sei que algum poeta subiu à escarpa mais alta,
e com as mãos em concha disse o meu nome.

Eu sei! O eco ressoou e chegou até mim

©Piedade Araújo Sol 2016-11-14