Mas, afinal quem és tu?
Já não sei de mim
Não sei quando chegaste
Se foi a noite passada
Qual ave noctívaga
A me rondares o sonho ou o sono
Se foi na alvorada
Ou ao nascer da noite
Sei que
Deixaste apenas
Meus lençóis em desalinho
E um rio de desejo que
Incendiou as nuvens
E
Em meu auxilio
Os anjos entreolharam-se
Totalmente despidos de pudor
E alucinados, esquecidos
Desprovidos das suas asas
Voaram em círculos
E
Hoje
Só eles sabem de mim
Mas. Afinal quem és tu?
.Foto:Silvia-Ana http://plfoto.com/1982523/zdjecie.html
Vamos ver o Tejo
Numa simbiose de silhueta incógnita, navego com um braçado de sonhos, onde avivei, com pinceladas enérgicas, todas as cores possíveis do arco-íris com aromas de magnólias, aprontando um cocktail inédito de pensamentos velozes e explosivos.
Cavalgo, pela tarde, o lamento dos rios que levam sempre a sua água para a foz na certeza de um mar de braços abertos, e penso que ninguém se atreveu a perguntar-lhes se eram felizes assim.
Devem ser!
Eu sei que, por vezes, paro e fico absorvida a olhar as águas que sempre me seduziram e, por vezes, omito a razão que me empurra para as suas margens. Nunca me preocupei com isso, pois lembro-me do poeta que dizia:
“ Inútil ir pedir conselhos ao rio”
Quando, sem a querer entender, medito nessa frase, sei que deve ter algum sentido que me transcende.
Mas quando gravito pelas margens, abraço em mim um sorriso e uma certeza. E apetece-me voar. Gritar ao vento.
- Anda daí, vamos ver o Tejo!
em contraluz
Este silêncio que sei´É Outono
Com sede de sol e luz.
.
Respiro sem esforço, um odor de chuva
Que se transformou em mim, e nas sarjetas
Abandonadas.
.
Corro (ligeira) pelas ruas (desertas
Com as mãos dependuradas no tempo
E a claridade no olhar.
.
E a razão aparente
Porque corro em contraluz
É esta minha pressa de viver.
.
E sobre mim cai um fluir
Reclinado de lusco-fusco
Envolto na minha necessidade de fuga.
.
Foto:kiki123 http://plfoto.com/1548902/zdjecie.html
Um dia cinzento
Contradizendo, eu diria que depois da bonança, vem a tempestade.
E hoje! Danço no aglomerado do cinzento das nuvens, os anjos varreram atabalhoadamente o céu e deixaram um palco vazio, onde posso dançar, rodopiar livremente, sem garras a me tolherem os movimentos.
E danço! Em movimentos ingénuos, nem sempre cadenciados uma melodia dum bailado a solo.
E chove! Bátegas frias, inundam este palco improvisado pelos anjos – eles estão abismados, com a minha ousadia – em cores de cinza e prata, e molho meus pés de bailarina, sem sapatos de cetim, perante uma plateia inexistente de humanos.
E desvairada! Em ritmos frenéticos engenho, novos passos que soam a tempestades, sem sentires de bonança
É tarde! E danço!
E chove!
Foto:45_picks
Talvez um dia a imagem
Talvez um dia, a imagem seja a bruma ,
ou a lava na terra queimada
E o registo do alvorecer
seja a água parada das lagoas em tons de azul.
Talvez submergindo eu seja uma,
sombra em forma de musa sentada na serenidade ,
das águas geladas, respirando o odor que
a foz envolveu na sua ininterrupta cavalgada,
e acautelou na mensagem da luz enlouquecida.
E cerco-me de emudecimento
E bebo o olhar circunspecto
na limpidez das águas
que não quebra a perfeição do momento.
E é de cristal a pureza
No fluído da água
que agora é um rio, que os meus olhos observam
na tarde estendida
e no feitiço da paisagem.
Foto: darek893
Não há maior ventura

Não há maior ventura
de que olhar-te de mansinho
e percorrer a visão
pelo teu rosto sereno, apesar do teu olhar
por vezes ser distante e completamente inexpressivo
.
Não sonhas sequer que os traços do teu corpo
são sempre um novo segredo
que se reaviva em cada meiguice que te faço
e quando vagabundeio os meus dedos
pelo teu cabelo suave, é como se fosse
sempre a primeira vez.
.
. E quando nos despedimos, eu levo sempre
o teu perfume solto
arreigado em mim, aliado na saudade
e plantado numa letra de um fado
que ainda ninguém cantou.
.
Foto:aniawojszel
O Sonho

Há quem pense
Que o sonho é apenas uma ilusão
Que nasce durante a noite
E morre ao amanhecer
Mas eu sei que o sonho
Pode ser uma realidade
Que trago comigo ao acordar
E asfixio ao nascer do anoitecer
E se acham que o sonho
Morre com o poeta, eu digo
Que o poeta nunca morre
Porque o sonho com ele apenas repousa
Mas, ainda assim, eu penso que o sonho
Faz parte da saudade
Que o poeta deixou a navegar
Na imensidão do mar.
foto:klojt
Parei

Não sei que trilhos me levam
Nesta caminhada sem término
Neste olhar burilado de incertezas
Não sei do mutismo das letras
Nem do brilho que ao longe se ocultou
Não sei se vejo e o que vejo
Ou o que omiti sem esquecer
Não quero desvendar nem palmilhar
Secretos sons disfarçados de palavras
Não posso mais, estou fatigada
Quero novamente despertar
Na calma do meu esconderijo
Ouvir o trinar dos pássaros
E sorrir até trucidar a distância
Envolta em ruídos íntimos.
Foto:Bryzeida
a fundo perdido

Sem sequer o entenderes,
acho que sempre foste meu.
E eu tua, quando as mãos se enlaçavam
e os corpos se fundiam através dos lábios,
rios que primeiro se encontravam
até se deitarem num único mar levantado.
.
A tua (nossa) rebeldia contagiante
era a chama que nos detonava.
E, amar em fogo perigoso,
era tudo ou somente o que nos restava
quando tanto mais havia para amar.
.
Sem o sabermos, foste meu.
E eu tua! Por querer,
renegávamos a partilha consumada,
mas ansiando a nova entrega, sem datas na luz
e sem variações inesperadas de marés.
.
Se não te tenho, o tempo fica inquieto.
Invento quimeras no espaço por ti abandonado,
onde o odor almiscarado se demora,
enraizado, das mãos às narinas desprotegidas.
.
Nunca haverá correntes que te consigam prender.
Nem a mim, e eu jamais sentirei que és ou foste meu
(e eu tua).
Por isso, mesmo que nunca te sintas meu,
nem eu tua, nada importa,
se tudo faz parte
de um investimento a fundo perdido em nós.
.
Não me procures por aí

Não me procures por aí
(desertei da habitação dos sonhos)
Vivo nas catacumbas dos xistos
Esquecida nos esconderijos
Cobertos de poeiras moribundas.
Não me procures aqui
(escondi-me numa burca)
Não tenho rosto, nem rugas, nem sonhos
Levantei voo e perdi o meu norte
Em tempestades de areias.
Não me procures
(feneci no voo improvável)
Estarei aquém de ti
No olhar das gaivotas
E nas vagas do mar.
.
Foto :- laik 170