terça-feira, 4 de maio de 2021

As Mães

 

As mães são fadas silenciosas,
sem varinha de condão,
que circulam pela casa a tentar proteger tudo e todos,
de todos os males,
e para que nada falte e tudo se mantenha em harmonia,
as mães não deviam morrer,
deviam ser sempre fadas prontas a nos proteger de todos os perigos.

A minha mãe era uma fada,
com uma cara bonita e macia como seda,
que mais parecia uma boneca de porcelana,
era tão frágil, mas muito sensível e astuta,
que também sabia ser dura e enérgica,
quando a circunstância assim o exigia.

A mãe partiu numa noite aprazível,
sem se despedir, sem um queixume, sem mágoa,
foi silenciosa como um anjo.
Apenas partiu num sono leve,
e deixou-nos o saber, e uma saudade que prevalece,
para todo o sempre.

Autor: ©Piedade Araújo Sol 2021-05-02
Imagem : Gustav Klimt

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terça-feira, 27 de abril de 2021

Escrevi sobre silêncios

Escrevi sobre silêncios e sobre os ecos que ressoam,
na ausência seca das palavras,
e o vento calou-me o silêncio,
e o meu cabelo voou sem cadência e sem rumo.

Tenho vagabundeado por aí,
ao sabor do vento e da madrugada,
livre de amarras,
e a semear duvidas e caos,
num labirinto de tempo libertado,
um destempo de casualidades.

Tenho um rio coberto de azul
que se abalroa inundado de água,
que se solta e encontra sempre o mar,
e que liberta as cores que me levam,
a ser onda e ser palavra.

©Piedade Araújo Sol 2013-04-23
Imagem : Mariesol Fumy

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terça-feira, 20 de abril de 2021

O som do violino


David Garret

Esta noite sonhei com um violino
que expelia sons
entornados em lágrimas
secas
desnudas
desprotegidas.

Era uma ária triste
mas tão bela na sua tristeza
era pura poesia
que o violino gotejava
despertei deliciada e saí â procura
daquela melodia, algures.

Senti uma quietude
na manhã que nascia
em pura magia de cor
movimento,
aromas
e sons.

Inexplicavelmente
julguei sentir ecos de alguém
que chorava
silenciosamente
agarrado às cordas de um violino
e a um sonho que expirava.

©Piedade Araújo Sol 2021-04-19
Imagem : ChristophKstlin

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terça-feira, 13 de abril de 2021

Ao vento


Às vezes gosto do vento
sei que com ele transporta sementes
de outros países
que se colam ao solo e daí
germinam novas plantas a até frutos.

Por vezes as minhas ideias ficam claras
ao sabor do vento e eu vou a andar
a saborear o que a memória me traz
em golpes de amor
ou raiva ou apenas memórias.


O vento e a chuva não combinam
é como um caos que se instala em mim
e vou febril amachucando o que me faz mossa
e agarrando o vento
fecho os olhos e voo na minha alucinação.

©Piedade Araújo Sol 2021-04-12
Imagem : katerina plotnikova

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terça-feira, 6 de abril de 2021

Hoje

Resguardo em mim o dia
que se fina no horizonte
amanhã será outro dia
que novamente guardarei
serei uma gaivota a ensaiar o voo
serei um melro a cantar pela manhã cedo
serei o que me apetecer ser
porque só assim o meu voo
será de autêntica liberdade.
.
©Piedade Araújo Sol 2021-04-05
Imagem : Aldara Ortega

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terça-feira, 30 de março de 2021

Um mar de aromas cresce

Um mar de aromas cresce
enquanto me ofereces o mar
reflectido nos teu olhos.

Entre as minhas mãos
tenho os teus cabelos que entrelaço
seda macia deslizante entre os dedos.

Somos grãos de areia enlouquecida
e regressamos ao país onde as aves repousam
sem pátria e sem lugar cativo.

E por entre as dunas
eu sei que seremos felizes
olhando o barco que navega.

E onde nos descobrimos na luxuriante
sede de corpos que mitigam
a sua sede.

© Piedade Araújo Sol 2013-03-12

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terça-feira, 23 de março de 2021

Luz ao fundo da sombra


Não é raiva que sinto
talvez seja mágoa ou desilusão
mas essas palavras que oiço
por vezes em forma de conforto
são ambíguas
são em forma de máscara
são vãs.

Vejo indiferença
vejo dor encapotada
vejo (des)amor
estilhaços levados pelo vento
e o vento não tem culpa
do porquê de tanta dor
e tanta vida decepada.

Eu sei!
Não vejo
mas deve existir
Luz
ao fundo da sombra
que desfoca o ver
e o sentimento.

©Piedade Araújo Sol 2021-03-22
Imagem : Saul Landell

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terça-feira, 16 de março de 2021

Caminhante


Ajeito a máscara
e as roupas que me restringem
Ateio a noite e liberto-me dos espectros
que vejo retratados na penumbra das ruelas.


Tenho um passo ligeiro, quase que atropelo a noite
esboçada no chão molhado e inseguro.
Guardo as mãos no fundo dos bolsos
cheios de sonhos inviscerados,
agarrando-os com firmeza para que não se desprendam,
e se percam nos trilhos que desenho.

E sei que um rio frio me contempla
na ligeireza do ir
E já sem máscara nem pressas
sorrio à madrugada livre
e indiferente
que se alonga sobre mim e
sobre a cidade grande


©Piedade Araújo Sol 2013-03-19
Imagem : Yulia Emtsova

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terça-feira, 9 de março de 2021

O espelho vazio


Muitas vezes o espelho mente
e te enganas sem saber
ou acreditas no que pensas ver
para a surpresa imediata ser menor
e então és como uma borboleta.

Se tudo fosse normal e alinhado
o teu rumo não era esse
apenas um atalho que não devias seguir
entre o sonho e o autêntico
escolheste o perigo sem sabe

Olhaste o espelho e foste no que viste
a vida leva-nos por onde vamos
ou queremos e por vezes habitamos
apenas no engano que é nosso
e não queremos admitir, os nossos erros.

Nas emoções que pensamos controlar
e não sabemos ou não conseguimos
no entanto o equívoco pode ser transparente
e quando estamos no meio do trilho
não sabemos se devemos continuar ou parar.

Não sei se o meu olhar se perdeu no caminho
ou se eu me perdi nele sem olhar para trás
nunca terei coragem de olhar o reflexo
que o espelho me dá agora
não quero ver um cenário oposto.

Com novas cores que me ofuscam o ver
e que misturado com o caminhar
é um trilho que não me leva a lugar algum
não existe
é apenas parte de um espelho vazio.

©Piedade Araújo Sol 2021-03-08
Imagem : Saul Landell

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terça-feira, 2 de março de 2021

Se hoje

Se hoje fosse Primavera diria que precisava do verão
Porque a metade que me falta eu conhecia-a no verão
Mas com o tempo as estações mudaram
Por vezes o inverno parece verão e vice-versa
E eu ando por aqui a armazenar palavras
Para edificar um castelo de poemas
Por vezes sem data e depois nem sei se é poesia ou não
Apascento as palavras como se fossem ovelhas
Mas também as faço dançar e sou como elas
Uma bailarina de um palco que ninguém visita
Porque é apenas uma utopia
Por vezes elas voam nas asas de um colibri
E na primavera, chegam em bandos de andorinhas
Mas, eu guardo a mensagem
Embora muitos não compreendem
Não querem
Não sabem
Não apreciem
Entre uma estação e outra
Entre uma partida e uma chegada
Mesmo que os barcos fiquem fundeados
E eu permaneça no cais
Eu sei que sempre escreverei palavras
Que podem ser poemas
Ou não…


© Piedade Araújo Sol 2021-03-01
Imagem : Ruslan Bolgov

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Procura



Insisto em remar contra a maré
Pretendo um ancoradouro seguro
Para descansar meu corpo
E explorar os silêncios
Que não quero compartilhar
Numa espécie de egoísmo invulgar


A minha vida é feita de jornadas
E no entanto repleta de ausências
De precipícios profundos e corrosivos
De labirintos toscos
Onde só as ervas malignas imperam
E fazem pousio


Ando desorientada e dispersa
Nos cinzentos dos dias em que flutuo
Ou desencontrada das outras aves
Não sei cadenciar o voo irrepreensível


Minhas palavras soluçam
Num emaranhado de letras
Ébrias pela solidão
Numa chuva de sal


Eu apenas procuro um porto de abrigo
Que ainda não encontrei
E quando a noite chega carregada de mistério
Eu sou uma metamorfose de estrela
Com uma luz breve mas pertinaz


© Piedade Araújo Sol 2021-02-22
Imagem :Svetlana Belyaeva

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Chamam-me bicho do mato

 


Chamam-me bicho-do-mato
Inspirado Aqui : https://brancasnuvensnegras.blogspot.com.


Fecho os olhos e lembro-me que me dizias muitas vezes, que eu parecia um bicho-do-mato.
Sim, em parte terias razão, mas digo, só em parte.
Que sabias tu de mim? Dos meus medos, dos traumas da minha infância que ainda hoje e sempre carrego comigo, do bullying na Escola Básica, mais tarde no trabalho e outros segredos meus, de que nunca falei a ninguém.
A minha infância com os meus cabelos desatados sobre um corpo magricela que era mais ossos que outra coisa.
No princípio ficava incomodada mas, quando no silêncio do meu quarto caiado a cal branca, pensava em ti, e nas tuas palavras, as outras que me dizias. Então eu deixava que os sonhos desmaiassem em mim, como pétalas de flores coloridas e perfumadas.
Depois de tanto tempo, ainda fecho os olhos e imagino-te. Por vezes sinto a minha mão sobre a tua, e o teu cheiro que ficou entranhado no meu corpo para sempre.
Sei que são apenas as boas memórias que eu quero recordar com toque de algodão, aromas de mar, e a tua boca com sabor a mirtilos.
Nós. Há muito tempo!
Sentados na esplanada da praia. Quando tu falavas dos barcos eu dizia sempre:
- Eu gosto do mar! Gosto de barcos lembra-me o meu pai.
Sabes, ainda sou bicho-do-mato, ainda tenho os mesmos amigos de há vinte anos, ainda ando com o cabelo desatado, e os meus segredos, serão sempre só meus, órfãos de pai e mãe, alguns em forma de sonhos outros em pesadelos, que ainda me visitem durante a noite cheia de sobressaltos com o corpo em completo alvoroço, e com um gosto amargo na boca.
Tu não sabes, mas além de ser um bicho de mato, eu sempre tive medo do escuro.
Ah! E ainda durmo com uma luz de presença.
Isso também não é proeminente.
A saudade talvez seja, mas é uma saudade boa que ainda e sempre guardo de ti…

© Piedade Araújo Sol 2021-02-08
Imagem Rishka 

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Quero espatifar as palavras

 Quero espatifar as palavras
desobstruir as gavetas e soltá-las
ao vento â chuva ao sol.

O poeta é um sábio mentiroso que
recolhe as palavras como se fossem beijos
com sabor a mirtilos.
 
Ou chora lágrimas de cristais puros quando
o poema se propaga
 
É vosso…
se não gostarem podem sempre ignorar.
 

©Piedade Araújo Sol 2021-01-27
Imagem : Nikolay Tikhomirov

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Detalhes


a sapiência que leio no teu olhar, apazigua o meu medo 
e o calor de um abraço teu em forma desse olhar, 
é só o que eu preciso.

Escrevo como um pássaro voa sem rumo
 
Sem razão ninguém me roube esse prazer 
de escrever em tudo, até nas águas 
serenas ou por vezes amotinadas. 

Deixem-me escrever e mesmo que ninguém leia, 
não faz mal, 
é jeito meu, apenas. 

E para não chorar, 
deixem-me voar nas palavras,
por vezes sem nexo (?) 

Ou do que só eu entendo e nunca ninguém quis entender. 

©Piedade Araújo Sol 2015-02-02
Foto:Desconheço o autor

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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Mapas


Foto : Rachel Baran.

Na memória que detenho
o teu corpo é um mapa enigmático
em que ouso tocar com meus dedos
e demorar-me em certos espaços
desenvolver o beijo e afastar neblinas
deambular as mãos em toques
que lembram o cetim
por vezes seda
aquietando a sede que sinto
como se no delírio de uma memória
todas as nascentes
fossem rios insondados correndo em direcção a uma foz
sem ser o mar.

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Autor© Piedade Araújo Sol 2021-01-25

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