terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Não olhes as minhas mãos

Anka Zhuravleva
Não olhes as minhas mãos,
não tentes espiar os silêncios,
nem desvendar os segredos dos devaneios,
que ainda guardo nelas.
É muito estranho,
mas são elas que muitas vezes – tantas vezes,
escondem no bolso do meu vestido,
os sonhos que ouso sonhar.
E não te inquietes com as rugas vincadas,
que já sulcam o meu rosto,
são mapas soltos, sem nada para analisar,
apenas estórias passadas.
E como uma oferenda,
olha apenas o poema e sua mensagem,
que as aves deixam soltar,
no seu voo rítmico e sublime.
© Piedade Araújo Sol 2017-02-20

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Mensagem

 Diggie Vitt

Dizes que já não converso com as palavras
mas, eu aprendi que sem elas não sou ninguém
por isso mesmo que o comboio passe
e leve a passageira que por vezes sou eu
digo que nunca estou só, porque aprendi a viver
em função delas -  as palavras.
Saem por vezes amargas e cheias de desdém,
outras vezes,  dóceis deslizando em cascata
como as águas.
E o tempo passa voraz,
ou eu passo pelo tempo, mas elas ficam
aquém ou além da margem.
Dizes que é assim, que elas apaziguam o dia,
e na noite em que os silêncios imperam,
elas podem desobstruir os sonhos,
e voarem para além da escarpa,
onde o calor fenece e o frio golpeia.
Mas, não me peças palavras que não lês
ou lês, e finges que não entendes,
porque serei eu em completo desalinho,
que as guardo cá dentro,
e quando  explodem , não é no peito
mas na folha inocente que tenho sempre
sobre a mesa…

© Piedade Araújo Sol 2017-02-13

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

das palavras II

desnudei-me das palavras
dos momentos
dos acasos
e senti meu corpo puro...

lavei a minha alma
e no meu olhar
consegui abranger
a plenitude
desta paz...

enlaço a ternura
do momento
do ocaso
e visto-me de palavras….
.
© Piedade Araújo Sol Dezembro/2006 

(Foto Lost de Paulo Madeira)
Reeditado

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Insónia

Anka Zhuravlva
        Sobre o sono
Ausente e dolente
A insónia insiste
Branca. Deitada. Vestida
E a noite obscura
Densa… assiste
A parede branca, gelada
A cabeça encovada na almofada
O frio a desgastar a pele
E vai
Desfiando pérolas do fio
Que guarda na memória
Os olhos cerrados
O corpo extenuado
Em posição fetal
O cheiro das magnólias
Cheias de orvalho
A manhã que desponta
O vento que fustiga
E assobia em constante lamento
E o dia nasce grávido de sol
© Piedade Araújo Sol 2017-01-29

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Em Janeiro

  • :




Em Janeiro
com o frio a infiltrar-se nos ossos
Lisboa não cabia nos teus olhos
quando te perdias pelas ruelas desconhecidas
e a ansiedade te invadia
o rosto incendiado de ternura.

Quando olhavas para as montras
e ajeitavas os cabelos de chuva
descaídos pelas costas
não sei que imaginavas
quando com o meu casaco
te cobria o corpo franzino a tiritar.

Os teus sonhos talvez fossem
os barcos que navegavam no Tejo
e as tuas mãos que entrelaçavas nas minhas
nas noites em que cintilavam estrelas que eu nem via
e tu sorrias calada.

Eu não sabia -ainda - que em ti existiam
sabores de sentimentos ocultos
e um sorriso de sal e algas tão grande
que sobrevive no tempo e nos teus olhos,
e que no teu ser os afectos estão entranhados nos ossos.

São eternos como os barcos do Tejo.

© Piedade Araújo Sol 2012-01-23


(Reeditado primeira publicação em 2012-01-24)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

às vezes

Olga Astratova

às vezes ainda pego nos pincéis,
quando fatigada estou das fotografias e da escrita,
dissolvo cores e pinto coisas sem nexo.
sem mágoa sem culpa,
apenas abstractos como uma metamorfose, ou catarse
às dores que ficaram desse mês de Janeiro de todos os anos que se sucederam.
às vezes entro na Basílica, 
e em monólogos que só eu e tu entendes (entenderias)
falo contigo, para amenizar as cicatrizes que ficaram.
e saio com a alma mais leve,
e o coração fortalecido, mas não esqueço,
dia 1 foi o dia que partiste e dia 11 era o teu aniversário.

(em memória do meu pai)


© Piedade Araújo Sol 2017-01-11

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

areias

   

Areias na minha mão
que a onda molha e beija
em vão
como se não fosse o tempo
ou o vento em contra mão.

E a brisa que rente
à cara
fustiga como se vento
fosse castigando
quem se sente pecador ou não.

Abro as mãos e a areia molhada
cai abrupta na dança
que entrelacei nos dedos
desprotegidos da sensação
e da ilusão, dançando no chão.

E fica o perfume do mar
que nas narinas se prende
na quimera de saber ser aroma ou não
melodia sem pauta
sem cifras sem sequer ser canção.

Areias na minha mão
agora, apenas  vestígios são
e ficam deitadas na praia
espalhadas e sossegadas
esperando o beijo do mar ou não…

©Piedade Araújo Sol 2017-01-10

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

pazes

sasu riikonen
entra no dia como um peregrino
e o dia entra
como um refúgio apaziguador.
e o tempo deixa espaço
para  as pazes
com os fantasmas.

depois,
a noite pode chegar…

© Piedade Araújo Sol 2017-01-03

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Constatacões

trini schultz
O mundo está repleto de muralhas,
onde os silêncios habitam, no negrume
dos labirintos sem cor.

E a cor do sorriso que por vezes esboçamos para fora,
é pouco,
muito pouco para diluir esses silêncios.

Que um bando de pássaros inunde o mundo,
que sejam pombas brancas com asas multicores,
a transportar paz, em nossos corações.

E em balanço do ano que caminha para o seu términus,
que nos muros e em todas as ruas  da cidade, ressurja um sorriso
num olhar azul inundado de luz e esperança.

© Piedade Araújo Sol 2016-12-26

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

prece

Elizabeth Gadd
hoje, tudo o que quero dizer,
cabe na minha mão fechada,
porque eu quero dizer aquilo que, não
sossega o olhar em dias de inquietação.

e em tempo de festas,
e embustes.

eu só queria que a paz,
transbordasse nos corações,
dos senhores do mundo…
 © Piedade Araújo Sol 2016-12-19