terça-feira, 25 de abril de 2017

não sei ...

vincent bourilhon

não sei se este voar,
que escuto no silêncio gritado do tempo
é um caminho, ou é simplesmente
um atalho de mim, onde me penitencio
no simples voar dum pássaro ...

©Piedade Araújo Sol 2017.04.24

terça-feira, 18 de abril de 2017

um esboço

Karen Hollingsworth
passeio os meus olhos com um afago sobre o teu cabelo
curto
olhas desinteressado um barco que navega no rio
e  eu preservo o teu olhar
num desenho por executar.

esquissos de ti
formas, cores e traços
em
estilhaços de sensações em contramão.

e o sorriso, o sorriso
o teu
envolto na brisa que descai no dia
tépido
timidamente,mas sem equívocos
arquivo-te num olhar (no meu).

já tenho motivos para voltar a pintar.

© Piedade Araújo Sol 2017.04.17

terça-feira, 11 de abril de 2017

medos...

omar ortiz
ainda pode fingir que esvoaça sobre a planície,
e dança,  debaixo da chuva,
até ficar completamente encharcada,
sem ninguém ver, ou saber.

manias.

ainda sobra tempo para saborear as cerejas,
e olhar o reflexo do pôr do sol no tanque grande.

nunca  fala do medo nem dos medos,
porque seria falar de algo,
sem limites agendados,
ou sequer anunciados.

convocatórias.

não vai chorar a partida,
partir é ir para  não voltar,
apenas,
imagina voltar, sem partir.

trocadilhos.

nem olha as mãos, olha os pés,
e os pés estão  grandes,
grandes e no entanto tão pequenos
para se fazerem ao caminho.

e sente medo, um medo singular.

©Piedade Araújo Sol 2017-04-11

terça-feira, 4 de abril de 2017

escudo-me nos silêncios

olga astratova

escudo-me nos silêncios
que clamam a serenidade
essencial
nos dias mornos, que andam esquivos
abraço, ainda a voz do vento
e seu eco
numa prece que se sente
e não se diz.

só o tempo…translada
a limpidez das águas.

© Piedade Araújo Sol 2017-04-04

terça-feira, 28 de março de 2017

poema..apenas

Diggie Vitt

há poemas que não se escrevem
nem se pintam
com as cores que a vida nos oferece
como bênção,

são poemas que se transmitem
apenas pelo olhar,

transbordantes de sentires
fiéis
e por vezes completamente
desordenados,

há poemas que nunca serão poemas,
e olhares que sempre serão poemas,
na forma fiel de quem
os souber ler.

© Piedade Araújo Sol 2017-03-28

terça-feira, 21 de março de 2017

palavras em convulsão

olga astratova

dentro de mim, tenho labirintos
que enclausuram palavras
que se emaranham no desacerto
das partidas.
com elas navego
ao sabor do reencontro
de algum porto estável
onde as possa amenizar.
formam cinzas de exultação
que edifico num espiral de emoções,
cercam-me palavras líquidas.
e gotejam em vertigem
ao encontro de um pouso
secreto num estuário de paz.
© Piedade Araújo Sol 2017-03-21

terça-feira, 14 de março de 2017

memórias

Natália Drepina

memórias difusas na monotonia do tempo,
e o sorriso que ainda paira no pensamento,
e o cheiro das flores,
no trazer do vento,
e a luz das estrelas na eira,
e o abraço que não foi dado,
nesse (outro) tempo,
e agora a memória,
que lavro secretamente no papel,
sem ser semente,
apenas tentando entender,
ou encontrar os cristais,
da lágrima que desce,
e cai lentamente,

docemente
no esvair do tempo.

©Piedade Araújo Sol  2017-03-14

terça-feira, 7 de março de 2017

O dia não é grande nem pequeno

Diggie Vitt

O dia
tem as cores que tem, e é livre
de as escolher, sem pedir permissão.
Por isso em dia pardo como hoje,
caminhei por aí a passear a melancolia,
por atalhos desconhecidos para mim,
perigosos e inacessíveis.

E, quando subi à escarpa mais alta
para avistar a cidade
entornei toda a melancolia
num papagaio de papel
e ela flutuou como se o dia
não finalizasse
e a noite nem chegasse.

O dia não é grande nem pequeno,
tem as horas que tem,
e é isso …

© Piedade Araújo Sol 2017-03-06

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A casa

neil driver

Na solidão da escuridão que tombou sobre o vale
E sobre a noite
Alguém reclamou a minha presença

Eu estava ali, sem estar
Mas, tanto tempo se tinha passado
Tantas luas outros tantos sóis
E tudo seguiu o seu curso normal

A água do regato não parou de correr
E os pássaros, voltaram todos os dias
Pelas seis horas da manhã, para a sua sinfonia
De chilreios cadenciados


A casa estática ainda existe
E as maças caíram desamparadas
Sobre o chão estéril

Hoje  a manhã está leve como seda
Com o sol a entornar seus raios em todo o seu fulgor
Enlaçando todo o vale

A  minha voz é um bocado de silêncio
Que tenta aquietar o desconforto que me assola
É preciso esquecer o abismo do tempo

Desenho labirintos desordenados de refúgios
E prendo o olhar na luz que pincela o horizonte

© Piedade Araújo Sol 2017-02-27

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Não olhes as minhas mãos

Anka Zhuravleva
Não olhes as minhas mãos,
não tentes espiar os silêncios,
nem desvendar os segredos dos devaneios,
que ainda guardo nelas.
É muito estranho,
mas são elas que muitas vezes – tantas vezes,
escondem no bolso do meu vestido,
os sonhos que ouso sonhar.
E não te inquietes com as rugas vincadas,
que já sulcam o meu rosto,
são mapas soltos, sem nada para analisar,
apenas estórias passadas.
E como uma oferenda,
olha apenas o poema e sua mensagem,
que as aves deixam soltar,
no seu voo rítmico e sublime.
© Piedade Araújo Sol 2017-02-20