terça-feira, 18 de setembro de 2018

Não me procures por aí

JAROSLAW DATTA
Não me procures por aí
(desertei da habitação dos sonhos)
Vivo nas catacumbas dos xistos
Esquecida nos esconderijos
Cobertos de poeiras moribundas.


Não me procures aqui
(escondi-me numa burca)
Não tenho rosto, nem rugas, nem sonhos
Levantei voo e perdi o meu norte
Em tempestades de areias.


Não me procures
(feneci no voo improvável)
Estarei aquém de ti
No olhar das gaivotas
E nas vagas do mar.

Autor : © Piedade Araújo Sol 2009/09/15

terça-feira, 11 de setembro de 2018

há chamas adormecidas no sono dos violinos.


Violeta Radkova

há chamas adormecidas no sono
dos violinos.
.
gemidos tangentes transbordam os sentidos
desordenados, e uma dissimulada melancolia,
dorme encoberta em finos silêncios.
.
um dia, um incêndio
irá despertar o sono dos violinos,
numa transmutação de notas,
de alguma pauta abandonada.
.
há cinzas espalhadas no acordar
dos violinos.

©Piedade Araújo Sol 2009-09-01

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Em pinceladas de Iman Maleki

Gostava de saber ensinar-te
do voo das gaivotas
a sulcar o céu sob as nuvens
e saber do gosto
da flor do sal.

E, quando no fim da tarde nos sentarmos
na praia molhada, gostava de te falar das areias finas e
do seu singular deslizar
no côncavo das minhas mãos.

Mas eu não tenho a sabedoria dos filósofos
e nem o azul que espreita no céu
despontaria na minha sede de saber
e sequer viria em meu auxílio.

Porque fico a olhar e calo
o voo das gaivotas, que também é o meu
(e o teu)
e escrevo apenas o verde e cinza dos teus olhos
(nos meus)
em pinceladas de um Iman Maleki.*

©Piedade  Araújo Sol 2009-08-11
.* Nota: Iman Maleki é um artista iraniano nascido em 1976, as suas pinturas impressionam pelo realismo, parecem fotografias. Iman Maleki desde criança gostou de desenho,e aos 15 anos começou a estudar pintura com Morteza Katouzian, maior pintor realista do Irão.
Foto:Sunlight de Iman Maleki

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Testamento canino


Não procures o silêncio, nas brumas da alma, se apenas chegam murmúrios de vento breve a te enaltecerem a vista – turva.

Por vezes o escuro - nosso - é a paz ou o refúgio de outrem, por vezes uma partida para o lugar dos limbos ou do descanso dos deuses, por vezes em forma – nuvem - de cão a pairar na nossa sede de esperança.

Na deslembrança , que não será entorpecimento pinta uma tela com cores, as mesmas que fazem desta ausência forçada, ou por vezes , tão-somente, apenas um esgueirar-me para navegar - voar- com as estrelas que agora brilham com mais aconchego.
E fica com a ternura a derramar-se nos teus olhos inundados de saudade e a guiar-te os passos pelos trilhos que um dia partilhamos.
.
Nota:Memórias de um cão que partiu e deixou esta mensagem ao dono.

© Piedade Araújo Sol 2011-07-21

terça-feira, 21 de agosto de 2018

nas minhas mãos

Cristina Coral
nas minhas mãos, cabiam todas as tardes em que eu olhava o rio
e o confundia com o mar brilhante que havia nos teus olhos
por vezes plácido
outras vezes quase colérico
quase revolto,

mas as minhas mãos hospedaram tantas vezes as tardes e os dias
que por vezes as palavras foram seda
e a maciez delas em ti foram apenas ocaso
foram ternura desmedida e luz a escorrer em cachão,

as minhas mãos resguardaram o meu mundo
e eu fiquei aqui
nesta margem a tentar prolongar os tons em sépia que o    crepúsculo
ainda e sempre nos mimoseia.

© Piedade Araújo Sol 2013-02-26

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os silêncios


laura makabresku
Ando dentro dos silêncios
Amachuco as palavras
Que me morrem nos lábios

Os silêncios são a rotina
Que as palavras não quebram
Esgotadas e esquecidas

Tenho medo!
Das palavras
Tenho medo
Dos silêncios!



© Piedade Araújo Sol 2006-08-14

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Fuga da insónia

Pavel Mitkov
É tempo de aniquilar este gesto inócuo,
esta cisma de olhar
os barcos quietos.

É tempo de navegar,
ainda que o meu corpo
jamais saia deste cais.

É tempo de tomar um rumo,
e encetar a fuga
do reino das insónias.

©Piedade Araújo Sol 2008-09-09

terça-feira, 31 de julho de 2018

Sei

Cristina Coral
Sei de tardes assassinadas pela noite,
e de manhãs atropelando o dia,
que galopavam a trote de magia.

Sei de castelos que visitei,
das ameias previsíveis,
e do sol nos olhos embevecidos.

Sei das linhas do teu corpo, perfeitas,
de lençóis de linho da terra,
cheirando a alfazema.

Sei e nem sei se sei.

©Piedade Araújo Sol 2009/07/28

terça-feira, 24 de julho de 2018

Há poemas esquecidos

MirellaSantana 
Há poemas esquecidos no fundo da noite...
Penetro num espaço que não é meu. Respiro o ar viciado dos cigarros que não fumei, e sinto a solidão nos rostos que desfiam sorrisos na noite parda, esquecida em bebidas agridoces, servidas em copos de vidro. Não há água que sacie a minha sede. A minha garganta está seca. No fundo da sala alguém coloca música misturando sons, que se formam em ecos. Na penumbra. Os corpos oscilam entre espasmos de alegria ou nostalgia disfarçada.
Há poemas esquecidos no meu olhar e no fundo da noite….
©Piedade Araújo Sol 2007-01-09

terça-feira, 17 de julho de 2018

Darei voz às vozes surdas

Marcela Bolivar

Arrumei todos os livros nas prateleiras mais altas
Não lhes queria aparecer em sorrisos imaginários
Para que o cântico dos sonhos morresse de vez nas palavras

Quis inventar crisântemos e riscar a minha pele
Com véus em murmúrios escuros de organza
Cerzidos por linhas cruas de tons densamente nublados

Florescia em mim a memória das coisas amargas
Porque era noite e tinha frio nos caminhos tortuosos
Que de tão ásperos percorria a sangrar num martírio

Estava demasiado cansada para prosseguir submersa
Na asfixia da insónia fertilizada por laivos de pesadelos
Indecifráveis que medravam como as ervas daninhas

Mas vou reler os livros
Darei voz às vozes surdas para que me deixem viver

©Piedade  Araújo Sol  2009-01-27