terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Chove

Eduardo Gordeev

Chove!

Com um olhar
seguro meu desabrigo
latente num ápice
destravo as barreiras
e despojada de nada
olho alheada
o equívoco de ser
assim.

A chuva não tem cor
e eu sei que queria
uma chuva de cores
pendurada no ar
e que ao cair
se transformasse
em cristais
e que flutuasse
em mim
como este sonho
que me encandeia
me seduz
e me engana.

A chuva devia ter cores

© Piedade Araújo Sol  2005-10-29

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Portas

Diggie Vitt
Fecho portas.

Não há espaço no meu silêncio, para escrever o dia que se desvanece. A mágoa renasce nas lembranças cor de cinza que flutuam escarnecendo de mim.

A mágoa não tem cor.

As portas fechadas, são páginas despedaçadas, que as trevas encobrem nas masmorras bafientas e terríficas.Não as vou abrir.

Deitada no silêncio, forçado, eu respiro, defronte da praça repleta de plátanos, que soltam algodão esvoaçante dos seus frutos maduros, que me irritam as narinas.

Talvez eu seja um plátano no meio da praça, mas, os plátanos não se vestem, como eu estou, com um vestido de linho em tons neutros de verde seco.

O sono é breve e desassossegado. Um cheiro de noite invade o dia.

Fecho portas, que já estão fechadas.


© Piedade Araújo Sol 2009-06-09

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Às avessas

Julie de Waroquier
devolvo um sorriso,
e na tarde que cai,
aliso minhas quimeras,
espalhadas por aí,
dispersas,
folhas de papel,
sem cor definida,
e por escrever,
aqui por desvendar,
remexo meus pensamentos,
sinto-me serena

(para ser lido também de baixo para cima)

© Piedade Araújo Sol 2006-05-04 (reeditado)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Poema

Damian Drewniak

O poema pode nascer nos teus olhos, sem que tivesses feito nada por isso.
Um sorriso apenas e o poema salta para o papel, voa e ganha asas pelas planícies de um lugar em silêncio na retina dos teus olhos.
Galga fronteiras como se fosse um cavalo alado, a galopar nas asas secretas da tua imaginação prenhe de acasos.
O poema nasce em ti e nos dedos esquivos, que se tornam dóceis que escrevem palavras que dedilhas como se fossem renda de bilros que um dia viste nas cortinas da casa da tua avó.
Sabes que um dia os lançaras ao fogo e que serão devorados pelas chamas sequiosas, como se fossem elas, abutres em redor de carne putrefacta.
Um dia apenas a memória tecerá em ti memórias (outras) de um poema que ninguém leu e que o fogo devorou.
Um dia que pode ser já hoje!
.
© Piedade Araújo Sol 2012-05-15

terça-feira, 14 de novembro de 2017

a lengalenga das mãos

Istvan Sandorfi
Eu podia pegar nas tuas mãos e dizer-te palavras bonitas e sei que elas já não significam nada.

Naquele outro tempo, eu pegava na tua mão e ela segurava a minha, assim, como se fossem as duas uma só.

E hoje as tuas mãos devem segurar outras que se encaixam nas tuas, como as minhas, um dia se encaixaram.

E eu podia escrever textos e cartas e até poemas, com palavras belas e cheia de ternura, mas eu não sei se alguma vez, o significado que eu lhe daria, seria compreendido por alguém.

E eu sei que a vida é bela, e não sei porque, às vezes, eu vejo a vida a passar e fico para aqui alheada dela.

Queria escrever que a felicidade é sentir que a solidão afinal pode ser compartilhada, e que as minhas mãos por vezes ainda sentem o calor das tuas, embora os meus dedos, já não se entrelaçam nos teus, e, penso que elas, as tuas mãos continuam macias e levam outras mãos a caminhar pelas palavras bonitas que eu podia dizer e que sei escrever e que talvez hoje já não significam nada...

© Piedade Araújo Sol 2007-01-11

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Uma história sem história

Anka Zhuravleva
Não escrevi uma, mas, várias histórias que falavam sobre ti.

Desenhei várias vezes o teu rosto sobre as águas do rio, mas, tu rias e dizias sempre que eu era muito complexa, e que ninguém pode desenhar nada sobre as águas, e, muito menos o teu rosto.Mas,eu sempre fiz isso e ainda faço.

Hoje as bátegas de chuva que caíram desamparadas sobre as águas do rio, fizeram-me acreditar que, afinal, o teu rosto, não é a única coisa que eu posso desenhar nas suas águas...

Também posso desenhar a minha mágoa, e assim talvez me sinta mais desprendida desta amargura que me abraça como uma teia e me aniquila vagarosamente.

Não escrevi uma história sobre ti. Mas várias, muitas delas pela alvorada dentro, quando a saudade me fazia avivar ainda mais a falta da tua presença.

Hoje estou aqui de pé junto da janela que dá para o rio, desenho nos seus vidros ofuscados pelo vapor que sai da minha respiração, um barco que vai embora e lá dentro em vez de um marinheiro, desenho uma sombra abstracta que simboliza a minha mágoa, que retrata a minha e a tua história sem história..

© Piedade Araújo Sol 2006-10-31 
(reeditado)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

eu posso desenhar um poema

Pier Toffoletti
eu posso desenhar um poemaé como escrever, só que de maneira diferentecom o meu desenho eu posso transmitir a sensibilidade das palavras que não digo, apenas pelo olhar que o leitor tenha, pela paixão ou não, que coloquei no meu desenho.
as linhas, por vezes imprecisas da minha mão nem sempre segura, podem ser apenas rabiscos de cores ou uns riscos e, no entanto, falarem de amor e de paixão, de ódio e de desamor de ruas e cidades. podem transmitir um sorriso, uma cor, um corpo, um sabor.
o beijo e o abraço podem ser desenhados assim e, sem que me entendam, posso falar num poema que, não sendo escrito, é pintado com as cores da vida.
© Piedade Araújo Sol 2012-02-21
(Reeditado)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Poeta

Saul Landell

Pintou palavras desordenadas
Num coração desobediente
Insatisfeito e faminto
De novas cores

Pintou algas nos cabelos
Com palavras que se formaram sombras
Diluídas nas águas
Do poema

E ficou confuso
Ao limpar os olhos
E sentir palavras
Com gosto de cloreto de sódio

© Piedade Araújo Sol 2010-06-08
(Reeditado)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os beijos nús

Istvan Sandorfi

Os beijos, trocados nus
na obscuridade da casa,
fecharam a luz e a água.

A casa, no monte das madressilvas,
ficou com a cama no chão.

O sabor a mirtilos,
dos teus lábios nus nos meus,
deixou a casa sem chave,
sem porta e sem tecto.

 O luar e as estrelas,
pousaram nas minhas mãos e nas tuas.

O mundo dentro de nós
quedou-se sem amanhã, sem ontem.

Apenas nós e o hoje.

O tempo de estações
invadiu-nos sem tempo, sem preâmbulos.

Os beijos nus,
tão nus como nós quando nascemos.


© Piedade Araújo Sol 2010-11-16 
Reeditado

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vidas Duplas

TJ  Scott
Deslizo o meu corpo sobre a tua cama deserta ainda desfeita. Revivo-te nos lençóis com as marcas do teu corpo e com o teu cheiro a plantas silvestres.

Durmo na tua cama, nestas águas furtadas que com tanto esforço vais pagando a mensalidade. Magoa-me o dividirmos as contas quando vamos jantar, tu a escolher sempre o prato mais acessível da carta e eu deixar-te pagar a tua parte. Porque se pagasse tudo irias pressentir de algo que eu não quero que saibas.

Não sabes quem sou, talvez nunca venhas a saber quem sou eu na realidade. 

Não sabes nada de mim. Nada vezes nada, resumido a nada. Mas talvez adivinhes o ilícito do corpo que trago impotente nos olhos, talvez que o teu instinto de mulher não queira questionar os silêncios inconfessáveis que me devoram a alma.

Foi essa a minha condição. Nada de perguntas!

Estou cansado! Tão cansado de tudo! De andar de viagem em viagem, de não saber quando é a próxima etapa. De partir com medo que um dia quando volte já não estejas aqui à minha espera.

Amanhã resolvo isto, digo sempre de mim para mim. Amanhã! Amanhã! E amanhã pode ser tarde. Demasiado tarde para mim e para ti e para os sonhos que desenhei além de ti e de mim.

Tu ris, dizes que gostas de rir e assim sentes-te bem. E por vezes o teu riso é um esgar para enganar o que sentes, quando me vês pegar na mala azul com rodinhas e seguir para o aeroporto. Mas sabes, eu sei que mentes. Mentes como eu também minto a mim próprio a ti e a tudo o que me rodeia.

Mentes sempre, pois no outro dia quando voltei para trás porque o voo tinha sido cancelado, encontrei-te deitada sobre a cama, onde agora estou. Estavas deitada na posição fetal e voltada para o postigo, por onde uma réstia de luz mal te distinguia. Choravas baixinho. Disfarçaste e alegaste estar constipada.

Tens medo de assumir o que temos e nem sei se temos alguma coisa, sei apenas que delimitei um prazo. Reformo-me “disto” aos quarenta anos e vou viver contigo de país em país. Talvez me refugie numa ilha junto ao mar e compre um barco onde possa viver contigo.

Talvez não tenhas mais que andar a fazer poupanças para pagar a renda destas águas furtadas e faças aquilo que gostas. Continuares a pintar o teu mar de verde e o céu de azul. Talvez eu não tenha que andar mais de aeroporto em aeroporto com a mala azul de rodinhas atrás de mim, sempre receoso do tiro que me persegue nos sonhos.

Nem sabes meu nome, pelo menos o que está nos documentos verdadeiros. Mas será esse que passarei a usar. Assim tentarei esquecer este que uso agora e esquecerei quem fui.

Sinto os olhos cansados, tão cansados, as pálpebras parecem-me de chumbo, quero abri-los e nem consigo.

Está decidido, amanhã resolvo isto....

(Obs:Este texto é pura ficção, qualquer semelhança com factos reais será mera coincidência)

©Piedade Araújo Sol  08-10-2007
(Reeditado)