terça-feira, 21 de março de 2017

palavras em convulsão

olga astratova

dentro de mim, tenho labirintos
que enclausuram palavras
que se emaranham no desacerto
das partidas.
com elas navego
ao sabor do reencontro
de algum porto estável
onde as possa amenizar.
formam cinzas de exultação
que edifico num espiral de emoções,
cercam-me palavras líquidas.
e gotejam em vertigem
ao encontro de um pouso
secreto num estuário de paz.
© Piedade Araújo Sol 2017-03-21

terça-feira, 14 de março de 2017

memórias

Natália Drepina

memórias difusas na monotonia do tempo,
e o sorriso que ainda paira no pensamento,
e o cheiro das flores,
no trazer do vento,
e a luz das estrelas na eira,
e o abraço que não foi dado,
nesse (outro) tempo,
e agora a memória,
que lavro secretamente no papel,
sem ser semente,
apenas tentando entender,
ou encontrar os cristais,
da lágrima que desce,
e cai lentamente,

docemente
no esvair do tempo.

©Piedade Araújo Sol  2017-03-14

terça-feira, 7 de março de 2017

O dia não é grande nem pequeno

Diggie Vitt

O dia
tem as cores que tem, e é livre
de as escolher, sem pedir permissão.
Por isso em dia pardo como hoje,
caminhei por aí a passear a melancolia,
por atalhos desconhecidos para mim,
perigosos e inacessíveis.

E, quando subi à escarpa mais alta
para avistar a cidade
entornei toda a melancolia
num papagaio de papel
e ela flutuou como se o dia
não finalizasse
e a noite nem chegasse.

O dia não é grande nem pequeno,
tem as horas que tem,
e é isso …

© Piedade Araújo Sol 2017-03-06

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A casa

neil driver

Na solidão da escuridão que tombou sobre o vale
E sobre a noite
Alguém reclamou a minha presença

Eu estava ali, sem estar
Mas, tanto tempo se tinha passado
Tantas luas outros tantos sóis
E tudo seguiu o seu curso normal

A água do regato não parou de correr
E os pássaros, voltaram todos os dias
Pelas seis horas da manhã, para a sua sinfonia
De chilreios cadenciados


A casa estática ainda existe
E as maças caíram desamparadas
Sobre o chão estéril

Hoje  a manhã está leve como seda
Com o sol a entornar seus raios em todo o seu fulgor
Enlaçando todo o vale

A  minha voz é um bocado de silêncio
Que tenta aquietar o desconforto que me assola
É preciso esquecer o abismo do tempo

Desenho labirintos desordenados de refúgios
E prendo o olhar na luz que pincela o horizonte

© Piedade Araújo Sol 2017-02-27

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Não olhes as minhas mãos

Anka Zhuravleva
Não olhes as minhas mãos,
não tentes espiar os silêncios,
nem desvendar os segredos dos devaneios,
que ainda guardo nelas.
É muito estranho,
mas são elas que muitas vezes – tantas vezes,
escondem no bolso do meu vestido,
os sonhos que ouso sonhar.
E não te inquietes com as rugas vincadas,
que já sulcam o meu rosto,
são mapas soltos, sem nada para analisar,
apenas estórias passadas.
E como uma oferenda,
olha apenas o poema e sua mensagem,
que as aves deixam soltar,
no seu voo rítmico e sublime.
© Piedade Araújo Sol 2017-02-20

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Mensagem

 Diggie Vitt

Dizes que já não converso com as palavras
mas, eu aprendi que sem elas não sou ninguém
por isso mesmo que o comboio passe
e leve a passageira que por vezes sou eu
digo que nunca estou só, porque aprendi a viver
em função delas -  as palavras.
Saem por vezes amargas e cheias de desdém,
outras vezes,  dóceis deslizando em cascata
como as águas.
E o tempo passa voraz,
ou eu passo pelo tempo, mas elas ficam
aquém ou além da margem.
Dizes que é assim, que elas apaziguam o dia,
e na noite em que os silêncios imperam,
elas podem desobstruir os sonhos,
e voarem para além da escarpa,
onde o calor fenece e o frio golpeia.
Mas, não me peças palavras que não lês
ou lês, e finges que não entendes,
porque serei eu em completo desalinho,
que as guardo cá dentro,
e quando  explodem , não é no peito
mas na folha inocente que tenho sempre
sobre a mesa…

© Piedade Araújo Sol 2017-02-13

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

das palavras II

desnudei-me das palavras
dos momentos
dos acasos
e senti meu corpo puro...

lavei a minha alma
e no meu olhar
consegui abranger
a plenitude
desta paz...

enlaço a ternura
do momento
do ocaso
e visto-me de palavras….
.
© Piedade Araújo Sol Dezembro/2006 

(Foto Lost de Paulo Madeira)
Reeditado

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Insónia

Anka Zhuravlva
        Sobre o sono
Ausente e dolente
A insónia insiste
Branca. Deitada. Vestida
E a noite obscura
Densa… assiste
A parede branca, gelada
A cabeça encovada na almofada
O frio a desgastar a pele
E vai
Desfiando pérolas do fio
Que guarda na memória
Os olhos cerrados
O corpo extenuado
Em posição fetal
O cheiro das magnólias
Cheias de orvalho
A manhã que desponta
O vento que fustiga
E assobia em constante lamento
E o dia nasce grávido de sol
© Piedade Araújo Sol 2017-01-29

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Em Janeiro

  • :




Em Janeiro
com o frio a infiltrar-se nos ossos
Lisboa não cabia nos teus olhos
quando te perdias pelas ruelas desconhecidas
e a ansiedade te invadia
o rosto incendiado de ternura.

Quando olhavas para as montras
e ajeitavas os cabelos de chuva
descaídos pelas costas
não sei que imaginavas
quando com o meu casaco
te cobria o corpo franzino a tiritar.

Os teus sonhos talvez fossem
os barcos que navegavam no Tejo
e as tuas mãos que entrelaçavas nas minhas
nas noites em que cintilavam estrelas que eu nem via
e tu sorrias calada.

Eu não sabia -ainda - que em ti existiam
sabores de sentimentos ocultos
e um sorriso de sal e algas tão grande
que sobrevive no tempo e nos teus olhos,
e que no teu ser os afectos estão entranhados nos ossos.

São eternos como os barcos do Tejo.

© Piedade Araújo Sol 2012-01-23


(Reeditado primeira publicação em 2012-01-24)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

às vezes

Olga Astratova

às vezes ainda pego nos pincéis,
quando fatigada estou das fotografias e da escrita,
dissolvo cores e pinto coisas sem nexo.
sem mágoa sem culpa,
apenas abstractos como uma metamorfose, ou catarse
às dores que ficaram desse mês de Janeiro de todos os anos que se sucederam.
às vezes entro na Basílica, 
e em monólogos que só eu e tu entendes (entenderias)
falo contigo, para amenizar as cicatrizes que ficaram.
e saio com a alma mais leve,
e o coração fortalecido, mas não esqueço,
dia 1 foi o dia que partiste e dia 11 era o teu aniversário.

(em memória do meu pai)


© Piedade Araújo Sol 2017-01-11