terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sonhar


Partiste
E isso não foi um sonho
Foi apenas a finitude de tudo

Dizias que não sabias a cor dos teus sonhos
Porque por vezes eram esmaecidos
E outras vezes de cores garridas e selváticas

Iludir o sonho que ficou
Iludir a dor pungente
E a morte como oferenda

Esculpir ventos de sol
E dias de jubilação
Quiçá a dor será menor

©Piedade  Araújo Sol 2019/01/14

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Letargia

  Mikeila Borgia

Há  flores que  germinam em locais
inóspitos e quase sem vida
Sem carícias

Apenas aridez
Apenas sede

E elas resistem dia após dia
e
noite após noite
porque  a noite  existe
talhada em cores negras.

Mas, há sempre
 uma ou outra estrela
que  deixa antever a sua luz
 através da sua inibida claridade.

Ouvi…
Ao longe muito ao longe
o chilrear de um pássaro
desleixado e um pouco
enlouquecido , mas que canta
no alvorecer da aurora
onde a geada toma conta
de tudo até dos ossos.


Era dia alto
quando o Poeta acordou...

©Piedade  Araújo Sol 2019/01/07

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

FELIZ ANO NOVO



Agradecimento
Mais um ano que agora chegou ao seu términus.
Durante o ano de 2018 por motivos de origem pessoal não consegui estar presente como gostaria nos vossos espaços e neste meu Maresias que tanto estimo.
Mas quero agradecer a todos os que ao longo destes anos visitaram o meu Maresias, ou que de alguma maneira deixam a sua pegada, muitos sei que em silêncio.
Por vezes gostava de dar mais que palavras desalinhadas, agrestes, por vezes cheias de sol, outras impregnadas de maresia.
Gostava de citar o nome de todos (até os anónimos) mas na impossibilidade de o fazer, deixo aqui apenas uma palavra a todos os que de alguma maneira se revêem aqui.
Muito Obrigada, com um desejo enorme de um ano cheio de paz e saúde para todos os meus leitores, seguidores e amigos.
FELIZ ANO DE 2019

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Feliz Natal


Calo-me num silêncio de palavras que prefiro guardar comigo.
Prefiro que seja assim.
Que o meu olhar se perca nos fragmentos de sons e cheiros e que apenas fiquem memórias ténues que o tempo apagou.
Se pudesse, desenhava um beijo e o calor de um abraço.
Porque era uma maneira de dar um pouco de amor a quem não o tem nem neste nem noutro natal.

©Piedade Araújo Sol

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

o silêncio deixa eco

Diggie Vitt

as lâminas do silêncio repousam
na imagem que o reflexo traduz.

o mar tem lágrimas misturadas
nas águas amotinadas e salgadas.

a maresia despenteia
os cabelos doirados.

o silêncio deixa eco….

© Piedade Araújo Sol 2008-12-16

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Carta de mim para mim a pensar em ti

Ezgi Polat
Gosto de me embriagar serenamente com a maresia salina que a brisa se encarrega de trazer, salpicando os meus longos cabelos queimados pelo verão, rebeldes como tu e louros como seara de trigo maduro ondulada pelo vento.

Aprendi que posso conceber um mundo só meu, onde, por ser tão fantástico e impenetrável, ninguém a ele tem acesso a não ser eu.

Sabes, é por isso que por vezes gosto de me calar e, quando me chamas ostra, finjo que não ouço e encolho-me ainda mais na minha concha. Há muito que adopto esta estratégia de defesa, como se eu fosse autista, porque, não te ouvindo, fujo das palavras que poderias pronunciar e que talvez me magoassem.

Nunca poderás compreender os meus silêncios, nem eu quero que os entendas. Não vale a pena…! Eu sou um caso perdido, qual ovelha tresmalhada que se perdeu do rebanho. Por isso, talvez nunca me encontres…!

Mas gosto de ser assim. Gosto de me sentar ao fim do dia no extremo do pontão da “minha” praia e olhar ao longe as luzes que resplandecem sobre Almada. E ficar assim como que protegida na outra margem.

É como se estivesse escudada ou ficasse dissolvida na miríade dos focos de luz que cintilam, disfarces que por vezes me fazem sentir uma intrusa na pele esverdeada de uma alienígena em terra de luzes estranhas.

É por tanta coisa, que por ser ostra nem me afoito escrever, que preciso destes momentos só meus no declínio intimista da tarde. Para me transformar numa ilha longe de todas as searas sem ninguém a desvendar o trigo dos meus pensamentos. Para me embriagar fácilmente no horizonte esbatido da maresia salina, para ser eu até onde os meus olhos alcancem, abrindo janelas serenas que eu preciso de sentir no meu peito…

©Piedade Araújo Sol 2007/11/29 (reeditado)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Descobri



Diggie Vitt

Descobri muitas coisas
Em teu olhar...


Era tarde e eu olhava-te
E cada vez que te olhava
Descobria ângulos secretos
No fundo do teu olhar sereno
Com que me presenteavas
E que eu te devolvia


Descobri muitas coisas
Em teu olhar...


Aprendi a fazer poemas
Que arquivava
Nos meus pensamentos
E tu sorrias
Cantarolando
E balançando a cabeça


Descobri muitas coisas
Em teu olhar...


Era noite e eu olhava-te
Enquanto tu dedilhavas
As cordas duma viola imaginária
E partilhavas comigo
As tuas descobertas
Em notas desencontradas


Descobri muitas coisas
Em teu olhar...


Era madrugada e eu olhava-te
Ouvia os teus poemas emitidos
Sem rima e sem sentido
Que escorriam na noite
Numa cadência de sons
Melodiosos e alegres


Descobri muitas coisas
Em teu olhar...



©Piedade Araújo Sol 2006-12-02 (reeditado)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

As letras

Nishe
Golpeio
letra a letra
formo um enredado
de
sílabas
consoantes
verbos
e...
traço a traço
letra a letra
escrevo
palavras....


©Piedade Araújo Sol 2005-11-27 (reedição)

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A filosofia da vida


Anda sempre no fio da linha
mas nem por isso, repudia as suas opções
e por acelerados instantes
ondula em sonhos que acumula
e que têm a simbiose
de todas as cores do arco-íris.

Mesmo quando o fio da linha
se fragmentou desamparado em ínfimos detalhes
e apenas restou um precipício negro e sem fundo
cerceou o olhar na sombra e pintou-lhe
uma asa
no pico dos insucessos.

E se nada é perfeito
uma asa solta apenas distorce
um voo inglório  no mundo dos humanos
que gostam de agarrar a luz difusa
mesmo quando ela deixa de brilhar
e o olhar é apenas e só um olhar.

©Piedade Araújo Sol 2015-08-09 (reeditado

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Em Lisboa


Está frio em Lisboa
Novembro, sufoca dentro e fora de mim
A meu lado o Tejo
E troco o beijo

Amanhã vou para Madrid
Sem ti
O que farei não sei
Não tem lei

Meu sonho, aqui presente
Na noite mormente
Sinto-te aqui junto de mim
E quero adiar o fim

Abraço, sinto teu calor
Teu corpo e sabor
Retenho a esperança
Avivo a lembrança

Perco-me em desejo
Impaciente, nem vejo
Deixo-te fluir
No meu sentir

Mas…não te digo adeus
E sei!Hoje é a ultima vez
A nosso lado o Tejo
E trocamos o beijo

Novembro, sufoca dentro e fora de mim
Está frio em Lisboa.


NOTA:Este poema é par ser lido de 4 maneiras
1-de cima para baixo
2-de baixo para cima
3-só os versos em negrito
4-só os versos sem o negrito



 © Piedade Araújo Sol 2005-11-18