terça-feira, 31 de março de 2026

As lágrimas da terra

Num instante
ouvi o choro da terra
alagando pomares,
ruas e becos,
casas frágeis ____ ainda vivas.

Rios em excesso,
caminhos a escorrer,
montanhas a ceder ____
um pranto aberto.

E a terra, na sua beleza,
parida pela natureza,
sob uma sombra impiedosa,
sem rédea _____chorou
quase tudo o que restava.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-30
Imagem : Brooke Shaden

Etiquetas: , ,

terça-feira, 24 de março de 2026

Enquanto atravessas

Não escrevo por ti,
seguro apenas a margem
enquanto atravessas o rio.

O rio transborda,
a corrente é incerta
e não revela a foz.

Tanta água a correr
entre desacertos no caminhar,
e ainda assim, avanças.

Não te empresto os meus passos,
nem te desenho o destino.
Ofereço-te presença,

porque a amizade
não é ponte que substitui a travessia,
é margem que confia.

E, quando alcançares
a outra margem,
saberás:

foi o teu próprio chão
que te sustentou.


© Piedade Araújo Sol 2026-03-23

Etiquetas: , ,

terça-feira, 17 de março de 2026

Luar da inquietação

Quem me ajuda a arrumar este caos
espalhado pelos cantos da casa,
colado às paredes?

Com quem volto aos trilhos
que descobrimos por acaso
naquela aldeia de xisto,

onde há a árvore antiga
em cujo tronco gravei o teu nome
sob uma coroa de rei?

Que faço deste rio que transborda
e me alaga devagar,
como chuva em terra seca?

A tua ausência não se escreve.
Mesmo com luar, a noite pesa.
E o dia nasce vazio de ti.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-16
Imagem : Janelle Pietrzak

Etiquetas: , ,

terça-feira, 10 de março de 2026

Entre o Abismo e a Luz

Esqueci as vozes
que me acordavam por dentro,
abrindo as janelas do dia.

Sempre, sem perguntar
se era de chuva
ou incêndio de sol.

Agora tropeço em abismos.
A solidão tem o peso
de um quarto cerrado.

Desabrigo-me das certezas
e visto temores
que não sei nomear.

Procuro refúgio na miragem
dessa urgência prematura
que promete proteger-me do tombo.

Arranco a pele da descrença
como quem levanta um escudo
feito de ar.

Deixo este poema à deriva
nu, vulnerável,
a pedir mãos invisíveis.

E, quando tudo parece suspenso,
seguro um fio mínimo de luz
antes que a noite o apague.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-10
Imagem : Rosie Hardy

Etiquetas: , ,

terça-feira, 3 de março de 2026

Poema versus Metáforas

Aprendeu a escrever entre silêncios,
não por disciplina,
mas porque o excesso de palavras
a denunciava.

O poema começava sempre assim:
um recuo,
um espaço em branco
a fingir que nada queria dizer.

A meditação que lhe impunha
não seguia normas, era o gesto incerto
de quem escuta
antes de escolher o verbo.

Mas as metáforas, indóceis,
entravam sem bater:
alucinadas, ríspidas,
desarrumando o verso
até o poema se esconder na margem.

Havia dias em que escrevia
o que o vento ditava,
outros em que tentava escrever
o silêncio ,
e descobria que ele não aceita ser traduzido.

Entre persianas, alinhava palavras
como quem espia o mundo
sem lhe tocar:
sentia-se só no poema, mas acompanhada
pela frase que ainda não nasceu.

Até que o próprio texto, sem segredos,
se insurgiu contra o silêncio,
baniu-o como pecado capital e, tremendo,
deixou as metáforas dançar
mesmo sabendo que escrever
é perder o controlo.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-02
Imagem : Shaina Sterrett

Etiquetas: , ,