
Há
silêncios que sabem nadar melhor do que algumas palavras.
Há
amores de verão que ficam enterrados na areia. O tempo cobre-os de marés, como
se a água pudesse ensinar o esquecimento.
Mas o
oceano nem sempre devolve aquilo que leva.
Há
amores que nunca chegaram verdadeiramente a existir. Foram apenas o brilho
breve de uma estação, um encontro sem raiz, uma promessa que a maré apagou
antes sequer de ganhar nome.
Ainda
assim, existem cicatrizes que o calor desperta. Basta o sal na pele ou o rumor
da maresia para que um segredo antigo volte a respirar.
Então,
o mar devolve-me à praia. Não me traz o passado nem o rosto que esperei rever.
Devolve-me apenas a mim, diferente daquela que um dia ali deixou o coração.
As
águas salgadas lavam a memória como uma lenta catarse. O corpo regressa mais
leve, mas há marés que continuam a morar por dentro, onde nenhuma onda consegue
chegar.
E se os
meus passos deixarem sulcos na areia, tento agarrar o brilho do luar para
continuar a caminhada. Nem sempre essa luz é suficiente para me descortinar a
saída mais segura, mas visto-me de maresia.
E nada
nem ninguém me faz desistir, porque há caminhos e memórias por percorrer. Mesmo
que permaneçam inalcançáveis, nem por isso morrem; apenas insistem em ficar.
À
primeira vista, parecem apenas silêncios. Mas, quando os escutamos com
paciência, descobrimos que nunca guardaram o mar; guardaram apenas o eco de
quem um dia o escutou e ali plantou a esperança...
Autor : ©Piedade
Araújo Sol 2026-08-10
Imagem : TJ-Drysdale
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, Prosa Poética