terça-feira, 21 de setembro de 2021

Ensina-me



Ensina-me como aprenderei a contar
As areias da praia
Sem as espalhar
Como juntar as nuvens
Sem as esfarrapar
Como nadar no rio sem me molhar 

Ensina-me a amar sem sofrer
A ter sem saber
A compartilhar e receber
A dar e perder

Ensina-me a voar
A ter asas e as merecer
A usar as palavras
Sem as estragar
E sobretudo
Ensina-me a ficar

Aqui a olhar
O vaivém das ondas do mar…

© Piedade Araújo Sol 2005-09-01
In Ecos Pag.43
Imagem : Nikolay Tikhomirov

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terça-feira, 14 de setembro de 2021

Solidariedade pelas mulheres afegãs

Passam as horas e a dor é cada vez maior
se quiseres gritar, afogas o teu grito
para que nada seja ouvido
e engoles a tua dor gigante
no mais recôndito de ti.

Roubaram-te tudo e o nada
e do nada, deixaram a tua voz muda
e o teu olhar veloz e dorido.

E em todas as mulheres do mundo
a rebelião e a dor
é desespero tolhido
pela crueldade em que vivem
numa espera vazia e desumana.

Que a voz do mundo se levante
que tenham dó
de quem tem o direito de ser livre.

©Piedade Araújo Sol 2021-09-13
Imagem de : Shamsia Hassani
.

NOTA: Ommolbahni Hassani, mais conhecida como Shamsia) é uma grafiteira afegã e professora de escultura na Universidade de Kabul. Ela tem popularizado a arte urbana nas ruas de Kabul, Shamsia expõe a sua arte digital e a sua arte urbana na Ìndua, Irão, Alemanha, Itália, Suiça, e nas missões diplomáticas de Kabul. Em 2014, foi um dos nomeados no 100 Public Intellectual Pol

Hassani pinta grafitis em Kabul para sensibilizar o público a respeito dos anos de guerra.

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Contemplação

  Ver a natureza e a margem do rio,
era só o que eu pretendia,
e com sorte pelo cair da tarde,
os pássaros apareceriam para entoar as suas cantigas.

Recordo a transparência das águas,
em que imaginava ler o teu nome,
e a minha boca soletrava,
letra a letra como se entoasse uma canção.
Por vezes a inevitabilidade da realidade,
era melancólica e a tua ausência,
fazia com que eu inventasse um oásis,
onde para mim tudo era  um deserto estéril.

Nesse meu mundo,
que só eu compreendia,
por vezes veracidade,
e tantas outras apenas fantasia.

© Piedade Araújo Sol 2021-08-30
Imagem : Magdalena Russocka

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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Fragmentos

 

Eu sei que o olhar que te presenteei era efectivamente para ti,porque mo devolveste e eu novamente sorri.

O sorriso por vezes é um porto, que sempre esteve no mesmo local,
e, nem sempre embarcamos, no navio que chegou e que partiu.

Por momentos um oceano é tudo e, por momentos nada é,
senão uma parcela de água salgada
e muitas distâncias.

Mas a tua liberdade não mora em mim, nem nesse porto quieto,
é uma coisa tão só tua como o fogo, em combustão,
que um dia reacende sem ninguém aguardar.

Sabes, a saudade é apenas um momento,
que se transforma naquele grão de areia, que nos massacra
e nem sempre o conseguimos deitar fora.

O teu olhar em mim e o meu sorriso em ti
É mais do que a saudade finda
É mais que o mar ou o rio.

É mais do que as palavras que tu lês e nem sabes porque as lês.

©Piedade Araújo Sol 2014-08-25
Imagem :Viktoria Haack

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Serás a água

 

Serás a água
Por quem meus lábios anseiam
Para extinguir esta sede

Serás o abraço
Em que eu me abrigo
No final do dia e da noite

Serás o atalho
Para onde avanço
Ao toque da chamada

Serás a labareda
Em que para sempre
Apagaremos o desejo em nós

©Piedade Araújo Sol 2021-08-22
Imagem : Kristina Makeeva

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

In memoriam


A morte não é nada
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.
Santo Agostinho

Lembro que os velhos da aldeia diziam:
“O primeiro dia de Agosto é o primeiro de inverno”
e assim ficamos submersos na chuva dentro de nós,
num inverno antecipado e na tua despedida.

Eu sei que só estás do outro lado do Caminho
e sei que Agosto era o teu mês,
que antes rimava com nascer,
e depois passou a rimar com morrer.

Hoje, apenas rima com saudade,
a vida é isso e sabemos que tudo o que nasce,
é para morrer um dia,
ninguém é eterno, nada é.

Mas, a saudade que fica, essa,
consegue ser eterna.

Até sempre Mãe!

©Piedade Araújo Sol 2021-08-16
Imagem : Carla Coulson

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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Desabafos

 

A perfeição não existe e ninguém é perfeito. Vivemos na era digital. Com as redes sociais há quem opine e julgue sem ter conhecimento de causa. É arriscado julgarmos alguém sem olharmos para dentro de nós. Nem sempre o que se vê é o que parece, nem sempre o que se lê é fidedigno. Gosto de ver a imperfeição nos detalhes que a minha visão guarda daquilo que visualizo e leio, e chego à conclusão que somos todos imperfeitos.

©Piedade Araújo Sol 2021-08-08
Imagem : aykut aydogdu art

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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Do passado

Já nada sabem de mim,
quando eu os espiava,
os pássaros que me visitavam outrora,
na janela das águas-furtadas,
e lhes dava migalhas do pão que não comia,
e que guardava para eles.

Já nada sei, quem de mim se esqueceu,
ou não quer saber,
e já nem memórias tenha,
da casa grande no alto da colina.

Já nada sei dos amigos,
que um dia partiram,
e nunca mais voltaram,
alguns que não vi mais,
e talvez nunca mais os volte a ver.

Alongo os meus braços,
na nudez do tempo,
e sinto um pesar desmedido,
quando constato os que partiram de mim.

Liberto-me do passado,
mas, mesmo que não queira,
todos temos um e isso é incontestável,
o presente é o que tenho,
e as memórias que ficaram,
para agir no meu futuro.

©Piedade Araújo Sol 2021-08-02
Imagem : Oleg Oprisco

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terça-feira, 27 de julho de 2021

Mutações

Oiço e leio que o que ontem era bom,
hoje é muito ruim,
e é preciso banir da nossa vida.

Conter lamentos
será mau? não sei!
a dor é órfã, é só de quem a sente.

Há névoas salgadas,
que se confundem com lágrimas,
ou será apenas um cisco no olho.

Porque o vento deslizou,
porque a reminiscência reteve,
algo que devia ter olvidado.

Já não sei se a palavra que não me enlaça,
será um bem, ou apenas ansiedade,
ou simplesmente uma forma de ser ou estar.

E refaço a ondulação do abstrato,
em coisa outra, e diligencio,
a resiliência com que tenho de alinhar.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-19
Imagem : Slevin Aaron


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terça-feira, 20 de julho de 2021

Vai e leva

 

Leva
A noite embrulhada na bruma,
do dia que a precedeu,
e de  todos os seus encantos e desencantos,
e faz com que as estrelas dancem,
na outra noite que há-de vir,
e onde os meus sonhos se irão,
ressuscitar em ti ou em mim.

Leva
A ressaca das ternuras,
amealhadas em tempo e labareda,
em serenidade e descrença,
em ciúmes ensombrados de alienação,
em promessas que não foram feitas,
e onde as palavras se esqueceram,
de saber.

Leva
A convulsão dos corpos quentes,
no deslumbramento das marés,
na  praia conivente de noites,
que não souberam acontecer,
e não quiseram perdurar,
à revolta das algas que o mar,
às areias enjeitou.

Leva
Tudo – porque o tudo
É tão pouco – ou quase nada.
.
©Piedade Araújo Sol 2013-07-16
Imagem : Mariesol Fummy

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terça-feira, 13 de julho de 2021

Afectos

Apenas vestígios, neste tempo de pandemia,
ou do desnorte de nós(e do mundo),
saibamos aguardar as manhãs alvas,
onde com um simples sopro,
se possa mandar um beijo além.

Num pulsar de sentimentos,
os afectos são inevitavelmente,
uma manifestação de ternura,
para os que amamos.

Do outro lado do vento,
que recebam os beijos não dados,
os abraços apertados,
e a esperança em forma de paz e amor.

Hoje, para todos vós deixo um sorriso,
em forma de afecto,
a inundar-me o rosto,
como um reflexo de sol em frente do espelho.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-12

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terça-feira, 6 de julho de 2021

Palavras

Há palavras vestidas de cicatrizes
de dores e mágoas difundidas
na pureza do papel
que a memória guardou.

Um dia elas serão apenas vestígios
de um passado que ninguém mais recordará
e talvez faça parte de algum legado
ou sejam esquecidas para sempre.

Poderá ser, que alguém as deslinde
e a leitura seja um bálsamo para quem as ler
e conseguir entender a mensagem
que o Poeta sempre deixa.

Palavras esquivas, soltas
mas sempre com a sensibilidade
Interminável e ardilosa
para quem as quiser entender.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-05
Imagem : laura makabresku

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terça-feira, 29 de junho de 2021

Teoria - Memórias

Tu tinhas a teoria (a tua)
que explicavas em voz alta
com uma dicção irrepreensível
e não aceitavas interrupções
ou contradições.

Eu não precisava de teorias
quando tinha que viver e lutar
pela realidade (a minha)
que não se enquadrava na teoria (a tua).

Mas, tu não compreendias
e não perdoavas
quando alguém te contrariava.

Eu ousava, e exponha a minha dúvida
mas dei-me mal, muito mal
quando no final do período
olhei céptica para a pauta , e tinha chumbado.
Um ano tresmalhado é certo
mas não me dobraste como aos outros.

Tanto tempo já se passou
hoje ao ler um dos teus livros
senti que não guardo ressentimento
e se não concordei na altura
com a tua teoria sobre tantos assuntos.

Admiro e admirarei para sempre
a forma criativa
da tua poesia.

© Piedade Araújo Sol 2021-06-27
Imagem : Christine Ellger

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terça-feira, 22 de junho de 2021

O Silêncio


Ouve, ouve atentamente
o ruído do silêncio
imagina o seu desmesurável tamanho
colossal e glacial.

Ouve, e digo-te que todo ele cabe
na minha mão pequena
como um eco que se consome
oculto e inexplicável.

Talvez o vento nos traga
lembranças encerradas
que a mente camufla
no frio do silêncio.

©Piedade Araújo Sol 2021-06-20
Imagem : Katerina Plotnikova

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terça-feira, 15 de junho de 2021

Amar-te


Amar-te foi tropeçar numa curva do destino,
sem imaginar encontrar-te,
foi uma linha irrequieta,
interdita e que eu nem quis saber.

Foi o caos que se libertou em mim,
foi um voar sem asas,
e em contramão,
foi o perfume inebriante da maresia.

Foi cair e levantar sem sentir,
as feridas que se compunham,
de raspão,
e ficavam em combustão.

Amar-te foi o renascer,
o reviver,
o entender a compartilhar,
e o rematar.

Nesse caos que nós construímos,
e que planando em nós,
foi tudo o que não procurávamos,
e não esqueceremos jamais.

©Piedade Araújo Sol 2021-06-14

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