terça-feira, 22 de novembro de 2022

Motivo sem nexo ___nem nó

Se a raiva desfalece ____E até a mágoa se esquece
Porque é que por vezes ____ O amor prevalece
não morre e até cresce.


Na metade que fica ____ sem encaixe
porque é o tempo um aliado _____e a outra metade
sem qualquer uso _____um carrasco disfarçado.


 Um nó que não existe _____ mas algo que persiste _____
na solidão ______ que faz ____ uma metade sem voz.


Resta sempre _____  as palavras harmoniosas, em sigilos
e a poesia que até pode ser declamada.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2022-11-20
Imagem : Kindra Nikole


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terça-feira, 15 de novembro de 2022

Confidência


No tempo em que eu desenhava,
no meu desenho,
por embirração ou falta de talento,
escrevi a palavra Poesia,
e desordenadamente as letras do alfabeto.

No tempo em que eu aprendia,
eu via pelos olhares com quem me cruzava,
no dia-a-dia que alguns pareciam vazios,
mas conseguiam traduzir melodias,
que tanto sorriam amores,
como outras vezes dores, apenas e só dores.

No tempo em que eu guardava os desenhos,
dentro do baú que existia nas águas-furtadas,
as tintas o cavalete os pincéis,
e todas os outros apetrechos,
num dia era tudo amor, como podia alterar e passar a ser desamor.

Um dia o Mestre disse-me,
com a sua sabedoria e a sua humildade,
os teus desenhos têm alma,
são inocentes,
são fogo e gelo,
são também bocados de irritação,
ainda lhe faltam técnica,
um dia ganham asas.

Foi no tempo em que,
o desenho ficou hibernado,
para todo o sempre.

Mestre
Os meus desenhos nunca ganharam asas,
um dia foram todos absorvidos pelas chamas,
até só restar um monte disforme de cinzas,
e sim, ganharam asas e ficaram a planar pelo céu …

© Piedade Araújo Sol 2022-11-14
Imagem : Ilya Kisaradov

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terça-feira, 8 de novembro de 2022

a vida anda por aí

a vida anda por aí
rodopia
dança
cai
e levanta


a mentira dá a mão à verdade
o amor ao desamor
o ódio à indiferença
a vida anda numa ciranda
e agita tempestades
e o mar .... ali a olhar
a vida a andar.

© Piedade Araújo Sol 2022-11-04
Imagem : Amy Haslehurst
 Inspirado aqui http://homemplastico.blogspot.com/

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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

do outono


do outono
retenho a sombra das tardes frias
e no final das aulas
os gestos que fazia para aquecer
as minhas mãos tão pequenas
tão franzinas
brancas como a neve .

retenho a memória dos nomes
que os ventos me trazem
das amigas que nunca mais vi
que nas encruzilhadas da vida
partiram, e nas partidas as perdi
e me perderam a mim.

mas, trago ainda o esplendor
das palavras que nessa altura escrevi
que hoje ainda significam o que redigi
e que ficaram perdidas no tempo
que correu desatinado
em seu relógio lunar.

e no gesto tenho o mar
a ensinar-me a lonjura das memórias .

©Piedade Araújo Sol 2022-10-29
Imagem : andrea hubner

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terça-feira, 25 de outubro de 2022

ingratidão

reflicto ,afundando no limbo de um luto sem termo,
em que me tento reincorporar erguendo as forças exíguas,
que engenho num corpo já semidestruído, ou em percurso esporádico.

instalo os pulsos sobre a secretária e invento,
vocábulos com cores tingidas, antes que seja estrangulada,
pela estagnação delas e pela migração das aves para outras paragens.

é outono e escrevo-te,
escrevo-me,
a memória do amor não será nunca ingratidão.

nem neste nem noutro tempo vindouro,
e medito na paz que terá que fazer parte da minha resiliência,
e na de tantos outros seres como eu…

©Piedade Araújo Sol 2022.10.23
Imagem : Katarina Jung

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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Meditação das águas


O crepúsculo tombou abstraído e desorientado na poeira das memórias difusas que se encontram enclausuradas nos espelhos indecifráveis do meu eu. a inquietação rasga-me a pele, suave e branca, e sinto as maresias que se formam na crista das águas amotinadas do mar que me habita. submersa nas abóbadas da noite, sinto-me um peixe multicolor aprisionado dentro dum aquário de espelhos convexos que me refractam.

© Piedade Araújo Sol 2008-09-30
Imagem : Mary Parker

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terça-feira, 11 de outubro de 2022

decisão

em acto de submissão
num esboço organizado
em noite de insónia profunda
libertei as palavras
porventura
entre a lentidão da noite
elas
descubram o seu espaço
ou em alternativa
que fiquem a planar
sobre o mar e a cidade

adormecerei sobre o seu voo.

©Piedade Araújo Sol 2022-10-10
Imagem : david freske

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terça-feira, 4 de outubro de 2022

Nos dias germinados

Quando o dia nasce…eu já estendi,
nos destroços de algum pensamento,
os versos em fogo-fátuo,
em algum rabisco semeado,
num neurónio entorpecido..

Ficou num arquivo ,sem senha,
desprotegido e que sem querer,
ressurge quando inconfessadamente,
não dou conta do tempo,
nem do dia nascido.

E analiso as palavras,
que concebem o poema,
em estrofes argutas,
nostálgicas e traduzíveis,
embora, enjeitadas num deserto sem fim.

©Piedade Araújo Sol 2022-09-26
Imagem : Sarah Ann Loreth

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terça-feira, 27 de setembro de 2022

Perguntas ao Vento


Da janela do meu quarto olho a praia. Está vento. Aqui está sempre vento! Tenho tantas perguntas sem resposta. Por vezes queria fazer as perguntas que me queimam os neurónios. O telemóvel vibra. Olho-o de soslaio, está em sinal de reunião. Numero privado. Nunca atendo números privados. Não me apetece. E as perguntas ficam sempre por fazer. Ficam sem respostas. Não me apetece fazer nada. Nem comer. Nem me levantar. Estou morta. Morri com uma overdose de tédio. Soergo-me. Olho a praia da minha janela. Está vento. É isso! Levanto-me! Coloco o telemóvel dentro da gaveta e visto-me rapidamente com a roupa que estava na cadeira. Não a conheço, acho que nem é a minha. Amarro o cabelo num rabo-de-cavalo e saio para a tarde e para a praia que me espera. Fiz as perguntas ao vento e não obtive respostas…

©Piedade Araújo Sol 2008-09-23
Imagem : duong quoc dinh

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terça-feira, 20 de setembro de 2022

É à noite

É à noite quando tudo repousa,
que eu observo com o olhar incendiado,
de carinho,
as estrelas pelas frestas da janela,
e no silêncio que o momento impõe,
medito sem sons ou ecos,
as palavras engasgadas na planura dos lençóis,
e o desequilíbrio do dia é apenas um apêndice.

Porque a noite é aconchegante,
e a fragilidade é meramente,
um estado habitado pelas aves nocturnas.

E envelhecemos um pouco mais,
na penumbra e na reminiscência,
e sonhamos os sonhos já sonhados,
os amores partilhados,
os amores esquecidos,
e que ninguém me pergunte mais nada,
eu escolhi o recolhimento.

E fico com as estrelas,
que iluminam o meu silêncio,
e o meu anoitecer

©Piedade Araújo Sol 2022-09-11
Imagem :Victoria Soderstrom 

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terça-feira, 13 de setembro de 2022

Paradoxo (Déjà vu)


É sempre nas madrugadas que as recordações me assaltam o cérebro, povoando-me de recantos e locais onde nunca estive, nem estarei e que conheço tão bem. É contraproducente, e no entanto sinto que tudo aconteceu, pois as memórias estão aqui intactas, e não se esfumaram com o tempo.Tento pintar os locais, mas as tintas espalham-se na tela, e não consigo nem uma paleta de cores que façam sentido, pois não consigo retratar a beleza que guardo aqui na retina dos meus olhos.
É impensável, já tentei de todas as maneiras e o caixote do lixo encontra-se ali atulhado de papeis com riscos, rabiscos, borrões e nada de concreto visível ou palpável.
Amarfanho os esboços e atormentada fecho os olhos, tentando neste gesto possante prolongar as recordações para um recanto clandestino do meu cérebro.

©Piedade Araújo Sol 2004-08-31
Imagem : Gian Enid

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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Aquela tarde...


Aquela tarde existiu, num dia cheio de sol
com cheiro de verão, e no corpo
água salgada com areia fina.

Mas _____as palavras que pronunciaste
escorria-as para dentro do ralo do chuveiro da praia
foram_____ junto com as areias coladas nos meus pés.

 ........................

Nesta tarde
o chuveiro junto da saída da praia
já não existe_____ o ralo também não.

E as palavras fizerem um eco_____ seco e frio
a cortarem a minha pele causando arrepio
hoje _____em pleno dia de verão.

Sem querer ________uma outra tarde existiu
e reapareceu em lembranças
dentro _____ e fora de mim.


©Piedade Araújo Sol 2022-08-29
Imagem : Maria Kaimaiki

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

Não venhas mais, nunca mais

A casa da praia esperava por ti
Tinhas dito que vinhas

Coloquei na mesa a melhor toalha
fiz o teu prato favorito
deixei-o no forno para se manter quente.

Escolhi o vestido mais alegre
e fiquei aguardando na varanda
a ver e a ouvir as ondas do mar.

A desoras vi que não vinhas
olhei angustiada para o forno
e a fome já tinha findado.

Não vieste, nem tão pouco
chegou um telefonema
ou uma sms, nada vezes nada.

Apenas o marulhar das ondas
e este nó enrodilhado na garganta
e a angústia cravada em mim.

Não venhas mais, nunca mais!

©Piedade Araújo Sol 2022-08-11
Imagem : Michelle Ellis

 Inspirado aqui : https://brancasnuvensnegras.blogspot.com/2022/08/blog-post_10.html#comment-form

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terça-feira, 23 de agosto de 2022

Dívidas


Não sei se te paguei todas as dívidas materiais.
Mas acho que sim, eram sempre a repartir.
Essas nem sequer prescreveram, porque não existem.
Não te devo nada
Não me deves nada
O resto são cinzas que o vento levou
Num dia junto ao mar

©Piedade Araújo Sol 2022-07-17
Imagem : Slava Kushvalieva

(Inspirado aqui https://brancasnuvensnegras.blogspot.com/2022/07/foto-de-bartolomeu-rodrigues-as-nossas.html#comment-form)

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terça-feira, 16 de agosto de 2022

amanhece

amanhece
o poema
na alvura do dia
e no voo
da ave
que procura
novo pousio.

como é que tenho uma rosa branca
ainda com perfume
na palma da minha mão?!

e fico a contemplar o alvorecer
no reverso do poema
que ainda não escrevi.

©Piedade Araújo Sol 2022-08-07
Inspirado aqui https://barcaarmada.blogspot.com/2022/08/blog-post.html#comment-form
Imagem : Maria Kaimaki

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