terça-feira, 17 de julho de 2018

Darei voz às vozes surdas

Marcela Bolivar

Arrumei todos os livros nas prateleiras mais altas
Não lhes queria aparecer em sorrisos imaginários
Para que o cântico dos sonhos morresse de vez nas palavras

Quis inventar crisântemos e riscar a minha pele
Com véus em murmúrios escuros de organza
Cerzidos por linhas cruas de tons densamente nublados

Florescia em mim a memória das coisas amargas
Porque era noite e tinha frio nos caminhos tortuosos
Que de tão ásperos percorria a sangrar num martírio

Estava demasiado cansada para prosseguir submersa
Na asfixia da insónia fertilizada por laivos de pesadelos
Indecifráveis que medravam como as ervas daninhas

Mas vou reler os livros
Darei voz às vozes surdas para que me deixem viver

©Piedade  Araújo Sol  2009-01-27

terça-feira, 10 de julho de 2018

Conjunturas II

Mikael Aldo
Levanto o olhar para melhor
Fingir que não vejo, o que por vezes
Os meus olhos capturem quando
Passeiam descontrolados
E inquisidores

Às vezes não oiço nada e só pelo mover dos lábios
Retenho palavras
Que relembro nas memórias
Que se perderam nas margens de um mar inquieto
Ou de um rio que fugiu do afluente
Que o inventou ou enjeitou

Quando quero
Levanto os olhos e vejo poesia,
E silencio esse prazer num rio de silêncios
Ao sabor de uma corrente
Que deslizam
Nem sempre para foz de algum mar

Chego a conversar comigo
Em gestos cúmplices, pequeninos
Que ninguém pode entender
E pouso o meu olhar com tanta ternura
Sobre o dia…e saio distraída com um poema
Inacabado nos lábios

©Piedade Araújo Sol 2018/07/08

terça-feira, 3 de julho de 2018

Teoria


Ashraful Arefin
O ruído das palavras
Que leio nalguns livros
Incomodam o silêncio
Que por vezes deles emana

Não ando distraída
Procuro motivos
Horizontes calmos
Lápis para colorir o livro

E não as sei encontrar
Meus olhos míopes
Vislumbram apenas gotículas
De estórias inacabadas

Deixo-me navegar em mim
Desabitada
Mas não distraída do que me
Rodeia e asfixia.

©Piedade  Araújo Sol 2018/07/02

terça-feira, 26 de junho de 2018

Divagações

ashraful arefin

se soubesse a diferença entre a alvorada
e o escurecer
diria que a noite já abraça o mar .

mas derrapo o olhar sobre o horizonte
e no voo das gaivotas
a agigantar-se o meu olhar lasso.

as memórias renascem
em  resquícios   de sal
em aragem cortante e veloz.

e, sobre mim caem lembranças
das estórias dos barcos
que estão encalhados na praia.

©Piedade  Araújo Sol 2018/06/24

terça-feira, 19 de junho de 2018

Fantasias

Cristina Coral

Dentro de nós, ainda temos as mãos adornadas
do bulício das ruelas calcorreadas
onde os beijos acontecem
sem sequer sabermos o dia que anoitece
e a manhã que o antecede.

Dentro de mim, ainda oiço o sorriso (teu)
e a ternura dos olhos inundados
de cantos celestiais e aventuras
nas curvas do mar
em ondas amotinadas e salgadas.

Dentro de ti, sei que voas nas asas de um sonho
teu (ou só meu) onde as aves voam com um rumo certo e migram
para países soalheiros
ou tão-somente
para dentro de nós.

E subitamente, o tempo é um labirinto
onde nos inventamos
ou nos perdemos
no fogo das intempéries
ou na erupção dos vulcões
que se desfazem em lava.

© Piedade Araújo Sol

terça-feira, 12 de junho de 2018

metáforas em mim

Ben Zank

quando amanhece,
eu já transpus todas as madrugadas,
e todos os sonhos adormecidos em mim.

quanto entardece,
eu já senti o descambar morno
de mais um dia extraviado em mim.

quando anoitece,
eu sei que vou para o povoado
dos rabiscos e das metáforas em mim.

A escapulir-me nas manhãs,
nas tardes
e nas noites,
eu desembaraço os riscos das metáforas dispersos em mim….


©Piedade Araújo Sol 2008-08-19 (reeditado)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Por vezes

Marcela Bolívar
Por vezes ainda espreito empoleirada sobre a cadeira
Velha e a cair de caruncho
Através do postigo do quarto da casa grande
E procuro o teu nome nas estrelas
E no chilrear do canto do melros pela manhã

A casa grande envelheceu

E embora os cânticos e os aromas ainda sejam parecidos
Já não são como eram no tempo
Em que não existia solidão
E a saudade
Não tinha lugar e nem pousio certo

Envelhecemos sem saber

E as palavras envergonhadas foram encerradas
Nas gavetas semiabertas dos móveis
Estranhamente
Inventei o teu nome nos arbustos
Que todos os anos se inundam de flores silvestres

E não me perguntam: - porque

Mas, tudo ainda lembra o teu nome.

©Piedade  Araújo Sol 2018/06/04

terça-feira, 29 de maio de 2018

Apontamento


Anna O. Photography

Estendeu os dedos sobre a madeira tosca
Da secretária

Tudo o que podia dizer cabia apenas num gesto
Ou quem sabe num simples olhar
Mas o olhar sente momentos que não são se exprimem
E os gestos ficam aquém das palavras e das emoções

Não me questionem esta habilidade de sentir ou viver
Ou ainda a de  ouvir o choro __________calado
Quando assim tem que ser.

Calado.  E  ________ breve
Fundamentalmente.

Para que não lampejem sombras nos olhos
Nem se prolongue desconforto
Ou apenas mágoa ______ consternação.

E oiço a aragem na janela entreaberta
E o vento na pele e não o vejo
E ficam apenas réstias de tempo

Ausentes_______
Ausentes de mim, porque hoje não quero
Libertar a inquietação dos dias incolores.

Estendeu os dedos sobre a madeira tosca
Da secretária_______e imaginou flores
Entranhadas nas mãos cheias de memórias.

©Piedade  Araújo Sol 2018/05/28

terça-feira, 22 de maio de 2018

Palavras ao sabor da aragem

Cristopher Mckenney

Invento e planto palavras
Desbravo-as como sementes sensíveis
Esbanjadas em seu destino incerto

Insertas em fragmentos de papéis
Saltimbancos de sonhos
Ou apenas barcos amarrotados

Resvalando destes dedos
Tropeçam desavindas
Sem força de vontade

E na doçura da tarde
As minhas mãos soltam as letras
Pela janela ao sabor da aragem

E algures elas serão sementes
Em pomares de letras
Que alguém ainda vai ler

©Piedade  Araújo Sol 2018-05-21

terça-feira, 15 de maio de 2018

Este silêncio

Este silêncio moribundo
Entranhado na triste condição de ser mortal

Nas entrelinhas da tarde que antecede a noite
Leio o abraço nostálgico das sombras
Em centelhas de saudade
Na ilusão que arquitectamos no toque dos dedos
Enlaçada no tempo
Que julgávamos imperecível

Lá fora há luz e confiança
Há a Primavera imperturbável
No olhar das crianças
Que corre devagar
No declínio das memórias dos dias findos.

©Piedade Araújo Sol 2011-05-03