terça-feira, 7 de julho de 2020

A memória


A memória é um campo de batalha de onde saímos acossados.

É tarde, tão tarde, que se faz cedo
Pois já descortino o nascer do sol
E nem me apercebi da noite
As memórias acorrentam-me
E o sono é uma espécie de labirinto

Onde ele não existe, e a vigília
Ressurge todas as memórias
Que julgava estarem dissolvidas
Nos confins dos meus neurónios
Cerrados em portas intricáveis

É cedo tão cedo
E eu vejo um dia pela frente
Com tanta memória
A atropelar-me o corpo
Exausto das insónias constantes

Abrir os braços e respirar o ar puro
Que me entra pelas janelas que abri de par em par
Deito meu corpo, fecho os olhos
E espero que a memória mais bela que guardo
Tome conta de mim
E me deixe sonhar_________apenas isso.

©Piedade Araújo Sol 2020-06-27

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terça-feira, 30 de junho de 2020

Viver

Custa viver assim às apalpadelas
à espera de coisa nenhuma
os dias são estradas sem saída
e já não há sonhos
só um sofrer sem som
uma mágoa serena e tranquila
um egoísmo compartilhado
entre seres humanos.

Custa viver assim às apalpadelas
quando não existe motivo nenhum
para coisa nenhuma
e onde há música algures
rostos desiguais desfiando sorrisos
em espaços volúveis
cheios de tédio disfarçado.

Custa viver assim às apalpadelas
sofrendo tranquilamente
numa tarde quente de Junho.

© Piedade Araújo Sol (Junho 2005)
Imagem : Viktoria Haack

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Pranto ou fado em tempo estranho

“Vim deixar meu quieto pranto saudoso”
JCS

Entro no mar salgado
Procuro as águas
Para desaguar as lágrimas
Amotinadas, e analiso que
Já não me sei das horas em mim

Na esperança do lusco-fusco
Que se prenuncia
Fico a espiar num tempo sem horas
A alongar o meu olhar
E a ouvir o murmúrio do mar

Não sei já do dia que desabrido
Abandonou-me
Numa praia que não conheço
Onde só oiço o eco do vento
E o frio da noite

Pouco importa! Procurarei o caminho de casa
Todo mundo tem uma casa
Não me sei de tempos nem horas
Só esta dor órfã e que se reflecte
Nas sendas das rugas fundas do meu rosto

Já não entendo este tempo estranho
Que tem odor de pranto
Com mistura de espanto
Ecos de uma guitarra
E som  de um  fado  triste.

©Piedade Araújo Sol 2020-06-19
 Imagem : Viktoria Haack

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terça-feira, 16 de junho de 2020

Adeus!


Não gosto da palavra adeus,
por isso jamais a pronuncio,
é demasiado insofismável,
adeus é para sempre,
tem um entoar a despedida.
Ensinou-me a minha mãe.

Era sábia.
Disse-me também 
para usufruir todos os momentos da vida
porque só temos uma vida
e viver é só uma vez
(Só os gatos é que têm sete vidas)

Agora a morte!
Não devemos pensar nela,
porque pode ser de várias maneiras,
e pode acontecer várias vezes,
ao longo da nossa vida,
e do nosso viver.

E ela tinha razão,
Todos os dias morremos,
um pouco de cada vez.
Morremos, chafurdamos no limbo
renascemos e outra vez sucumbimos
a uma morte que nem contestamos.

Se for mesmo concludente,
quando acontecer, prometo,
no mais sepulcral silêncio,
talvez num murmúrio inaudível,
então dir-te-ei.
Adeus…
-
©Piedade Araújo Sol 2020-06-15
Imagem: Tyler Rayburn

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terça-feira, 9 de junho de 2020

Falando de pedras vivas



As pedras também têm vida
eu sei que sim,
por isso deito-me em cima delas ,
a sonhar com a linguagem do vento,
e o mar salgado que me alicia,
e  fico a investigar o horizonte,
denso de enigmas.

Nesses momentos, determinada,
ausento-me de mim,
e  fico nessa solidão solidária,
que salpico com fios de ilusão,
 repletos de aromas salinos
e cores. Azuis! Sempre! Ou quase!

Às vezes oiço vozes que me fazem sorrir,
e me cobrem de serenidade,
quando volto,
escondo nas mãos sem ninguém ver,
 uma pedra, que levo  cheia de sonhos dentro dela,
e paz dentro de mim.

©Piedade Araújo Sol 2020-06-08
Imagem: Viktoria Haack

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terça-feira, 2 de junho de 2020

Desencontros


Desencontros são por vezes
como poemas
escritos ao adverso.

Abraçamos a palavra
preparamos o verbo
as sílabas, e o mote.

Que se esquiva e dança
dançando sem nexo
na nossa mão nua de ação.

As letras estão ali todas
reunidas e desemaranháveis
e no entanto revoluteiam.

Em contramão e dissipam-se
em encontros que se entrosam
em casuais desencontros.

©Piedade Araújo Sol 2020-06-01
Imagem : Ilya Kisaradov

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terça-feira, 26 de maio de 2020

Há pássaros



  pássaros que acordam em mim,
e muitas vezes eu voo nas asas deles,
num voo sincronizado e esbelto.

Com seu gorjear e seu adejar ,
sem máscaras nem amarras,
ando a deliciar-me com os azuis.

E voamos ao gosto do vento,
meus cabelos longos e desgrenhados ,
ficam  ornamentados com flocos de nuvens .

(Eu) Leve
Suspensa
Descontraída

E quando o sol aquece os telhados quietos,
das casas que embelezam a cidade,
eu sei que é tempo de retornar.

Há pássaros  a acordar em mim,
em dias e em algumas manhãs,
num jogo,que eu não sei descodificar.

©Piedade Araújo Sol 2020-05-25
Imagem: Brooke Shaden

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terça-feira, 19 de maio de 2020

Palcos


O palco está esvaziado,
onde todos os actores que somos nós
estão sem guião, apenas cenas e contracenas,
que não são ensaiadas nem decoradas,
apenas embutidas no momento.

E ninguém quer ver as próximas cenas,
onde até os beijos estão confinados,
suspensos no tempo,
alguns desgarrados para todo o sempre,
nem sabemos.

Empurro, cuidadosamente os sonhos,
e o tempo (des)temperado,
arrumo as cicatrizes ,como se as pudesse apagar,
e conjecturo , e até sinto o choro calado,
nas esquinas  da cidade e do mundo,
até no interior das casas.

Dos abraços não dados neste tempo,
e dos que ficaram por dar,
e não mais se irão renovar,
tempo demente, ou simplesmente na mente
do destempo (in)temporal.

O palco está definhado,
a vida se evapora, pungente
e todo o mundo sonha,
 sonhos já sonhados,
que se guardam na memória de outros tempos.

©Piedade Araújo Sol 2020-05-17
Imagem : Magdalena Russocka

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terça-feira, 12 de maio de 2020

momentos


sinto a brisa nos meus cabelos
e o vento dança
enquanto um raio de sol
inunda o telhado da casa além
desamparada no tempo.
pássaros debicam migalhas
alimentam-se e até nesse ritual
acho algo pueril, que os torna
ainda mais belos e coloridos.
fragmentos de dias iluminados
em que a retina devora
toda a perfeição da natureza
e dos seres vivos que a habitam.
paro,
e numa melodia de esperança
danço em sonhos errantes
e esvoaço em sintonia
com os pássaros coloridos.
©Piedade Araújo Sol 2020-05-11
Imagem:Alessio Albi

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terça-feira, 5 de maio de 2020

Atualidade


Imperturbavelmente
ainda perduram reflexos de mim
para além do espanto
quem em mim se espalha.
Dói-me
imagens que observo
a explodir em palavras mudas.
Outras vezes
palavras cruéis e ingratas
em tempo estranho e demente.
Dói-me
saber de vidas desaparecidas
em dias disfarçados em cinzas escuras.
E  de ventos que sopram
já que os sinos
não retumbam em rebate.
Dói-me
este presente estilhaçado
e um futuro desacertado.
E onde os olhos rasos de água
aguardam o momento certo
para desatarem as lágrimas
cativas em olhos enxutos.

©Piedade Araújo Sol 2020-05-04
Imagem : Alessio Albi