O Rosto que o Mar Devolve
Há silêncios que sabem nadar melhor do que algumas palavras.
Há amores de verão que ficam enterrados na areia. O tempo cobre-os de marés, como se a água pudesse ensinar o esquecimento.
Mas o oceano nem sempre devolve aquilo que leva.
Há amores que nunca chegaram verdadeiramente a existir. Foram apenas o brilho breve de uma estação, um encontro sem raiz, uma promessa que a maré apagou antes sequer de ganhar nome.
Ainda assim, existem cicatrizes que o calor desperta. Basta o sal na pele ou o rumor da maresia para que um segredo antigo volte a respirar.
Então, o mar devolve-me à praia. Não me traz o passado nem o rosto que esperei rever. Devolve-me apenas a mim, diferente daquela que um dia ali deixou o coração.
As águas salgadas lavam a memória como uma lenta catarse. O corpo regressa mais leve, mas há marés que continuam a morar por dentro, onde nenhuma onda consegue chegar.
E se os meus passos deixarem sulcos na areia, tento agarrar o brilho do luar para continuar a caminhada. Nem sempre essa luz é suficiente para me descortinar a saída mais segura, mas visto-me de maresia.
E nada nem ninguém me faz desistir, porque há caminhos e memórias por percorrer. Mesmo que permaneçam inalcançáveis, nem por isso morrem; apenas insistem em ficar.
À primeira vista, parecem apenas silêncios. Mas, quando os escutamos com paciência, descobrimos que nunca guardaram o mar; guardaram apenas o eco de quem um dia o escutou e ali plantou a esperança...
Imagem : TJ-Drysdale
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