terça-feira, 30 de junho de 2026

A Permanência dos Ausentes

Há pessoas que passam pela nossa vida seguindo outro rumo. Não permanecem na presença, mas deixam algo que nunca exige explicação.

Permanecem sem estar.

Pertenceram a um ciclo que terminou, mas deixaram uma espécie de luz discreta, dessas que continuam a iluminar o caminho muito depois de a sua origem se perder na distância.

Há silêncios que ainda guardam ecos de conversas vividas. Há nomes que o tempo não consegue desfazer e que o coração, obstinado, continua a pronunciar como quem protege um segredo antigo.

Nem todos os amores precisam de eternidade para serem eternos.

Às vezes bastam momentos cerzidos em dias dispersos para adquirirem uma dimensão que escapa à medida do tempo. E a memória, paciente artesã, transforma fragmentos em poesia, preservando aquilo que a vida levou, mas não conseguiu apagar.

Porque quem passa por nós nunca parte inteiramente.

E nunca nos deixa exactamente como éramos.

Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-06-30
Imagem : Stephen Beadles

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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Piano

“Há coisas que permanecem, mesmo depois de já não terem onde ficar.”


Durante décadas foste presença
no centro da sala grande.

Quase todos os dias,
mãos hábeis roçavam-te
e de ti nasciam, Beethoven, Bach,
e outras formas de eternidade.

Depois, o tempo
foi fechando a tampa do som.

Ficaste ali,entre o pó e a penumbra,
com teclas que ainda guardavam
o calor dos dedos
que já não voltariam.

Houve dias difíceis
e tu sabias dizê-los melhor que nós.

Mas um dia, sem peso nem anúncio,
afinaram-te o silêncio
e partiste ___ tão inteiro
como quando chegaste.

Hoje, a sala respira mais vazia.

E, no entanto,
há qualquer coisa que permanece ,
não o som,
mas o lugar onde ele ainda insiste
em acontecer.

Autor © Piedade Araújo Sol 2026-06-22

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terça-feira, 16 de junho de 2026

Cartografia do imperceptível

 

Há marcas onde nada tocou.

Linhas desenhadas sem gesto, como se o espaço guardasse memórias do que recusou existir e, ainda assim, existiu.

Nada se vê — e, no entanto, algo persiste.

Uma insistência muda, como um mapa de lugares nunca visitados, que, por alguma razão, continuam a orientar um destino imprevisível.

O tempo passa por ali sem deixar idade.

Não há desgaste, nem princípio.

E, ainda assim, há uma nitidez estranha naquilo que nunca se revelou por inteiro.

Talvez seja isso: nem tudo o que atravessa precisa de corpo.

Nem tudo o que fica precisa de ter estado.


©Piedade Araújo Sol 2026-06-15
Imagem : Mira Nedyalkova

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terça-feira, 9 de junho de 2026

Barcos de Papel

A vida dobra-se em barcos de papel
entre dedos que ainda lembram
a infância
na casa junto ao mar.

Colamos margens frágeis
com a paciência breve
de quem acredita
e lançamo-los
à água incerta dos dias.

Alguns seguem altivos
na crista da espuma,
outros cedem
ao primeiro embate

E nunca sabemos
da sua fragilidade:
se foi a corrente
ou o excesso de vento

Ficamos assim —
desfeitos,
como os barcos
que um dia julgámos eternos

©Piedade Araújo Sol 2026-06-08
Imagem : Ashraful Arefin

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terça-feira, 2 de junho de 2026

A casa Grande

Na casa onde já ninguém mora
permanece
— ou apenas insiste —
uma luz acesa.

As paredes caiadas
guardam o que não se diz.

Na mesa da sala
o pó assenta devagar
como se ainda esperasse mãos.

O chão de madeira
range sem peso.

A luz
mantém-se.

Nem o verão a dissolve
nem o inverno a cansa.

No cimo da colina
a casa grande
segura-se à pedra
enquanto tudo o resto
já cedeu.

Autor : © Piedade Araújo Sol 2026-06-01
Imagem : Janelle Pietrzak

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Em contramão

Houve um tempo em que o poema
golpeava a noite _____ em degraus suspensos,
onde o estandarte das ausências
era sede _____e se saciava, nas palavras
que faziam casa e cama
sem licença _____nem horas.

O poema nascia _____nas travessias:
portos onde fundeava,
mapas reflectidos _____ao rumo das vagas,
as palavras rasgavam o vazio
_____ e o poema ficava
a voltear em noites incertas.

Nesse tempo
eu seria ave, pássaro,
de asas de cetim,
livres _____indomáveis,
cercadas de azul
entre o céu _____e outras vezes o mar.

©Piedade Araújo Sol 2026-05-25
Imagem : Katerina Plotnikova

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terça-feira, 19 de maio de 2026

Alma de pássaro

Recordar-te
é um turbilhão de memórias
suspensas entre o sonho
e a vigília.

Há em ti qualquer coisa que nunca pousa.
Não é ausência — é outra forma de presença,
como o vento quando atravessa uma casa vazia
e, ainda assim, desloca tudo.

Recordo-te em fragmentos, nunca inteiro.
Um olhar que não fixava,
um silêncio que dizia mais do que consentia,
essa forma de estar
como quem já está de partida.

Havia frio em ti, não o da distância,
mas o das paisagens onde nada se demora.
E, no entanto,
por instantes breves, quase ilusórios,
ardias.

Como se o fogo fosse um erro,
ou uma distração da tua natureza.
Eras ave ____ com alma de pássaro.
Nunca foste de ninguém:
apenas um intervalo
entre chegadas e partidas.

Porque partias sempre.
Ias, voltavas,
e tornavas a partir ,
não de mim ___ de tudo.

E eu permanecia
com essa sensação inquieta,
mesmo quando estavas.
Talvez nunca tenhas sido feito
para ser compreendido.

Agora sei:
não eras feito para ficar.
Em lugar nenhum,
tinham-te o corpo,
nunca as tuas asas.

©Piedade Araújo Sol 2026-05-18
Imagem : Ilia Kisaradov

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Herança em voz baixa

 “Há amizades que não falam todos os dias, mas nunca se calam.”

Entrelaço na memória ___ sem urgência
restos de luz antiga,
onde a amizade persiste
sem pedir nome ___ nem morada.

Misturo tons que não sei traduzir:
não são cores ____ são demoras,
ecos pousados no tempo
como fotografias que recusam partir.

No silêncio, não guardo:
sou habitada.

A ausência falha o papel
entra em cena sem corpo
e ainda assim permanece
quase em hibernação.

Quando o tempo tenta pousar em seco,
não o interrompo ____ deixo que respire em mim,
como fio antigo _____ que se desenrola sem pressa,
pelos dedos da memória.

Não há mistério :
há continuidade.

Algo arde baixo, constante,
não para iluminar,
mas para reconhecer caminhos
mesmo de olhos fechados.

E é assim
que a quietude se torna presença:
não um abrigo,
mas uma forma de permanecer.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-05-11
Imagem :Christine Muratom

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Entre Areia e Sal

Olhou demoradamente para as sandálias preferidas, gastas pelo uso, pelas caminhadas sem destino, aquelas em que saía apenas para aquietar as penas e dar sossego ao coração.

 Encolheu os ombros, resignada. Talvez já não lhe fizessem tanta falta. Gostava também de sentir os pés nus na areia ao cair da tarde, quando o mar respirava fundo e o dia se dissolvia em ouro pálido.

 Caminhar era a sua catarse: o corpo lembrava-se de tempos luminosos e, ao mesmo tempo, aprendia a suportar o murmúrio persistente da solidão.

 Observava os pescadores com ternura; eles acenavam-lhe com respeito sereno, como se reconhecessem nela a mesma resistência que o mar exige a quem vive junto dele.

 Por vezes detinha-se apenas a olhar as ondas, inquietas, renascidas, e em cada olhar recolhia partículas de luz, pequenos sinais de continuidade.

 Que importância têm umas sandálias gastas, quando os pés ainda sabem o caminho?

 Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-05-04
Imagem : Anka Zhuravleva

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terça-feira, 28 de abril de 2026

Enigmas

 

Há coisas
que não se deixam nomear.

Atravessam o espaço,
como se não lhes pertencesse,
sem peso, sem permanência.

Não são ausência, nem inexistência.
Mas também não subsistem.

Ficam apenas sinais mínimos:
um frio deslocado,
uma alteração quase imperceptível
na ordem das coisas.

Por vezes, irrompe um brilho súbito
breve demais, para ser memória.

Depois, dissipa-se,
como se nunca tivesse estado.
Há movimentos
que não consentem origem
nem destino.

E, ainda assim,
insistem em passar.
Não se prende
o que não reconhece chão.

©Piedade Araújo Sol 2026-04-27
Imagem :Katerina Plotnikova

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Uma sombra na rua

O meu grito asfixia
não sei se é medo
ou mágoa
ou o peso indistinto de ambas.

Na rua,
a minha sombra é o único vestígio,
um traço imperfeito
na noite de luz cansada.

Quem me embala
até que o sono me encontre?
Quem me recolhe
quando a dor não adormece?

A noite veste tons sem nome
e alonga o silêncio
impiedoso e frio
pela rua deserta.

É noite — eu sei.

Por isso,abraço a minha sombra
e, passo a passo,
abrirei uma janela
onde as estrelas ainda resistem.

©Piedade Araújo Sol 2026-04-20
Imagem : Melania Brescia

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terça-feira, 14 de abril de 2026

Quando o Mundo Dói em Mim

Hoje ___ o dia acordou-me
com o peso dos outros,
até o céu ___ em tons de cinza
se desfaz ___em flocos de silêncio.

Tento distrair o olhar
___ inábil___ pincelar cor
no que resiste ao gesto
mas a imaginação ___insiste.

Talvez ___ num tempo breve
as rosas em botão___ se abram
e o seu aroma ___embriague o mundo
até que a ferida ___desaprenda a doer.

Que o abismo _____ se renda ao chão
e a noite ____ desnude o frio
em véus de cetim____para que possamos registar
na pele do momento:

Esperança
Perdão
Paz

©Piedade Araújo Sol 2026-04-13
Imagem : Laura Makabresku

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Palavras Suspensas

Hoje tirei o dia
para plantar palavras
no livro da vida.

Desafio verbos,
rimas e velhas regras
e lanço-as às falésias.

Que o vento as leve
e a luz se sobreponha às trevas,
que o mundo não roube sonhos.

Que as praias sejam de areia fina,
os oceanos de peixes livres,
e o ar que respiramos seja puro.

Que não falte pão em nenhum lar,
que as crianças sejam livres
e tenham apenas de brincar.

Palavras que explodem em certezas sãs.
Que a Paz seja real e não apenas uma palavra,
palavras suspensas à espera de chão.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-04-06
Imagem : Bella Kotak

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terça-feira, 31 de março de 2026

As lágrimas da terra

Num instante
ouvi o choro da terra
alagando pomares,
ruas e becos,
casas frágeis ____ ainda vivas.

Rios em excesso,
caminhos a escorrer,
montanhas a ceder ____
um pranto aberto.

E a terra, na sua beleza,
parida pela natureza,
sob uma sombra impiedosa,
sem rédea _____chorou
quase tudo o que restava.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-30
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 24 de março de 2026

Enquanto atravessas

Não escrevo por ti,
seguro apenas a margem
enquanto atravessas o rio.

O rio transborda,
a corrente é incerta
e não revela a foz.

Tanta água a correr
entre desacertos no caminhar,
e ainda assim, avanças.

Não te empresto os meus passos,
nem te desenho o destino.
Ofereço-te presença,

porque a amizade
não é ponte que substitui a travessia,
é margem que confia.

E, quando alcançares
a outra margem,
saberás:

foi o teu próprio chão
que te sustentou.


© Piedade Araújo Sol 2026-03-23

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