Desnudada
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Gosto de saber do tempo
brinco como um
papagaio de papel,
por vezes acho
que o vento me sussurra segredos
que eu desfaço,
e enlaço sem laço
apenas farrapos
como se fossem rendas,
daquelas antigas
que as avós faziam
com ternura e afecto,
e que se perderam
no tempo
sobram véus,
os véus das mulheres
que iam à missa,
cobrindo a cabeça,
e eu brinco no tempo
que me traz memórias
enevoadas,
quase irreais
e fico a vê-las
passar.
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Talvez tenha sido uma gaivota
que um dia me disse isto ao ouvido,
quando o mar ainda guardava
o último azul da tarde.
Encontrei um homem.
Não tinha asas.
Mas quando abriu as mãos,
o mundo pareceu caber nelas.
Não o vi subir.
Vi-o permanecer de pé
quando o vento
mandava que baixasse a cabeça.
Vi-o caminhar
sem medo da distância,
sem mapa, sem perguntar
onde começava o céu.
Há perguntas
que nos prendem à terra
antes de encontrarmos
a resposta certa.
Foi então que compreendi:
voar não é fugir.
É permanecer
quando o vento nos empurra.
É confiar no caminho
mesmo quando o horizonte
ainda não se deixa alcançar.
É abrir as mãos
sem saber o que nelas pousará.
E guardar dentro de nós
aquilo que amamos
sem deixar de abrir espaço
para o mundo.
Por isso, se um dia
me virem caminhando junto ao mar,
não pensem que estou perdido.
Talvez esteja apenas à espera
de que alguma gaivota reconheça,
nas minhas mãos vazias,
o desenho de duas asas.
Talvez então eu compreenda
que o céu nunca esteve
tão longe como pensei.
E, quando o vento chamar,
sem medo de não saber para onde,
hei de me juntar ao bando.
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(Em memória da minha mãe, no dia do seu aniversário.)
Majestosa,
no cimo da escarpa, a casa grande de pedra foi a tua última morada.
Os
velhos da aldeia diziam que o primeiro de Agosto era o primeiro dia de Inverno.
Outros juravam que Agosto rimava com desgosto. Em criança, nunca compreendi o
peso dessas palavras. Hoje compreendo.
Agosto
era o mês do teu aniversário. E quis o destino que fosse também o mês da tua
partida. Desde então, esse nome passou a trazer consigo uma claridade triste,
como se o verão escondesse um inverno só meu.
Partiste,
mas nunca deixaste verdadeiramente de partir. Permaneces nos gestos que
aprendemos contigo, na força discreta com que enfrentavas os dias, na firmeza
das tuas convicções e nesse amor que raramente fazia ruído.
Quando,
antes de adormecer, vinhas cobrir-me com a manta de ternura que as tuas mãos
haviam tecido, para abrandar o frio do Inverno.
Depois
vieram os dias difíceis. Degraus que desciam e outros que tivemos de subir,
quando já julgávamos não ter forças. Ainda
assim, seguimos caminho, tantas vezes sem perceber o perigo dos atalhos.
Com
o tempo, aprendemos que recordar-te não era alimentar a tristeza, mas guardar o
sorriso que também nos deixaste.
A
casa já não existe no alto da escarpa. Mas, sempre que a memória regressa
àquele lugar, és tu quem primeiro encontro. Como se nunca tivesses saído dali.
E
quando Agosto volta, voltas também tu.
Silenciosa.
Como
sempre soubeste ficar.
Até um dia.
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O meu alter-ego tem uma alma nómada
anda por aí entre arribas e marés
a sonhar tempestades de emoções.
Não me obedece
já não lhe tenho mão nem braço
faz o que quer.
Desenha emoções em cores
inventa soluções em sorrisos
e desmente a ficção.
Voa em asas de gaivota
quando elas pousam na areia
e se preparam para partir
Nunca se perdeu, até hoje
anda por aí sem mim
mas volta sempre ao mar.
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Há silêncios que sabem nadar melhor do que algumas palavras.
Há amores de verão que ficam enterrados na areia. O tempo cobre-os de marés, como se a água pudesse ensinar o esquecimento.
Mas o oceano nem sempre devolve aquilo que leva.
Há amores que nunca chegaram verdadeiramente a existir. Foram apenas o brilho breve de uma estação, um encontro sem raiz, uma promessa que a maré apagou antes sequer de ganhar nome.
Ainda assim, existem cicatrizes que o calor desperta. Basta o sal na pele ou o rumor da maresia para que um segredo antigo volte a respirar.
Então, o mar devolve-me à praia. Não me traz o passado nem o rosto que esperei rever. Devolve-me apenas a mim, diferente daquela que um dia ali deixou o coração.
As águas salgadas lavam a memória como uma lenta catarse. O corpo regressa mais leve, mas há marés que continuam a morar por dentro, onde nenhuma onda consegue chegar.
E se os meus passos deixarem sulcos na areia, tento agarrar o brilho do luar para continuar a caminhada. Nem sempre essa luz é suficiente para me descortinar a saída mais segura, mas visto-me de maresia.
E nada nem ninguém me faz desistir, porque há caminhos e memórias por percorrer. Mesmo que permaneçam inalcançáveis, nem por isso morrem; apenas insistem em ficar.
À primeira vista, parecem apenas silêncios. Mas, quando os escutamos com paciência, descobrimos que nunca guardaram o mar; guardaram apenas o eco de quem um dia o escutou e ali plantou a esperança...
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Há dias em que a realidade se veste de crueldade
por vezes insana, num compasso sem razão
um desnorte que tropeça em si mesmo,
onde a cegueira impera
e até a luz desaprende o caminho.
´Há risos que se confundem com golpes,
gestos que desnudam quem os pratica
e deixam, em quem os recebe,
o peso invisível de um nome que nunca escolheu.
O poço já não tem fundo.
qualquer pedra encontra a alma,
qualquer palavra sabe ferir.
Abrem-se fendas difíceis de sarar,
estilhaçadas como cacos de vidro,
que permanecem sob a pele
mesmo depois de varrido o silêncio.
E há dores que não sangram.
apenas ensinam o coração
a caminhar descalço
sobre os destroços da própria dignidade.
Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-08-03
Imagem : Anna O.
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Não conhece fronteiras,
continentes ou credos.
Atravessa pontes,
navega em oceanos.
Com audácia, esconde o rosto,
afivela máscaras.
Desfigura a bondade.
Intimida sem falar.
As vítimas
são, quase sempre, inocentes.
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Sobre mim desce um manto de silêncio
como se as vagas do mar
estivessem mudas, envoltas
apenas nas areias.
Calar não é esquecer,
mas apenas fugir — ou ficar —
e manter-se à tona das águas
na espuma do tempo.
Ainda existem correntes de vida,
embora já não existam brilhos
de nenhum farol
nesta noite de breu,
que iluminem caminhos
onde eu possa repousar
o cansaço deste ciclo de marés
que se enrolam em mim…
Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-07-20
Imagem : Brooke Shaden
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Há pessoas que transmitem pelo olhar
a bondade que devia existir
na partilha e nas palavras
entre todos os seres vivos.
Dir-se-ia que em cada flor que renasce
das que feneceram na noite,
deixaram um perfume de esperança
a iluminar o alvorecer.
Que em cada ária entoada
e em cada nota musical,
perdura um eco sereno
feito memória e canção.
E quando o tempo as reclama,
florescem nos gestos que deixaram,
eternizadas na lembrança
daqueles que tocaram.
Na caminhada feita,
não partem por inteiro:
mas deixam rastos de paz,
de amor e de partilha,
na simplicidade do bem.
Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-07-13
Imagem : Cristina Coral
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As nuvens estão cansadas
deitaram-se no céu, todas destrambelhadas.
E o dia esqueceu o sol
ou o sol esqueceu o dia.
Fecharam
para um colóquio sobre o sossego.
Só que, na incerteza,
a inquietação de sonhar cores
ficou cheia de orfandade.
Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-07-06
Imagem : Brooke Shaden
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Há pessoas que passam pela nossa vida seguindo outro rumo. Não permanecem na presença, mas deixam algo que nunca exige explicação.
Permanecem sem estar.
Pertenceram a um ciclo que terminou, mas deixaram uma espécie de luz discreta, dessas que continuam a iluminar o caminho muito depois de a sua origem se perder na distância.
Há silêncios que ainda guardam ecos de conversas vividas. Há nomes que o tempo não consegue desfazer e que o coração, obstinado, continua a pronunciar como quem protege um segredo antigo.
Nem todos os amores precisam de eternidade para serem eternos.
Às vezes bastam momentos cerzidos em dias dispersos para adquirirem uma dimensão que escapa à medida do tempo. E a memória, paciente artesã, transforma fragmentos em poesia, preservando aquilo que a vida levou, mas não conseguiu apagar.
Porque quem passa por nós nunca parte inteiramente.
E nunca nos deixa exactamente como éramos.
Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-06-30
Imagem : Stephen Beadles
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Há
marcas onde nada tocou.
Linhas
desenhadas sem gesto, como se o espaço guardasse memórias do que recusou
existir e, ainda assim, existiu.
Nada
se vê — e, no entanto, algo persiste.
Uma
insistência muda, como um mapa de lugares nunca visitados, que, por alguma
razão, continuam a orientar um destino imprevisível.
O
tempo passa por ali sem deixar idade.
Não
há desgaste, nem princípio.
E,
ainda assim, há uma nitidez estranha naquilo que nunca se revelou por inteiro.
Talvez
seja isso: nem tudo o que atravessa precisa de corpo.
Nem tudo o que fica precisa de ter estado.
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A vida dobra-se em barcos de papel
entre dedos que ainda lembram
a infância
na casa junto ao mar.
Colamos margens frágeis
com a paciência breve
de quem acredita
e lançamo-los
à água incerta dos dias.
Alguns seguem altivos
na crista da espuma,
outros cedem
ao primeiro embate
E nunca sabemos
da sua fragilidade:
se foi a corrente
ou o excesso de vento
Ficamos assim —
desfeitos,
como os barcos
que um dia julgámos eternos
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