terça-feira, 17 de abril de 2018

Eu escrevo insónia

omar ortiz
Dizias que eu, quando me sentia triste, ia para casa
e escrevia um poema.
.
Mas eu faço poemas mesmo quando não estou triste,
escrevo apenas palavras que brotam de mim
e que ficam ali no papel,
apenas isso. Amanhã, nem eu própria nem ninguém
se lembrará mais delas, das palavras.
.
Eu escrevo insónia e ninguém entende.
E não há motivo aparente para entender.
E se me apetece ligar para ti, não o faço
porque não tenho nada para te dizer,
era só para ouvir a tua voz, mas tu nem irias atender,
porque estás atulhado em trabalho e eu sei que
é verdade, sei, mas não sei se sei aquilo que penso que sei,
porque eu escrevo insónia, e é só uma palavra.
.
Todas as noites antes de adormecer eu escrevo um SMS,
mas não te envio. Leio e depois apago.
Eu sei que tu dirias que não tinhas tempo de ler
E que isso são coisas de putos
E eu volto a escrever insónia.
.
Ninguém sabe que a noite pode não ser igual para todos,
pode ser terrível
de onde saem todos os espectros que nos assolam e
nos transmitem medo.
.
Eu escrevo medo e ninguém tem medo.
Ninguém tem medo do meu medo.
Ninguém quer saber a cor do medo e afinal sou só eu
que tenho medo,
que desfio as cores complicadas que ele emite.

E de que serve escrever insónia?!
Ninguém se lembra…
Ninguém tem medo das palavras que não mostro…

© Piedade Araújo Sol 2012-10-17
(reeditado)

terça-feira, 10 de abril de 2018

esse olhar

katharina Jung

esse olhar que inunda a teia,
da memória alongada,
raiz,
de um tempo esculpido na utopia,
minha,
ou tua, ou até e só nossa.

imóvel, na placidez que escorre,
por entre as memórias,
não é  apenas um olhar,
mas uma luz que ateia,
a noite e,
que perdura no tempo.

e ainda e sempre o teu corpo,
será um porto de abrigo.

©Piedade  Araújo Sol 2018-04-09

terça-feira, 3 de abril de 2018

Tempo

Damian Drewniak
A chuva entrelaça as gotas
Entre a vidraça e o baço
E a chuva que cai lá fora
Também cai dentro de mim
O olhar tomou conta dos gestos
Ou na incidência das gotas

 ©Piedade  Araújo Sol 2018-04-03

terça-feira, 27 de março de 2018

A quietude das águas

Diggie Vitt
O poeta chegou em Março, com o frio e a neve ainda no sangue.
Pediram-lhe que falasse da quietude das águas.
 Ele sorriu, porque sabia que do sossego nada sabia.
Nele, só existiam inquietações e tormentas.
O poeta olhou o céu e sentiu frio. 
Foi nessa altura que se olhou, já de pé, num banco de pedra.
 E falou do choro dos outros.

Alguns repararam que o poeta estava completamente nu.

©Piedade Araújo Sol 2009-03-17 (reeditado)

terça-feira, 20 de março de 2018

não era ainda o tempo

norvz austria
Para Graça Pires
não era ainda o tempo
a noite gerará um novo dia
para que consigas
pousar os teus lábios no poema.

e sabes que é como uma nascente
que quando nasce brota água
a diferença é que não será água
mas apenas letras que encalham no papel.

talvez nem sempre tenham o esplendor de uma
alvorada incandescente
mas nem sempre tudo será rubro
alucinado de fogo em ascensão.

pode surgir do nada,
e a tua alma limpará as janelas sombrias
e as abrigará de novo dando guarida
ao novo cantar dos pássaros.

nascerá em  toda a ternura tresmalhada
e na inquietação em desordenação
que se prenderá nos relógios
do tempo e do poema.

©Piedade Araújo Sol 2015-03-20 (reeditado)

terça-feira, 6 de março de 2018

Instantes

anka zhuravleva

Mar desgrenhado
Vento em desalinho
E um frio que cresce e que cobre o corpo

Quando o medo aperta, subo à escarpa mais alta,
e soletro o Teu nome.
Ninguém sabe do frio que me assola em dias de tempestade.
É mais simples assim.

Ninguém sabe de mim.
Nem eu sei.
E isso também nem importa.

 Além uma nuvem parece sorrir.

E trémulas as minhas mãos tombam desprotegidas
para dentro dos bolsos,
repletos de sonhos que ouso congeminar.

E soletro sem pressas o Teu nome, e lembro as cores
e a lucidez que guardo nas estações
das flores …

As flores e seus aromas…

Logo será primavera
e lembro as gardénias que existiam no parapeito da janela.

©Piedade Araújo Sol 2018-03-05

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Adormeci

Katharina Jung
Adormeci sobre o poema
subvertido pela silogística
deste fogo que me consumiu
em labaredas indomáveis,
a uniformidade
sarcástica das letras rabiscadas….

Adormeci sobre a s palavras
que me queimavam os dedos
cerceando faúlhas
que devastavam
as páginas imaculadas
formando cinzas….

© Piedade Araújo Sol 2007-08-10(reeditado)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Silêncios

Elena Vizerskaya
E se dentro de nós ressurgissem
vocábulos a brotar botões de malmequeres
ou apenas e só, palavras.

Às vezes as palavras ficam encarceradas
vazias e sem destinatário, outras há
que não as conseguimos articular.

E formam-se silêncios …

E é tão necessário a voz
O som
O eco

E a morte do silêncio

© Piedade Araújo Sol 2018-02-19

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O medo

 Katharina Jung
espreita no breu que a noite carrega,
assusta-me,
ou quiçá me protege,
e eu nem sei.

chega brando, silente sem cor,
por entre as sombras das nuvens,
e entra mesmo com as janelas vedadas,
as portas trancadas,
as cortinas cerradas.

entra e senta-se comigo à mesa,
faz cama na minha cama,
e voa com a brisa que por vezes,
me afaga o rosto.

travamos  os dois,
uma luta titânica sem cânones,
deixando-me extenuada ,mas
não quero e não posso,
e não o deixarei vencer-me.

©Piedade Araújo Sol 2018-02-12

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Esboços

paolo barzman
Espreita a luz que lhe dá o tom
para o traço irreprovável
num esboço imparcial
onde o contraste da cor
roça a timidez .

Hesitante, desiste
e o cesto dos papéis
fica atulhado de esboços imperfeitos.

Afinal!

São tão perfeitos para quem os descobre
na inocência do ver .

© Piedade Araújo Sol 2018-02-05