terça-feira, 19 de maio de 2026

Alma de pássaro

Recordar-te
é um turbilhão de memórias
suspensas entre o sonho
e a vigília.

Há em ti qualquer coisa que nunca pousa.
Não é ausência — é outra forma de presença,
como o vento quando atravessa uma casa vazia
e, ainda assim, desloca tudo.

Recordo-te em fragmentos, nunca inteiro.
Um olhar que não fixava,
um silêncio que dizia mais do que consentia,
essa forma de estar
como quem já está de partida.

Havia frio em ti, não o da distância,
mas o das paisagens onde nada se demora.
E, no entanto,
por instantes breves, quase ilusórios,
ardias.

Como se o fogo fosse um erro,
ou uma distração da tua natureza.
Eras ave ____ com alma de pássaro.
Nunca foste de ninguém:
apenas um intervalo
entre chegadas e partidas.

Porque partias sempre.
Ias, voltavas,
e tornavas a partir ,
não de mim ___ de tudo.

E eu permanecia
com essa sensação inquieta,
mesmo quando estavas.
Talvez nunca tenhas sido feito
para ser compreendido.

Agora sei:
não eras feito para ficar.
Em lugar nenhum,
tinham-te o corpo,
nunca as tuas asas.

©Piedade Araújo Sol 2026-05-18
Imagem : Ilia Kisaradov

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Herança em voz baixa

 “Há amizades que não falam todos os dias, mas nunca se calam.”

Entrelaço na memória ___ sem urgência
restos de luz antiga,
onde a amizade persiste
sem pedir nome ___ nem morada.

Misturo tons que não sei traduzir:
não são cores ____ são demoras,
ecos pousados no tempo
como fotografias que recusam partir.

No silêncio, não guardo:
sou habitada.

A ausência falha o papel
entra em cena sem corpo
e ainda assim permanece
quase em hibernação.

Quando o tempo tenta pousar em seco,
não o interrompo ____ deixo que respire em mim,
como fio antigo _____ que se desenrola sem pressa,
pelos dedos da memória.

Não há mistério :
há continuidade.

Algo arde baixo, constante,
não para iluminar,
mas para reconhecer caminhos
mesmo de olhos fechados.

E é assim
que a quietude se torna presença:
não um abrigo,
mas uma forma de permanecer.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-05-11
Imagem :Christine Muratom

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Entre Areia e Sal

Olhou demoradamente para as sandálias preferidas, gastas pelo uso, pelas caminhadas sem destino, aquelas em que saía apenas para aquietar as penas e dar sossego ao coração.

 Encolheu os ombros, resignada. Talvez já não lhe fizessem tanta falta. Gostava também de sentir os pés nus na areia ao cair da tarde, quando o mar respirava fundo e o dia se dissolvia em ouro pálido.

 Caminhar era a sua catarse: o corpo lembrava-se de tempos luminosos e, ao mesmo tempo, aprendia a suportar o murmúrio persistente da solidão.

 Observava os pescadores com ternura; eles acenavam-lhe com respeito sereno, como se reconhecessem nela a mesma resistência que o mar exige a quem vive junto dele.

 Por vezes detinha-se apenas a olhar as ondas, inquietas, renascidas, e em cada olhar recolhia partículas de luz, pequenos sinais de continuidade.

 Que importância têm umas sandálias gastas, quando os pés ainda sabem o caminho?

 Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-05-04
Imagem : Anka Zhuravleva

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terça-feira, 28 de abril de 2026

Enigmas

 

Há coisas
que não se deixam nomear.

Atravessam o espaço,
como se não lhes pertencesse,
sem peso, sem permanência.

Não são ausência, nem inexistência.
Mas também não subsistem.

Ficam apenas sinais mínimos:
um frio deslocado,
uma alteração quase imperceptível
na ordem das coisas.

Por vezes, irrompe um brilho súbito
breve demais, para ser memória.

Depois, dissipa-se,
como se nunca tivesse estado.
Há movimentos
que não consentem origem
nem destino.

E, ainda assim,
insistem em passar.
Não se prende
o que não reconhece chão.

©Piedade Araújo Sol 2026-04-27
Imagem :Katerina Plotnikova

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Uma sombra na rua

O meu grito asfixia
não sei se é medo
ou mágoa
ou o peso indistinto de ambas.

Na rua,
a minha sombra é o único vestígio,
um traço imperfeito
na noite de luz cansada.

Quem me embala
até que o sono me encontre?
Quem me recolhe
quando a dor não adormece?

A noite veste tons sem nome
e alonga o silêncio
impiedoso e frio
pela rua deserta.

É noite — eu sei.

Por isso,abraço a minha sombra
e, passo a passo,
abrirei uma janela
onde as estrelas ainda resistem.

©Piedade Araújo Sol 2026-04-20
Imagem : Melania Brescia

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terça-feira, 14 de abril de 2026

Quando o Mundo Dói em Mim

Hoje ___ o dia acordou-me
com o peso dos outros,
até o céu ___ em tons de cinza
se desfaz ___em flocos de silêncio.

Tento distrair o olhar
___ inábil___ pincelar cor
no que resiste ao gesto
mas a imaginação ___insiste.

Talvez ___ num tempo breve
as rosas em botão___ se abram
e o seu aroma ___embriague o mundo
até que a ferida ___desaprenda a doer.

Que o abismo _____ se renda ao chão
e a noite ____ desnude o frio
em véus de cetim____para que possamos registar
na pele do momento:

Esperança
Perdão
Paz

©Piedade Araújo Sol 2026-04-13
Imagem : Laura Makabresku

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Palavras Suspensas

Hoje tirei o dia
para plantar palavras
no livro da vida.

Desafio verbos,
rimas e velhas regras
e lanço-as às falésias.

Que o vento as leve
e a luz se sobreponha às trevas,
que o mundo não roube sonhos.

Que as praias sejam de areia fina,
os oceanos de peixes livres,
e o ar que respiramos seja puro.

Que não falte pão em nenhum lar,
que as crianças sejam livres
e tenham apenas de brincar.

Palavras que explodem em certezas sãs.
Que a Paz seja real e não apenas uma palavra,
palavras suspensas à espera de chão.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-04-06
Imagem : Bella Kotak

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terça-feira, 31 de março de 2026

As lágrimas da terra

Num instante
ouvi o choro da terra
alagando pomares,
ruas e becos,
casas frágeis ____ ainda vivas.

Rios em excesso,
caminhos a escorrer,
montanhas a ceder ____
um pranto aberto.

E a terra, na sua beleza,
parida pela natureza,
sob uma sombra impiedosa,
sem rédea _____chorou
quase tudo o que restava.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-30
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 24 de março de 2026

Enquanto atravessas

Não escrevo por ti,
seguro apenas a margem
enquanto atravessas o rio.

O rio transborda,
a corrente é incerta
e não revela a foz.

Tanta água a correr
entre desacertos no caminhar,
e ainda assim, avanças.

Não te empresto os meus passos,
nem te desenho o destino.
Ofereço-te presença,

porque a amizade
não é ponte que substitui a travessia,
é margem que confia.

E, quando alcançares
a outra margem,
saberás:

foi o teu próprio chão
que te sustentou.


© Piedade Araújo Sol 2026-03-23

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terça-feira, 17 de março de 2026

Luar da inquietação

Quem me ajuda a arrumar este caos
espalhado pelos cantos da casa,
colado às paredes?

Com quem volto aos trilhos
que descobrimos por acaso
naquela aldeia de xisto,

onde há a árvore antiga
em cujo tronco gravei o teu nome
sob uma coroa de rei?

Que faço deste rio que transborda
e me alaga devagar,
como chuva em terra seca?

A tua ausência não se escreve.
Mesmo com luar, a noite pesa.
E o dia nasce vazio de ti.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-16
Imagem : Janelle Pietrzak

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terça-feira, 10 de março de 2026

Entre o Abismo e a Luz

Esqueci as vozes
que me acordavam por dentro,
abrindo as janelas do dia.

Sempre, sem perguntar
se era de chuva
ou incêndio de sol.

Agora tropeço em abismos.
A solidão tem o peso
de um quarto cerrado.

Desabrigo-me das certezas
e visto temores
que não sei nomear.

Procuro refúgio na miragem
dessa urgência prematura
que promete proteger-me do tombo.

Arranco a pele da descrença
como quem levanta um escudo
feito de ar.

Deixo este poema à deriva
nu, vulnerável,
a pedir mãos invisíveis.

E, quando tudo parece suspenso,
seguro um fio mínimo de luz
antes que a noite o apague.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-10
Imagem : Rosie Hardy

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terça-feira, 3 de março de 2026

Poema versus Metáforas

Aprendeu a escrever entre silêncios,
não por disciplina,
mas porque o excesso de palavras
a denunciava.

O poema começava sempre assim:
um recuo,
um espaço em branco
a fingir que nada queria dizer.

A meditação que lhe impunha
não seguia normas, era o gesto incerto
de quem escuta
antes de escolher o verbo.

Mas as metáforas, indóceis,
entravam sem bater:
alucinadas, ríspidas,
desarrumando o verso
até o poema se esconder na margem.

Havia dias em que escrevia
o que o vento ditava,
outros em que tentava escrever
o silêncio ,
e descobria que ele não aceita ser traduzido.

Entre persianas, alinhava palavras
como quem espia o mundo
sem lhe tocar:
sentia-se só no poema, mas acompanhada
pela frase que ainda não nasceu.

Até que o próprio texto, sem segredos,
se insurgiu contra o silêncio,
baniu-o como pecado capital e, tremendo,
deixou as metáforas dançar
mesmo sabendo que escrever
é perder o controlo.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-02
Imagem : Shaina Sterrett

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Divergências

Ainda não descobri
porque houve afastamentos
na minha caminhada.

Tento contrabalançar o rumo
com lucidez e não consigo
aliar os fios com que teço.

Ensaio a sequência dos passos
mas o desequilíbrio
fragmenta o percurso.

Aguardo no meu poiso
uma ajuda silenciada
num sinal que não chega.

E fico na ponta do cais
a olhar o mar e os barcos
isso nunca me atraiçoa.

©Piedade Araújo Sol 2026-02-23
Imagem : Mikeila Borgia

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Entre o silêncio e a palavra

Não tenhas medo das palavras
tem cuidado com elas
usa-as com brandura.

E, se puderes,
com a sabedoria acumulada
ao longo do teu caminhar.

Quando não souberes usá-las
no instante certo
deixa-as dormir em ti.

Há palavras que ferem
que abrem a carne do tempo
e se tornam cicatriz.

Porque, se o silêncio magoa,
há palavras que magoam
muito mais…

©Piedade Araújo Sol 2006-02-16
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Meu País

Vi o meu país amado
submerso.

Ruas sem nome,
casas abertas à água,
memórias a boiar
como destroços.

Os rios, cheios demais,
alargaram o corpo
e levaram consigo,a história
que não sabia nadar.

Nos olhos, o choque.
No peito ressentido,
um cansaço antigo
que não encontra abrigo.

Há um pânico mudo
a crescer nas margens,
uma dor que não grita
mas insiste e não termina.

E eu, que não sei rezar,
procuro fé, como quem procura
um lugar seco
no meio do dilúvio.

Ficam-me os olhos a arder,
as lágrimas livres ,porque há tragédias
que não pedem versos perfeitos
apenas, que não desviemos o olhar.

Autor  © Piedade Araújo Sol 2026-02-07

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