Lembrar Agosto
(Em memória da minha mãe, no dia do seu aniversário.)
Majestosa,
no cimo da escarpa, a casa grande de pedra foi a tua última morada.
Os
velhos da aldeia diziam que o primeiro de Agosto era o primeiro dia de Inverno.
Outros juravam que Agosto rimava com desgosto. Em criança, nunca compreendi o
peso dessas palavras. Hoje compreendo.
Agosto
era o mês do teu aniversário. E quis o destino que fosse também o mês da tua
partida. Desde então, esse nome passou a trazer consigo uma claridade triste,
como se o verão escondesse um inverno só meu.
Partiste,
mas nunca deixaste verdadeiramente de partir. Permaneces nos gestos que
aprendemos contigo, na força discreta com que enfrentavas os dias, na firmeza
das tuas convicções e nesse amor que raramente fazia ruído.
Quando,
antes de adormecer, vinhas cobrir-me com a manta de ternura que as tuas mãos
haviam tecido, para abrandar o frio do Inverno.
Depois
vieram os dias difíceis. Degraus que desciam e outros que tivemos de subir,
quando já julgávamos não ter forças. Ainda
assim, seguimos caminho, tantas vezes sem perceber o perigo dos atalhos.
Com
o tempo, aprendemos que recordar-te não era alimentar a tristeza, mas guardar o
sorriso que também nos deixaste.
A
casa já não existe no alto da escarpa. Mas, sempre que a memória regressa
àquele lugar, és tu quem primeiro encontro. Como se nunca tivesses saído dali.
E
quando Agosto volta, voltas também tu.
Silenciosa.
Como
sempre soubeste ficar.
Até um dia.
Imagem : Andrea Kiss
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