terça-feira, 16 de outubro de 2018

Os beijos nus



Choveu durante todo o dia.
Tu dizias que os dias de chuva podiam ser tão bons como os dias de sol, bastava apenas estar com a companhia certa….e eu concordei contigo.
É verdade!
Quando chove lembro sempre de palavras envoltas em silêncios. Relembrar o meu olhar para o telhado e ver a chuva a cair, e apenas sentir o cheiro da pele. A tua! A minha! A nossa.
Suturo fragmentos de cheiros e construo mapas na minha cabeça.
Mapas sem coordenadas, sem rotas, apenas cheiros, sensações que emergem em dias de chuva.
E chegam sussurros no seio da chuva e no silêncio de mim.
E recolho os resquícios
Das lembranças dispersas apetece-me
Vestir a chuva
Com beijos
Mas eu dizia que os beijos eram sempre nus
E tu rias
E eu dizia que precisava
De vestir os meus com os teus beijos.

©Piedade Araújo Sol 2015-10-11

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O Sonho


Leah Johnston
Há quem pense
Que o sonho é apenas uma ilusão
Que nasce durante a noite
E morre ao amanhecer

Mas eu sei que o sonho
Pode ser uma realidade
Que trago comigo ao acordar

E asfixio ao nascer do anoitecer

E se acham que o sonho
Morre com o poeta, eu digo
Que o poeta nunca morre
Porque o sonho com ele apenas repousa

Mas, ainda assim, eu penso que o sonho
Faz parte da saudade
Que o poeta deixou a navegar
Na imensidão do mar.

© Piedade Araújo Sol 2009-10-06

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Não sei quem sou


Nada se dilui no pardacento da tarde. É quase noite em mim. Não me lembro das manhãs. Muito menos das madrugadas mais longínquas no meu corpo. Olho-me no céu. Parece que vai chover. As terras estão secas como eu. Há tantos dias que os meteorologistas anunciam a chuva. Mas do céu não cai uma gota sequer. E eu a precisar do gosto da chuva no meu corpo. As terras estão ressequidas. Esquecidas de Deus. Que também se esqueceu de nós. Os velhos dizem que é a maior seca dos últimos trinta anos. Eu não sei há quantos anos dura a minha estiagem. Nem tenho ainda essa idade. Ou será que tenho…?!

Já não sei nada de nada. Às vezes gostava de saber os tempos dos velhos da aldeia. O tempo das sementeiras. O tempo para plantar as batatas no pedaço de terra ideal. O tempo das cebolas e por aí adiante. Gostava de saber os meus tempos. Das sementes que a minha terra não vê plantadas. Os meus campos enjeitados. A casa de pedra vazia de sonhos. O poço sem água. Os jardins sem flores. As trepadeiras retorcidas. Exauridas em abraços de morte a paralisar o corrimão. Tudo vazio de sons. De mim e de todos nós. Desfaleço como as paredes da casa que contam histórias a ninguém. Já não estamos lá. Nem os velhos para dizer o tempo.

Olho o céu. Talvez chova. É noite em mim. Deito-me diluída na cama.Na posição fetal. A madeira é demasiado sólida para este corpo quebrado e mirrado . Observo alheada a parede pintada a cal branca do quarto. Eu, trepadeira retorcida na chuva que não cai. As paredes cheias de nada. Não sei por que me deito nesta cama. Onde não durmo. Tantas noites em branco na parede branca que me espreita com um desgosto negro. Este corpo que se deita nesta ou noutra cama. Nesta ou noutra parede.Neste ou noutro País. Não é o meu corpo. É mais um corpo. Não sei de quem é. Os velhos dizem que perdi a memória. Talvez seja verdade! Talvez seja por isso que já não sei quem sou...

©Piedade Araújo Sol 2008/03/17

terça-feira, 25 de setembro de 2018

as cores do meu desenho

desenho sonhos no destino - no meu
com pequenas grãos de areia
fina
amarelada
com calor de sol
e bálsamos de mar.
por vezes com paletas de esperança
verde opala
cinza prateado
e azuis anilados
esbatidas em tons neutros.
por vezes predominam – sombras
que se escapulem espavoridas
e se ocultam fracas
nos dedos
que se querem diligentes
forjo – perpetuamente
cores novas para o meu desenho.
a lua receosamente dança
na transparência da água
que me amansa a alma
e desvia a tristeza….

© Piedade Araújo Sol 2010-07-13

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Não me procures por aí

JAROSLAW DATTA
Não me procures por aí
(desertei da habitação dos sonhos)
Vivo nas catacumbas dos xistos
Esquecida nos esconderijos
Cobertos de poeiras moribundas.


Não me procures aqui
(escondi-me numa burca)
Não tenho rosto, nem rugas, nem sonhos
Levantei voo e perdi o meu norte
Em tempestades de areias.


Não me procures
(feneci no voo improvável)
Estarei aquém de ti
No olhar das gaivotas
E nas vagas do mar.

Autor : © Piedade Araújo Sol 2009/09/15

terça-feira, 11 de setembro de 2018

há chamas adormecidas no sono dos violinos.


Violeta Radkova

há chamas adormecidas no sono
dos violinos.
.
gemidos tangentes transbordam os sentidos
desordenados, e uma dissimulada melancolia,
dorme encoberta em finos silêncios.
.
um dia, um incêndio
irá despertar o sono dos violinos,
numa transmutação de notas,
de alguma pauta abandonada.
.
há cinzas espalhadas no acordar
dos violinos.

©Piedade Araújo Sol 2009-09-01

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Em pinceladas de Iman Maleki

Gostava de saber ensinar-te
do voo das gaivotas
a sulcar o céu sob as nuvens
e saber do gosto
da flor do sal.

E, quando no fim da tarde nos sentarmos
na praia molhada, gostava de te falar das areias finas e
do seu singular deslizar
no côncavo das minhas mãos.

Mas eu não tenho a sabedoria dos filósofos
e nem o azul que espreita no céu
despontaria na minha sede de saber
e sequer viria em meu auxílio.

Porque fico a olhar e calo
o voo das gaivotas, que também é o meu
(e o teu)
e escrevo apenas o verde e cinza dos teus olhos
(nos meus)
em pinceladas de um Iman Maleki.*

©Piedade  Araújo Sol 2009-08-11
.* Nota: Iman Maleki é um artista iraniano nascido em 1976, as suas pinturas impressionam pelo realismo, parecem fotografias. Iman Maleki desde criança gostou de desenho,e aos 15 anos começou a estudar pintura com Morteza Katouzian, maior pintor realista do Irão.
Foto:Sunlight de Iman Maleki

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Testamento canino


Não procures o silêncio, nas brumas da alma, se apenas chegam murmúrios de vento breve a te enaltecerem a vista – turva.

Por vezes o escuro - nosso - é a paz ou o refúgio de outrem, por vezes uma partida para o lugar dos limbos ou do descanso dos deuses, por vezes em forma – nuvem - de cão a pairar na nossa sede de esperança.

Na deslembrança , que não será entorpecimento pinta uma tela com cores, as mesmas que fazem desta ausência forçada, ou por vezes , tão-somente, apenas um esgueirar-me para navegar - voar- com as estrelas que agora brilham com mais aconchego.
E fica com a ternura a derramar-se nos teus olhos inundados de saudade e a guiar-te os passos pelos trilhos que um dia partilhamos.
.
Nota:Memórias de um cão que partiu e deixou esta mensagem ao dono.

© Piedade Araújo Sol 2011-07-21

terça-feira, 21 de agosto de 2018

nas minhas mãos

Cristina Coral
nas minhas mãos, cabiam todas as tardes em que eu olhava o rio
e o confundia com o mar brilhante que havia nos teus olhos
por vezes plácido
outras vezes quase colérico
quase revolto,

mas as minhas mãos hospedaram tantas vezes as tardes e os dias
que por vezes as palavras foram seda
e a maciez delas em ti foram apenas ocaso
foram ternura desmedida e luz a escorrer em cachão,

as minhas mãos resguardaram o meu mundo
e eu fiquei aqui
nesta margem a tentar prolongar os tons em sépia que o    crepúsculo
ainda e sempre nos mimoseia.

© Piedade Araújo Sol 2013-02-26

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os silêncios


laura makabresku
Ando dentro dos silêncios
Amachuco as palavras
Que me morrem nos lábios

Os silêncios são a rotina
Que as palavras não quebram
Esgotadas e esquecidas

Tenho medo!
Das palavras
Tenho medo
Dos silêncios!



© Piedade Araújo Sol 2006-08-14