terça-feira, 14 de abril de 2026

Quando o Mundo Dói em Mim

Hoje ___ o dia acordou-me
com o peso dos outros,
até o céu ___ em tons de cinza
se desfaz ___em flocos de silêncio.

Tento distrair o olhar
___ inábil___ pincelar cor
no que resiste ao gesto
mas a imaginação ___insiste.

Talvez ___ num tempo breve
as rosas em botão___ se abram
e o seu aroma ___embriague o mundo
até que a ferida ___desaprenda a doer.

Que o abismo _____ se renda ao chão
e a noite ____ desnude o frio
em véus de cetim____para que possamos registar
na pele do momento:

Esperança
Perdão
Paz

©Piedade Araújo Sol 2026-04-13
Imagem : Laura Makabresku

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Palavras Suspensas

Hoje tirei o dia
para plantar palavras
no livro da vida.

Desafio verbos,
rimas e velhas regras
e lanço-as às falésias.

Que o vento as leve
e a luz se sobreponha às trevas,
que o mundo não roube sonhos.

Que as praias sejam de areia fina,
os oceanos de peixes livres,
e o ar que respiramos seja puro.

Que não falte pão em nenhum lar,
que as crianças sejam livres
e tenham apenas de brincar.

Palavras que explodem em certezas sãs.
Que a Paz seja real e não apenas uma palavra,
palavras suspensas à espera de chão.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-04-06
Imagem : Bella Kotak

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terça-feira, 31 de março de 2026

As lágrimas da terra

Num instante
ouvi o choro da terra
alagando pomares,
ruas e becos,
casas frágeis ____ ainda vivas.

Rios em excesso,
caminhos a escorrer,
montanhas a ceder ____
um pranto aberto.

E a terra, na sua beleza,
parida pela natureza,
sob uma sombra impiedosa,
sem rédea _____chorou
quase tudo o que restava.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-30
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 24 de março de 2026

Enquanto atravessas

Não escrevo por ti,
seguro apenas a margem
enquanto atravessas o rio.

O rio transborda,
a corrente é incerta
e não revela a foz.

Tanta água a correr
entre desacertos no caminhar,
e ainda assim, avanças.

Não te empresto os meus passos,
nem te desenho o destino.
Ofereço-te presença,

porque a amizade
não é ponte que substitui a travessia,
é margem que confia.

E, quando alcançares
a outra margem,
saberás:

foi o teu próprio chão
que te sustentou.


© Piedade Araújo Sol 2026-03-23

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terça-feira, 17 de março de 2026

Luar da inquietação

Quem me ajuda a arrumar este caos
espalhado pelos cantos da casa,
colado às paredes?

Com quem volto aos trilhos
que descobrimos por acaso
naquela aldeia de xisto,

onde há a árvore antiga
em cujo tronco gravei o teu nome
sob uma coroa de rei?

Que faço deste rio que transborda
e me alaga devagar,
como chuva em terra seca?

A tua ausência não se escreve.
Mesmo com luar, a noite pesa.
E o dia nasce vazio de ti.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-16
Imagem : Janelle Pietrzak

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terça-feira, 10 de março de 2026

Entre o Abismo e a Luz

Esqueci as vozes
que me acordavam por dentro,
abrindo as janelas do dia.

Sempre, sem perguntar
se era de chuva
ou incêndio de sol.

Agora tropeço em abismos.
A solidão tem o peso
de um quarto cerrado.

Desabrigo-me das certezas
e visto temores
que não sei nomear.

Procuro refúgio na miragem
dessa urgência prematura
que promete proteger-me do tombo.

Arranco a pele da descrença
como quem levanta um escudo
feito de ar.

Deixo este poema à deriva
nu, vulnerável,
a pedir mãos invisíveis.

E, quando tudo parece suspenso,
seguro um fio mínimo de luz
antes que a noite o apague.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-10
Imagem : Rosie Hardy

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terça-feira, 3 de março de 2026

Poema versus Metáforas

Aprendeu a escrever entre silêncios,
não por disciplina,
mas porque o excesso de palavras
a denunciava.

O poema começava sempre assim:
um recuo,
um espaço em branco
a fingir que nada queria dizer.

A meditação que lhe impunha
não seguia normas, era o gesto incerto
de quem escuta
antes de escolher o verbo.

Mas as metáforas, indóceis,
entravam sem bater:
alucinadas, ríspidas,
desarrumando o verso
até o poema se esconder na margem.

Havia dias em que escrevia
o que o vento ditava,
outros em que tentava escrever
o silêncio ,
e descobria que ele não aceita ser traduzido.

Entre persianas, alinhava palavras
como quem espia o mundo
sem lhe tocar:
sentia-se só no poema, mas acompanhada
pela frase que ainda não nasceu.

Até que o próprio texto, sem segredos,
se insurgiu contra o silêncio,
baniu-o como pecado capital e, tremendo,
deixou as metáforas dançar
mesmo sabendo que escrever
é perder o controlo.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-02
Imagem : Shaina Sterrett

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Divergências

Ainda não descobri
porque houve afastamentos
na minha caminhada.

Tento contrabalançar o rumo
com lucidez e não consigo
aliar os fios com que teço.

Ensaio a sequência dos passos
mas o desequilíbrio
fragmenta o percurso.

Aguardo no meu poiso
uma ajuda silenciada
num sinal que não chega.

E fico na ponta do cais
a olhar o mar e os barcos
isso nunca me atraiçoa.

©Piedade Araújo Sol 2026-02-23
Imagem : Mikeila Borgia

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Entre o silêncio e a palavra

Não tenhas medo das palavras
tem cuidado com elas
usa-as com brandura.

E, se puderes,
com a sabedoria acumulada
ao longo do teu caminhar.

Quando não souberes usá-las
no instante certo
deixa-as dormir em ti.

Há palavras que ferem
que abrem a carne do tempo
e se tornam cicatriz.

Porque, se o silêncio magoa,
há palavras que magoam
muito mais…

©Piedade Araújo Sol 2006-02-16
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Meu País

Vi o meu país amado
submerso.

Ruas sem nome,
casas abertas à água,
memórias a boiar
como destroços.

Os rios, cheios demais,
alargaram o corpo
e levaram consigo,a história
que não sabia nadar.

Nos olhos, o choque.
No peito ressentido,
um cansaço antigo
que não encontra abrigo.

Há um pânico mudo
a crescer nas margens,
uma dor que não grita
mas insiste e não termina.

E eu, que não sei rezar,
procuro fé, como quem procura
um lugar seco
no meio do dilúvio.

Ficam-me os olhos a arder,
as lágrimas livres ,porque há tragédias
que não pedem versos perfeitos
apenas, que não desviemos o olhar.

Autor  © Piedade Araújo Sol 2026-02-07

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O nada que pode ser tudo

O ritmo não se mede
pela celeridade
mas pela cumplicidade.

Na escrita me perco,
exploro nichos secretos,
desvendo sigilos que sussurram.

Às vezes, um paradoxo dança
entre camadas infinitas,
pedindo absorção, pedindo alquimia.

Não há certeza,
mas algo se transforma:
e o nada se veste de tudo.

E descubro, na minha carroça,
asas escondidas, entre tábuas gastas,
prontas para voar.

© Piedade Araújo Sol 2026-
Imagem : Adram Brid (Modelo Rosie Hardy)

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Devaneios ao cair da tarde

Meus lábios encerram hoje para inventário,
as palavras hibernam, obstinadas
e falha-me a voz.

Fico neste silêncio que nada me diz,
olhos pousados no entardecer,
onde o sol se recolhe sem promessas.

Amanhã, talvez este estado transitório
se enrede nas palavras
como rendas de luz .

©Piedade Araújo Sol 2026-01-26
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre o que foi, o que é, e o que virá

Não revolvas ____o solo antigo,
nele germinam memórias,
que o tempo nem sempre colhe maduras.

Há sementes que dão flores,
outras apenas _____ silêncios,
nem toda raiz reclama ser esticada.

O agora cresce _____sem pedir licença,
como luz que se infiltra pelas frestas,
mesmo quando cerramos as janelas.

O que o passado encobriu,
nem sempre precisa nome,
nem sempre suporta sol.

O caminho adiante promete mais
que os escombros da infância,
onde pétalas foram chão.

Alegorias ___ perfumadas
que pés inocentes esmagaram
sem saberem que eram flores.

Segue em paz ____ há voos que só se aprendem
quando desapegamos ___ das pedras,
o que nos incomoda os pés.

Ousa na tua trajectória,
dá a permissão _____ às asas,
conversarem com o vento.

Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-01-19
Imagem : Katerina Plotnikova

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sábado, 17 de janeiro de 2026

Imagem Serena

Francisco Simões foi um escultor português.

Nascimento: 3 de outubro de 1946,
Falecimento: 16 de janeiro de 2026

Até sempre meu Amigo
-
Reedição desta postagem em sua memória

  Para Francisco Simões (Escultor)

Existem dedos que são rios
que em vez de água desaguam
arte
no âmago das pedras e do gesso.
Mãos que são rios
com caudal inextinguível
no silêncio dos sentires
impregnados de ternura.
A beleza alongada
em forma delineada
imagem imóvel
mas plena de  vida.
Mãos que por vezes são
archotes de fogo em fúria
loucura branda a gotejar
imperceptível e inebriada
Mãos renascidas ao alvorecer
quando a luz  é fosca
e ainda não fere o olhar
de beleza serena.
E nascem imagens
com contorno de vida
e quiçá sensualismo
com cor, alma  e vida.

©Piedade Araújo Sol 2015-07-06

Nota:A foto é de minha autoria e a imagem retratada é uma escultura de Francisco Simões

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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Paleta de cores em voo

Tento erguer, dentro de mim,
uma paleta de cores suspensas,
tão leves que parecem asas,
para pintar com os dedos
um traço minúsculo
na tela imensa do mundo
mas a tinta evapora-se antes do toque.

Entre pinceladas falhadas e latências,
levantam-se ventos que rasgam a paleta,
espalhando pigmentos pelo ar.

O meu voo, manchado de hesitações,
perde altitude;
e a firmeza que me resta
solidifica em impotência,
num grão de areia perdido no céu.

Será este o combate de quem tenta colorir o vento?
Um duelo sem céu nem chão,
onde ninguém vence?
Ainda assim, recolho os estilhaços das tintas
e insisto:
há sempre uma cor que resiste ao apagamento.
Há sempre um sonho disposto a levantar voo.

Autor ©Piedade Araújo Sol
Imagem : Laura Makabresku

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