terça-feira, 27 de julho de 2021

Mutações

Oiço e leio que o que ontem era bom,
hoje é muito ruim,
e é preciso banir da nossa vida.

Conter lamentos
será mau? não sei!
a dor é órfã, é só de quem a sente.

Há névoas salgadas,
que se confundem com lágrimas,
ou será apenas um cisco no olho.

Porque o vento deslizou,
porque a reminiscência reteve,
algo que devia ter olvidado.

Já não sei se a palavra que não me enlaça,
será um bem, ou apenas ansiedade,
ou simplesmente uma forma de ser ou estar.

E refaço a ondulação do abstrato,
em coisa outra, e diligencio,
a resiliência com que tenho de alinhar.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-19
Imagem : Slevin Aaron


Etiquetas: , ,

terça-feira, 20 de julho de 2021

Vai e leva

 

Leva
A noite embrulhada na bruma,
do dia que a precedeu,
e de  todos os seus encantos e desencantos,
e faz com que as estrelas dancem,
na outra noite que há-de vir,
e onde os meus sonhos se irão,
ressuscitar em ti ou em mim.

Leva
A ressaca das ternuras,
amealhadas em tempo e labareda,
em serenidade e descrença,
em ciúmes ensombrados de alienação,
em promessas que não foram feitas,
e onde as palavras se esqueceram,
de saber.

Leva
A convulsão dos corpos quentes,
no deslumbramento das marés,
na  praia conivente de noites,
que não souberam acontecer,
e não quiseram perdurar,
à revolta das algas que o mar,
às areias enjeitou.

Leva
Tudo – porque o tudo
É tão pouco – ou quase nada.
.
©Piedade Araújo Sol 2013-07-16
Imagem : Mariesol Fummy

Etiquetas: , , ,

terça-feira, 13 de julho de 2021

Afectos

Apenas vestígios, neste tempo de pandemia,
ou do desnorte de nós(e do mundo),
saibamos aguardar as manhãs alvas,
onde com um simples sopro,
se possa mandar um beijo além.

Num pulsar de sentimentos,
os afectos são inevitavelmente,
uma manifestação de ternura,
para os que amamos.

Do outro lado do vento,
que recebam os beijos não dados,
os abraços apertados,
e a esperança em forma de paz e amor.

Hoje, para todos vós deixo um sorriso,
em forma de afecto,
a inundar-me o rosto,
como um reflexo de sol em frente do espelho.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-12

Etiquetas: , , ,

terça-feira, 6 de julho de 2021

Palavras

Há palavras vestidas de cicatrizes
de dores e mágoas difundidas
na pureza do papel
que a memória guardou.

Um dia elas serão apenas vestígios
de um passado que ninguém mais recordará
e talvez faça parte de algum legado
ou sejam esquecidas para sempre.

Poderá ser, que alguém as deslinde
e a leitura seja um bálsamo para quem as ler
e conseguir entender a mensagem
que o Poeta sempre deixa.

Palavras esquivas, soltas
mas sempre com a sensibilidade
Interminável e ardilosa
para quem as quiser entender.

©Piedade Araújo Sol 2021-07-05
Imagem : laura makabresku

Etiquetas: , ,

terça-feira, 29 de junho de 2021

Teoria - Memórias

Tu tinhas a teoria (a tua)
que explicavas em voz alta
com uma dicção irrepreensível
e não aceitavas interrupções
ou contradições.

Eu não precisava de teorias
quando tinha que viver e lutar
pela realidade (a minha)
que não se enquadrava na teoria (a tua).

Mas, tu não compreendias
e não perdoavas
quando alguém te contrariava.

Eu ousava, e exponha a minha dúvida
mas dei-me mal, muito mal
quando no final do período
olhei céptica para a pauta , e tinha chumbado.
Um ano tresmalhado é certo
mas não me dobraste como aos outros.

Tanto tempo já se passou
hoje ao ler um dos teus livros
senti que não guardo ressentimento
e se não concordei na altura
com a tua teoria sobre tantos assuntos.

Admiro e admirarei para sempre
a forma criativa
da tua poesia.

© Piedade Araújo Sol 2021-06-27
Imagem : Christine Ellger

Etiquetas: , ,

terça-feira, 22 de junho de 2021

O Silêncio


Ouve, ouve atentamente
o ruído do silêncio
imagina o seu desmesurável tamanho
colossal e glacial.

Ouve, e digo-te que todo ele cabe
na minha mão pequena
como um eco que se consome
oculto e inexplicável.

Talvez o vento nos traga
lembranças encerradas
que a mente camufla
no frio do silêncio.

©Piedade Araújo Sol 2021-06-20
Imagem : Katerina Plotnikova

Etiquetas: , ,

terça-feira, 15 de junho de 2021

Amar-te


Amar-te foi tropeçar numa curva do destino,
sem imaginar encontrar-te,
foi uma linha irrequieta,
interdita e que eu nem quis saber.

Foi o caos que se libertou em mim,
foi um voar sem asas,
e em contramão,
foi o perfume inebriante da maresia.

Foi cair e levantar sem sentir,
as feridas que se compunham,
de raspão,
e ficavam em combustão.

Amar-te foi o renascer,
o reviver,
o entender a compartilhar,
e o rematar.

Nesse caos que nós construímos,
e que planando em nós,
foi tudo o que não procurávamos,
e não esqueceremos jamais.

©Piedade Araújo Sol 2021-06-14

Etiquetas: , ,

terça-feira, 8 de junho de 2021

Pelos azuis do horizonte

Por vezes os meus anjos,
digladiam-se severamente com os meus demónios,
nunca sei se as guerras entre eles,
sucumbe com algum vencedor,
mas creio que sim e sinto-me,
sempre (ou quase) protegida pelos anjos.

Quando me sinto perseguida,
desenho azuis induzida no horizonte,
mesmo que empoleirada nos abismos,
da vida com lâminas aguçadas,
que não me chegam a golpear ,
porque eu sou auxiliada pelos anjos.

E pelos azuis do horizonte.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2021-06-06
Tela : Luís Rodrigues

Etiquetas: , ,

terça-feira, 1 de junho de 2021

Às vezes estou triste

às vezes estou triste
nesses instantes invento palavras e momentos
que (talvez) nunca subsistiram senão em mim
e no meu subconsciente,
que oiço vozes em forma de ecos.

Muitas vezes, oiço-te
E tu dizes raras vezes (muitas vezes) que eu sou complicada e diferente.

.
E eu pergunto-me se alguma vez tu me disseste essas palavras que eu às vezes oiço ou se ou se sou só eu que as imagino
e que debito no papel onde por vezes as escrevo.
.
Acho que todos somos complicados por vezes
acho que a vida é complicada

E nós complicamos ainda mais
Tantas vezes – muitas vezes.
.
Tu dizias que eu era a pessoa mais imprevisível que conhecias
E eu sorria escondida num sorriso mudo e inexcedível.
Porque eu achava que quem era imprevisível eras tu
Hoje, olhando o vazio da tua imagem.

Ainda és tu que me sorris
para além do espelho que miro em mim
E que me faço em ti.

Contigo nunca foi necessário inventar nada
Nem tempo
Nem tristezas
Nem alegrias
Tu eras tudo
Tudo.
.
Por isso ainda hoje subo o Chiado lentamente
Lentamente
Muito devagar e sinto que estás mal estacionado
E que já apanhaste uma multa pela minha demora.

Quando estou triste ainda é, e sempre será
o teu sorriso que me acalma
o sorriso mais belo que eu conheci
e que nunca mais consegui encontrar em mais ninguém.
.
Um sorriso que alegra a vida.

© Piedade Araújo Sol 2013-05-28
Imagem : Jaroslaw Datta 

Etiquetas: , , ,

terça-feira, 25 de maio de 2021

Faz acontecer

Se a escuridão te atormenta ,
acende uma luz,
e talvez a tenebrosidade da noite,
não seja assim tão maléfica,
não esperes por acontecer.

Faz acontecer

A chuva nem sempre traz a intempérie,
e se for apenas chuva tombando,
olha-a como um bálsamo para as terras,
quando estão sôfregas de água,
para sobreviver.

Faz acontecer

Se o ruído te atordoa,
recorda, que por vezes os silêncios,
também nos trazem ruído,
e se o ruído incomoda faz que o silêncio,
se traslade apenas em eco e não em dor.

Faz acontecer

Há coisas que não se podem mudar,
mas podemos, amenizar,
se nos fazem mal ou nos causam mal-estar,
ninguém é feliz, quando não reparte,
então façamos a diferença.

©Piedade Araújo Sol 2021-05-24
Imagem :Kristina Makeeva photography

Etiquetas: , ,

terça-feira, 18 de maio de 2021

alter-ego

Por vezes tenho uma guerra titânica
com a outra,
que não sou eu,
ou talvez sou,
a outra, que é um apêndice do meu eu,
ou eu que sou apêndice dela,

não sei quando escrevo sem cessar,
palavras secas, infrutíferas,
se é defeito meu ou dela.

Mas sei, que não consigo parar,
e muitas vezes no epílogo,
amarfanho tudo,
rasgo e lanço com impaciência,
para o cesto dos papéis,
e nem sei porque o faço.

©Piedade Araújo Sol 2021-05-11
Imagem : Nikolina Petolas

Etiquetas: , ,

terça-feira, 11 de maio de 2021

Tenho um sonho



Tenho um sonho escondido no brilho do dia,
por vezes acorrentado de nuvens,
que entornam as suas lágrimas,
metamorfoseadas em água doce, na terra árida.
que dança descontrolado,

O meu sonho é desenho, silhueta de riscos insondáveis,
sem alma que divagam apenas numa partícula,
de sonância e silêncio,
num horizonte em que minha visão óptica,
se perde e por vezes se encontra.

Momento breve, difuso,
que se modifica em acordes de música,
orquestrada nos sons da chuva,
e nos ecos de vento,
e em que me purifico num doce batizado,
de águas doces puras e frias.

Eu sei que as águas tinham de ser salgadas,
mas, eu tenho um sonho escondido,
algures por aí.

©Piedade Araújo Sol 2013-05-07 
Imagem : Christopher Ryan Mckenney´s

Etiquetas: , , ,

terça-feira, 4 de maio de 2021

As Mães

 

As mães são fadas silenciosas,
sem varinha de condão,
que circulam pela casa a tentar proteger tudo e todos,
de todos os males,
e para que nada falte e tudo se mantenha em harmonia,
as mães não deviam morrer,
deviam ser sempre fadas prontas a nos proteger de todos os perigos.

A minha mãe era uma fada,
com uma cara bonita e macia como seda,
que mais parecia uma boneca de porcelana,
era tão frágil, mas muito sensível e astuta,
que também sabia ser dura e enérgica,
quando a circunstância assim o exigia.

A mãe partiu numa noite aprazível,
sem se despedir, sem um queixume, sem mágoa,
foi silenciosa como um anjo.
Apenas partiu num sono leve,
e deixou-nos o saber, e uma saudade que prevalece,
para todo o sempre.

Autor: ©Piedade Araújo Sol 2021-05-02
Imagem : Gustav Klimt

Etiquetas: , ,

terça-feira, 27 de abril de 2021

Escrevi sobre silêncios

Escrevi sobre silêncios e sobre os ecos que ressoam,
na ausência seca das palavras,
e o vento calou-me o silêncio,
e o meu cabelo voou sem cadência e sem rumo.

Tenho vagabundeado por aí,
ao sabor do vento e da madrugada,
livre de amarras,
e a semear duvidas e caos,
num labirinto de tempo libertado,
um destempo de casualidades.

Tenho um rio coberto de azul
que se abalroa inundado de água,
que se solta e encontra sempre o mar,
e que liberta as cores que me levam,
a ser onda e ser palavra.

©Piedade Araújo Sol 2013-04-23
Imagem : Mariesol Fumy

Etiquetas: , ,

terça-feira, 20 de abril de 2021

O som do violino


David Garret

Esta noite sonhei com um violino
que expelia sons
entornados em lágrimas
secas
desnudas
desprotegidas.

Era uma ária triste
mas tão bela na sua tristeza
era pura poesia
que o violino gotejava
despertei deliciada e saí â procura
daquela melodia, algures.

Senti uma quietude
na manhã que nascia
em pura magia de cor
movimento,
aromas
e sons.

Inexplicavelmente
julguei sentir ecos de alguém
que chorava
silenciosamente
agarrado às cordas de um violino
e a um sonho que expirava.

©Piedade Araújo Sol 2021-04-19
Imagem : ChristophKstlin

Etiquetas: ,