terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Legados de amor protector

(Em memória do meu pai)

Há dias mansos em que o silêncio parece guardar segredos,que nunca aprendi a decifrar. O mar fala baixo, muda de voz com as marés, e ainda me lembro de como tu sorrias da minha incapacidade em compreender aquilo que para ti era tão natural, como se tivesses nascido com o ouvido treinado para a linguagem das águas salinas.

Eu era apenas uma miúda que bebia cada palavra tua, acreditando que um dia aprenderia contigo os nós do mundo, os nós de marinheiro que davam sentido às viagens. Nunca os aprendi. E talvez por isso certos dias ainda me pareçam desatados, soltos, a boiar no tempo.

Partiste sem aviso, num amanhecer frio de Ano Novo, e a luz desse dia ficou para sempre com um brilho quebrado. O tempo, desde então, anda dividido em antes e depois.

Ficaram ecos dispersos, memórias toldadas, como se o sal do mar tivesse enevoado tudo o que era nítido.

Depois da tua partida, fui aprendendo devagar o que a vida exige. Mas nesse dia longínquo, no instante em que percebi que não voltarias, desaprendi a chorar. Fechei-me por dentro, como se o mar tivesse recolhido as ondas.

Às vezes reencontro-te nos sulcos do meu rosto, quando penso demasiado ou quando a tristeza se instala sem pedir licença. Vejo-te no voo das gaivotas, no desenho que fazem no céu como quem escreve mensagens que não se apagaram. Vejo-te no mar, manso ou revolto, trazendo sempre o cheiro antigo da tua presença.

O que ficou de ti ancorou-se em mim: o amor que nunca precisou ser explicado, os papéis onde escrevias rotas, as cartas de marear que hoje leio devagar, como quem tenta perceber, tarde demais, que o rumo também se sente com o coração.

E sigo, Pai. Sigo pelas águas que deixaste dentro de mim, tentando aprender ainda a arte de regressar ao que importa.

Até sempre…

Autor © Piedade Araújo Sol 2026-01-01
Imagem :shawrus  porto da Masúria 

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