terça-feira, 26 de maio de 2026

Em contramão

Houve um tempo em que o poema
golpeava a noite _____ em degraus suspensos,
onde o estandarte das ausências
era sede _____e se saciava, nas palavras
que faziam casa e cama
sem licença _____nem horas.

O poema nascia _____nas travessias:
portos onde fundeava,
mapas reflectidos _____ao rumo das vagas,
as palavras rasgavam o vazio
_____ e o poema ficava
a voltear em noites incertas.

Nesse tempo
eu seria ave, pássaro,
de asas de cetim,
livres _____indomáveis,
cercadas de azul
entre o céu _____e outras vezes o mar.

©Piedade Araújo Sol 2026-05-25
Imagem : Katerina Plotnikova

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terça-feira, 19 de maio de 2026

Alma de pássaro

Recordar-te
é um turbilhão de memórias
suspensas entre o sonho
e a vigília.

Há em ti qualquer coisa que nunca pousa.
Não é ausência — é outra forma de presença,
como o vento quando atravessa uma casa vazia
e, ainda assim, desloca tudo.

Recordo-te em fragmentos, nunca inteiro.
Um olhar que não fixava,
um silêncio que dizia mais do que consentia,
essa forma de estar
como quem já está de partida.

Havia frio em ti, não o da distância,
mas o das paisagens onde nada se demora.
E, no entanto,
por instantes breves, quase ilusórios,
ardias.

Como se o fogo fosse um erro,
ou uma distração da tua natureza.
Eras ave ____ com alma de pássaro.
Nunca foste de ninguém:
apenas um intervalo
entre chegadas e partidas.

Porque partias sempre.
Ias, voltavas,
e tornavas a partir ,
não de mim ___ de tudo.

E eu permanecia
com essa sensação inquieta,
mesmo quando estavas.
Talvez nunca tenhas sido feito
para ser compreendido.

Agora sei:
não eras feito para ficar.
Em lugar nenhum,
tinham-te o corpo,
nunca as tuas asas.

©Piedade Araújo Sol 2026-05-18
Imagem : Ilia Kisaradov

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Herança em voz baixa

 “Há amizades que não falam todos os dias, mas nunca se calam.”

Entrelaço na memória ___ sem urgência
restos de luz antiga,
onde a amizade persiste
sem pedir nome ___ nem morada.

Misturo tons que não sei traduzir:
não são cores ____ são demoras,
ecos pousados no tempo
como fotografias que recusam partir.

No silêncio, não guardo:
sou habitada.

A ausência falha o papel
entra em cena sem corpo
e ainda assim permanece
quase em hibernação.

Quando o tempo tenta pousar em seco,
não o interrompo ____ deixo que respire em mim,
como fio antigo _____ que se desenrola sem pressa,
pelos dedos da memória.

Não há mistério :
há continuidade.

Algo arde baixo, constante,
não para iluminar,
mas para reconhecer caminhos
mesmo de olhos fechados.

E é assim
que a quietude se torna presença:
não um abrigo,
mas uma forma de permanecer.

Autor : ©Piedade Araújo Sol 2026-05-11
Imagem :Christine Muratom

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Entre Areia e Sal

Olhou demoradamente para as sandálias preferidas, gastas pelo uso, pelas caminhadas sem destino, aquelas em que saía apenas para aquietar as penas e dar sossego ao coração.

 Encolheu os ombros, resignada. Talvez já não lhe fizessem tanta falta. Gostava também de sentir os pés nus na areia ao cair da tarde, quando o mar respirava fundo e o dia se dissolvia em ouro pálido.

 Caminhar era a sua catarse: o corpo lembrava-se de tempos luminosos e, ao mesmo tempo, aprendia a suportar o murmúrio persistente da solidão.

 Observava os pescadores com ternura; eles acenavam-lhe com respeito sereno, como se reconhecessem nela a mesma resistência que o mar exige a quem vive junto dele.

 Por vezes detinha-se apenas a olhar as ondas, inquietas, renascidas, e em cada olhar recolhia partículas de luz, pequenos sinais de continuidade.

 Que importância têm umas sandálias gastas, quando os pés ainda sabem o caminho?

 Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-05-04
Imagem : Anka Zhuravleva

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