terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Devaneios ao cair da tarde

Meus lábios encerram hoje para inventário,
as palavras hibernam, obstinadas
e falha-me a voz.

Fico neste silêncio que nada me diz,
olhos pousados no entardecer,
onde o sol se recolhe sem promessas.

Amanhã, talvez este estado transitório
se enrede nas palavras
como rendas de luz .

©Piedade Araújo Sol 2026-01-26
Imagem : Brooke Shaden

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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre o que foi, o que é, e o que virá

Não revolvas ____o solo antigo,
nele germinam memórias,
que o tempo nem sempre colhe maduras.

Há sementes que dão flores,
outras apenas _____ silêncios,
nem toda raiz reclama ser esticada.

O agora cresce _____sem pedir licença,
como luz que se infiltra pelas frestas,
mesmo quando cerramos as janelas.

O que o passado encobriu,
nem sempre precisa nome,
nem sempre suporta sol.

O caminho adiante promete mais
que os escombros da infância,
onde pétalas foram chão.

Alegorias ___ perfumadas
que pés inocentes esmagaram
sem saberem que eram flores.

Segue em paz ____ há voos que só se aprendem
quando desapegamos ___ das pedras,
o que nos incomoda os pés.

Ousa na tua trajectória,
dá a permissão _____ às asas,
conversarem com o vento.

Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-01-19
Imagem : Katerina Plotnikova

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sábado, 17 de janeiro de 2026

Imagem Serena

Francisco Simões foi um escultor português.

Nascimento: 3 de outubro de 1946,
Falecimento: 16 de janeiro de 2026

Até sempre meu Amigo
-
Reedição desta postagem em sua memória

  Para Francisco Simões (Escultor)

Existem dedos que são rios
que em vez de água desaguam
arte
no âmago das pedras e do gesso.
Mãos que são rios
com caudal inextinguível
no silêncio dos sentires
impregnados de ternura.
A beleza alongada
em forma delineada
imagem imóvel
mas plena de  vida.
Mãos que por vezes são
archotes de fogo em fúria
loucura branda a gotejar
imperceptível e inebriada
Mãos renascidas ao alvorecer
quando a luz  é fosca
e ainda não fere o olhar
de beleza serena.
E nascem imagens
com contorno de vida
e quiçá sensualismo
com cor, alma  e vida.

©Piedade Araújo Sol 2015-07-06

Nota:A foto é de minha autoria e a imagem retratada é uma escultura de Francisco Simões

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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Paleta de cores em voo

Tento erguer, dentro de mim,
uma paleta de cores suspensas,
tão leves que parecem asas,
para pintar com os dedos
um traço minúsculo
na tela imensa do mundo
mas a tinta evapora-se antes do toque.

Entre pinceladas falhadas e latências,
levantam-se ventos que rasgam a paleta,
espalhando pigmentos pelo ar.

O meu voo, manchado de hesitações,
perde altitude;
e a firmeza que me resta
solidifica em impotência,
num grão de areia perdido no céu.

Será este o combate de quem tenta colorir o vento?
Um duelo sem céu nem chão,
onde ninguém vence?
Ainda assim, recolho os estilhaços das tintas
e insisto:
há sempre uma cor que resiste ao apagamento.
Há sempre um sonho disposto a levantar voo.

Autor ©Piedade Araújo Sol
Imagem : Laura Makabresku

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Legados de amor protector

(Em memória do meu pai)

Há dias mansos em que o silêncio parece guardar segredos,que nunca aprendi a decifrar. O mar fala baixo, muda de voz com as marés, e ainda me lembro de como tu sorrias da minha incapacidade em compreender aquilo que para ti era tão natural, como se tivesses nascido com o ouvido treinado para a linguagem das águas salinas.

Eu era apenas uma miúda que bebia cada palavra tua, acreditando que um dia aprenderia contigo os nós do mundo, os nós de marinheiro que davam sentido às viagens. Nunca os aprendi. E talvez por isso certos dias ainda me pareçam desatados, soltos, a boiar no tempo.

Partiste sem aviso, num amanhecer frio de Ano Novo, e a luz desse dia ficou para sempre com um brilho quebrado. O tempo, desde então, anda dividido em antes e depois.

Ficaram ecos dispersos, memórias toldadas, como se o sal do mar tivesse enevoado tudo o que era nítido.

Depois da tua partida, fui aprendendo devagar o que a vida exige. Mas nesse dia longínquo, no instante em que percebi que não voltarias, desaprendi a chorar. Fechei-me por dentro, como se o mar tivesse recolhido as ondas.

Às vezes reencontro-te nos sulcos do meu rosto, quando penso demasiado ou quando a tristeza se instala sem pedir licença. Vejo-te no voo das gaivotas, no desenho que fazem no céu como quem escreve mensagens que não se apagaram. Vejo-te no mar, manso ou revolto, trazendo sempre o cheiro antigo da tua presença.

O que ficou de ti ancorou-se em mim: o amor que nunca precisou ser explicado, os papéis onde escrevias rotas, as cartas de marear que hoje leio devagar, como quem tenta perceber, tarde demais, que o rumo também se sente com o coração.

E sigo, Pai. Sigo pelas águas que deixaste dentro de mim, tentando aprender ainda a arte de regressar ao que importa.

Até sempre…

Autor © Piedade Araújo Sol 2026-01-01
Imagem :shawrus  porto da Masúria 

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