Há silêncios que sabem nadar melhor do que algumas palavras.
Há amores de verão que ficam enterrados na areia. O tempo cobre-os de marés, como se a água pudesse ensinar o esquecimento.
Mas o oceano nem sempre devolve aquilo que leva.
Há amores que nunca chegaram verdadeiramente a existir. Foram apenas o brilho breve de uma estação, um encontro sem raiz, uma promessa que a maré apagou antes sequer de ganhar nome.
Ainda assim, existem cicatrizes que o calor desperta. Basta o sal na pele ou o rumor da maresia para que um segredo antigo volte a respirar.
Então, o mar devolve-me à praia. Não me traz o passado nem o rosto que esperei rever. Devolve-me apenas a mim, diferente daquela que um dia ali deixou o coração.
As águas salgadas lavam a memória como uma lenta catarse. O corpo regressa mais leve, mas há marés que continuam a morar por dentro, onde nenhuma onda consegue chegar.
E se os meus passos deixarem sulcos na areia, tento agarrar o brilho do luar para continuar a caminhada. Nem sempre essa luz é suficiente para me descortinar a saída mais segura, mas visto-me de maresia.
E nada nem ninguém me faz desistir, porque há caminhos e memórias por percorrer. Mesmo que permaneçam inalcançáveis, nem por isso morrem; apenas insistem em ficar.
À primeira vista, parecem apenas silêncios. Mas, quando os escutamos com paciência, descobrimos que nunca guardaram o mar; guardaram apenas o eco de quem um dia o escutou e ali plantou a esperança...
Imagem : TJ-Drysdale

Um texto poético e reflexivo. Maravilhoso!
ResponderEliminarÉ sempre um prazer, ler-te.
A escolha das imagens é um primor.
Beijo
Boa tarde Pity,
ResponderEliminarUm poema em prosa sublime,
que reflete, talvez, um estado de alma despoletado pelo sol, pelo mar, em que um amor de verão não terá sido mais do que isso...Conforme surgiu, foi desfeito pelas ondas, nas areias da praia...embora deixasse marcas, marcas essas que o mar jamais apagará!
Gostei muito deste seu texto!
Muito belo.
Beijinhos, minha amiga Pity.
Continuação de boa semana.
Emília
Linda prosa poética.
ResponderEliminarAs tuas palavras acompanham em silêncio o rumor da maré baixa. É uma melodia suave que permanece mesmo quando fingimos esquecê-la.
Mas entre a melodia e o silêncio, uma ternura persiste:
o reconhecimento de que tudo o que se desfaz na areia do tempo, floresce em nós, como uma maré que nunca deixa de retornar.
Um abraço e feliz semana.
Boa tarde, Pity.
ResponderEliminarA ideia central do teu texto poético é que o mar, tal como o tempo, não devolve os amores ou memórias perdidas: repõem apenas a própria pessoa, transformada pelas cicatrizes e silêncios que persistem dentro de si.
Parabéns!
5*****
Beijinho e ótima semana com paz e saúde.😘
Sempre envolvente a sua poesia.
ResponderEliminarAdorável 🙂
Me gusto tu reflexión. Te mando un beso.
ResponderEliminarOlá. Tenho de dizer que gostei muito. Um beijinho.
ResponderEliminarNaufragamos e reencontramos-nos nas marés.
ResponderEliminarPerto do Mar, encontramos um sentido, mesmo que haja dor.
Belo...
Beijos e abraços
Marta
Nem imaginas, Pity, como o teu texto me comoveu... ele remeteu-me para sentires e emoções tidas e vividas na praia da minha vida. Praia onde eu a conheci. Praia onde dela me despedi, mergulhando suas cinzas naquelas águas... resta, de tudo isso, memórias a que também fazes poéticas referências.
ResponderEliminarEstou te grato, por isso.
Beijo agradecido.
Adorei seu texto!
ResponderEliminarSensível, lindo e comovente
Goto do seu jeito de escrever
Parabéns!
Beijos
Boa noite, Pity,
ResponderEliminarBelissima prosa poética com imagens que nos leva a olhar o mar e seguir tuas pegadas na areia.
E por mais que a espera doa, por mais que o tempo passe, sempre haverá a esperança.
Parabéns!! Amei !!
Beijos!
Há amores assim, que não suportam uma nova estação. Amores de areia numa ampuleta do tempo, que vagarosamente vai se esvaindo.
ResponderEliminarBelo trabalho da poesia Pity.
Bjs e paz para um feliz fim de semana.
A memória tanto deixa os seus passos na areia como na mais dura rocha.
ResponderEliminarUm abraço.
Contra a luz não ousamos quebra o silêncio que no mar se abriga como se fosse música. E não sabemos que nome dar ao momento exacto em que tentamos ao brilho agarrar o brilho do luar. Que poema maravilhoso, minha Amiga Piedade.
ResponderEliminarTudo de bom.
Um beijo.
Para refletir.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Olá querida Piedade! Prosa poética lindíssima. Concordo plenamente que o mar tem mesmo essa capacidade incrível de nos lavar a alma e, no meio de tantas memórias, devolver-nos a nós próprios já transformados. Abraços e uma excelente semana! 🤗
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