Olhou demoradamente para as sandálias
preferidas, gastas pelo uso, pelas caminhadas sem destino, aquelas em que saía
apenas para aquietar as penas e dar sossego ao coração.
Encolheu os ombros, resignada. Talvez já não
lhe fizessem tanta falta. Gostava também de sentir os pés nus na areia ao cair
da tarde, quando o mar respirava fundo e o dia se dissolvia em ouro pálido.
Caminhar era a sua catarse: o corpo
lembrava-se de tempos luminosos e, ao mesmo tempo, aprendia a suportar o murmúrio
persistente da solidão.
Observava os pescadores com ternura; eles
acenavam-lhe com respeito sereno, como se reconhecessem nela a mesma
resistência que o mar exige a quem vive junto dele.
Por vezes detinha-se apenas a olhar as ondas,
inquietas, renascidas, e em cada olhar recolhia partículas de luz, pequenos
sinais de continuidade.
Que importância têm umas sandálias gastas,
quando os pés ainda sabem o caminho?
Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-05-04
Imagem : Anka Zhuravleva
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, Prosa Poética
13 Comentários:
Basta os pés saberem o caminho... a areia também...
E o coração continua a sussurrar e a reencontrar as memórias...
Lindo... delicado...
Beijos e abraços
Marta
Se as sandálias se gastaram é porque se encheram de caminhos...e que bom isso foi. Com sandálias ou com pés nus, importante é a força que nos move. Um abraço
~CC~
Linda publicação. Gostei.
.
Saudações poéticas
.
“” Alma que Chora ““
.
E como pode a solidão gerar um poema.
Um abraço.
Que lindo poema, querida Piedade!
"Que importância têm umas sandálias gastas quando
os pés ainda sabem o caminho?"
Achei genial essa...
Adorei o poema, amiga, aplausos daqui de longe!
Beijinhos, uma ótima semana.
Bom dia Pity,
Um texto poético muito belo, que muito apreciei pela sua estrutura e forma de comunicar os sentimentos que envolvem a Poeta.
O cenário onde se desenvolve a acção é convidativo à introspecção e, apesar das "sandálias gastas", a Poeta segue o seu caminho sentindo e vivendo tudo o que está em seu redor.
Parabéns, querida Pity, pelo extraordinário poema em prosa.
Beijinhos e continuação de uma boa semana.
Emília
Boa tarde Pity
Sublime texto poético em que nos revela um instante de despedida tranquila onde a perda se transforma em leveza e o caminho continua dentro dela.
Parabéns!
Beijinho e ótima tarde.😘
Boa noite, Pity,
Linda prosa poética que muito gostei.
Há nesse caminhar uma profunda reflexão ganhando um caminhar de pés descalços. Já não importam as sandálias gastas, sabe-se bem o roteiro desse caminhar .
Tenha ótimos dias de sol !
Beijinhos
Un relato precioso sobre la soledad y la sanación. Me encanta cómo describes el mar 'respirando profundamente' mientras ella recupera la paz descalza sobre la arena.
Un abrazo, Piedade.
Os pés também têm as suas memórias.
Magnífico texto, gostei muito.
Boa semana.
Beijo.
Adorei o texto pela beleza da escrita e pelo conteúdo...revejo-me um pouco nele, sendo que o meu mar é arável na imensa planície.
Um beijo
Olá querida Piedade! Mais um belo poema! Achei muito criativa a parte das sandálias gastas pelos caminhos da vida… e ainda mais desta frase final “quando os pés ainda sabem o caminho". Parabéns por mais um poema de excelência. Beijinhos e boa semana! 🤗
Como é fácil ver o que escreveste.
A imagem forma-se sem demorra na nossa imaginação.
Chegam até nós os cheios e sons que rodeiam esta personagem descalça, figura delicada de cabelos soltos ao vento, de sandálias na mão, acenando aos trabalhadores do mar, contemplando as vastas águas que se perdem no horizonte...
Cmpts,
Fox
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