terça-feira, 3 de março de 2026

Poema versus Metáforas

Aprendeu a escrever entre silêncios,
não por disciplina,
mas porque o excesso de palavras
a denunciava.

O poema começava sempre assim:
um recuo,
um espaço em branco
a fingir que nada queria dizer.

A meditação que lhe impunha
não seguia normas, era o gesto incerto
de quem escuta
antes de escolher o verbo.

Mas as metáforas, indóceis,
entravam sem bater:
alucinadas, ríspidas,
desarrumando o verso
até o poema se esconder na margem.

Havia dias em que escrevia
o que o vento ditava,
outros em que tentava escrever
o silêncio ,
e descobria que ele não aceita ser traduzido.

Entre persianas, alinhava palavras
como quem espia o mundo
sem lhe tocar:
sentia-se só no poema, mas acompanhada
pela frase que ainda não nasceu.

Até que o próprio texto, sem segredos,
se insurgiu contra o silêncio,
baniu-o como pecado capital e, tremendo,
deixou as metáforas dançar
mesmo sabendo que escrever
é perder o controlo.

©Piedade Araújo Sol 2026-03-02
Imagem : Shaina Sterrett

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16 Comentários:

Blogger " R y k @ r d o " disse...

Poema deslumbrante que muito gostei de ler.
Cumprimentos poéticos

terça-feira, 03 março, 2026  
Blogger Marta Vinhais disse...

O poema toma forma mesmo quando pensamos que nada temos a dizer...
Belo...
Beijos e abraços
Marta

terça-feira, 03 março, 2026  
Blogger Fá menor disse...

Deixar as metáforas dançar...
Muito bem.
Gostei muito de todo o poema e do remate: "escrever é perder o controlo".
Por vezes vivemos controlados demais e não deixamos sair poesia para a nossa vida.

Beijinhos e boa semana!

terça-feira, 03 março, 2026  
Blogger Olavo Marques disse...

Olá querida Piedade! Adorei, adorei, adorei este seu poema. Acho que dos meus preferidos seus. Escrever é mesmo perder o controlo... quase sempre esses são os melhores ! Abracinhos! 🤗

terça-feira, 03 março, 2026  
Blogger Emília Simões disse...

Boa noite Pity,
O poema magnífico e muito profundo, que reflete sobre o ato de escrever como um diálogo entre silêncio e palavra. Mostra que a poesia nasce da escuta e da hesitação, mas também da liberdade imprevisível das metáforas. No fundo, sugere que escrever é aceitar perder o controlo e deixar que as palavras ganhem vida própria.
Gostei muito. Muito criativo e íntimo!
Um grande beijinho, minha Amiga, Pity.
Emília

terça-feira, 03 março, 2026  
Blogger Bandys disse...

Olá Pity,
A inquietação da escrita e a dor do silencio. voce combina muito bem as palavras com as imagens tornando assim seu cantinho super legal.Estava com problemas no meu blog, mas ja foi resolvido.
bkjs

quarta-feira, 04 março, 2026  
Blogger Ana Tapadas disse...

Incrível poema, minha amiga, com uma excelente definição da arte poética.
Um beijo

quarta-feira, 04 março, 2026  
Blogger lis disse...

Bendito esse vento que alinha as palavras e a faz dançar e perder o controle. Assim posso voltar a ler suas metáforas e seus silêncios. Abraços ,Pity

quinta-feira, 05 março, 2026  
Blogger Tais Luso de Carvalho disse...

Que lindo, querida Piedade, um primor de poema, você escreve com o coração, e coração não se engana nunca, mesmo colocando as regrinhas da poesia, sinto um lindo pulsar que vem lá do fundinho...
Deixo meus aplausos daqui do Sul do Brasil.
Ler seus poemas é se encantar!
Um beijo, querida amiga.

sexta-feira, 06 março, 2026  
Blogger Mona Lisa disse...

Boa tarde Pity.
Sublime poema que revela o confronto entre silêncio e imaginação, mostrando que a escrita nasce, quando as metáforas acordam!
Parabéns!
Beijinho e ótima tarde com paz e saúde.

sexta-feira, 06 março, 2026  
Blogger Jordi López Pérez disse...

Me ha cautivado esa idea de que el silencio no acepta ser traducido y cómo las palabras se alinean 'como quien espía el mundo'. Es una reflexión profunda sobre la lucha y el baile entre lo que decimos y lo que callamos. ¡Gracias por estos versos, Piedade!"

sábado, 07 março, 2026  
Blogger Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, amiga Piedade, o seu excelente poema mostra calmamente o envolvimento da poeta com as palavras, os silêncios e os projetos do poema. O
envolvimento que ao fim e ao cabo representa uma
criação poética de excelência.
Parabéns, amiga!
Um bom domingo e parabéns pelo Dia Internacional de Mulher.
Beijo, amiga.

domingo, 08 março, 2026  
Blogger Graça Pires disse...

As metáforas são indóceis e a inspiração também. Mas quando o poeta se envolve nas palavras estas nunca o deixam ficar mal. E o poema irrompe como se viesse de uma nascente onde a boca vai beber. Belíssimo poema, minha Amiga Piedade. Um dia internacional da Mulher seja muito agradável.
Um beijo.

domingo, 08 março, 2026  
Blogger Juvenal Nunes disse...

... ou também sistematizar ideias.
Bom resto de fim de semana.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes

domingo, 08 março, 2026  
Blogger Jaime Portela disse...

Depois do chuto (na bola) não há controlo possível pelo rematador.
Tal como das palavras, dos poemas e de outros escritos.
Excelente, gostei imenso deste seu poema.
Boa semana.
Um beijo.

segunda-feira, 09 março, 2026  
Blogger LuísM Castanheira disse...

um belíssimo poema que muito me diz... bjs, amiga Pi

terça-feira, 10 março, 2026  

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