terça-feira, 16 de junho de 2026

Cartografia do imperceptível

 

Há marcas onde nada tocou.

Linhas desenhadas sem gesto, como se o espaço guardasse memórias do que recusou existir e, ainda assim, existiu.

Nada se vê — e, no entanto, algo persiste.

Uma insistência muda, como um mapa de lugares nunca visitados, que, por alguma razão, continuam a orientar um destino imprevisível.

O tempo passa por ali sem deixar idade.

Não há desgaste, nem princípio.

E, ainda assim, há uma nitidez estranha naquilo que nunca se revelou por inteiro.

Talvez seja isso: nem tudo o que atravessa precisa de corpo.

Nem tudo o que fica precisa de ter estado.


©Piedade Araújo Sol 2026-06-15
Imagem : Mira Nedyalkova

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