Olhou demoradamente para as sandálias
preferidas, gastas pelo uso, pelas caminhadas sem destino, aquelas em que saía
apenas para aquietar as penas e dar sossego ao coração.
Encolheu os ombros, resignada. Talvez já não
lhe fizessem tanta falta. Gostava também de sentir os pés nus na areia ao cair
da tarde, quando o mar respirava fundo e o dia se dissolvia em ouro pálido.
Caminhar era a sua catarse: o corpo
lembrava-se de tempos luminosos e, ao mesmo tempo, aprendia a suportar o murmúrio
persistente da solidão.
Observava os pescadores com ternura; eles
acenavam-lhe com respeito sereno, como se reconhecessem nela a mesma
resistência que o mar exige a quem vive junto dele.
Por vezes detinha-se apenas a olhar as ondas,
inquietas, renascidas, e em cada olhar recolhia partículas de luz, pequenos
sinais de continuidade.
Que importância têm umas sandálias gastas,
quando os pés ainda sabem o caminho?
Autor ©Piedade Araújo Sol 2026-05-04
Imagem : Anka Zhuravleva
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, Prosa Poética
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