Alma de pássaro
Recordar-te
é um turbilhão de memórias
suspensas entre o sonho
e a vigília.
Há em ti qualquer coisa que nunca pousa.
Não é ausência — é outra forma de presença,
como o vento quando atravessa uma casa vazia
e, ainda assim, desloca tudo.
Recordo-te em fragmentos, nunca inteiro.
Um olhar que não fixava,
um silêncio que dizia mais do que consentia,
essa forma de estar
como quem já está de partida.
Havia frio em ti, não o da distância,
mas o das paisagens onde nada se demora.
E, no entanto,
por instantes breves, quase ilusórios,
ardias.
Como se o fogo fosse um erro,
ou uma distração da tua natureza.
Eras ave ____ com alma de pássaro.
Nunca foste de ninguém:
apenas um intervalo
entre chegadas e partidas.
Porque partias sempre.
Ias, voltavas,
e tornavas a partir ,
não de mim ___ de tudo.
E eu permanecia
com essa sensação inquieta,
mesmo quando estavas.
Talvez nunca tenhas sido feito
para ser compreendido.
Agora sei:
não eras feito para ficar.
Em lugar nenhum,
tinham-te o corpo,
nunca as tuas asas.
Imagem : Ilia Kisaradov
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, poesia

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