Aprendeu a escrever entre silêncios,
não por disciplina,
mas porque o excesso de palavras
a denunciava.
O poema começava sempre assim:
um recuo,
um espaço em branco
a fingir que nada queria dizer.
A meditação que lhe impunha
não seguia normas, era o gesto incerto
de quem escuta
antes de escolher o verbo.
Mas as metáforas, indóceis,
entravam sem bater:
alucinadas, ríspidas,
desarrumando o verso
até o poema se esconder na margem.
Havia dias em que escrevia
o que o vento ditava,
outros em que tentava escrever
o silêncio ,
e descobria que ele não aceita ser traduzido.
Entre persianas, alinhava palavras
como quem espia o mundo
sem lhe tocar:
sentia-se só no poema, mas acompanhada
pela frase que ainda não nasceu.
Até que o próprio texto, sem segredos,
se insurgiu contra o silêncio,
baniu-o como pecado capital e, tremendo,
deixou as metáforas dançar
mesmo sabendo que escrever
é perder o controlo.
©Piedade Araújo Sol 2026-03-02
Imagem : Shaina Sterrett

Poema deslumbrante que muito gostei de ler.
ResponderEliminarCumprimentos poéticos
O poema toma forma mesmo quando pensamos que nada temos a dizer...
ResponderEliminarBelo...
Beijos e abraços
Marta