Legados de amor protector
Há dias mansos em que o silêncio parece guardar segredos,que nunca aprendi a decifrar. O mar fala baixo, muda de voz com as marés, e ainda me lembro de como tu sorrias da minha incapacidade em compreender aquilo que para ti era tão natural, como se tivesses nascido com o ouvido treinado para a linguagem das águas salinas.
Eu era apenas uma miúda que bebia cada palavra tua, acreditando que um dia aprenderia contigo os nós do mundo, os nós de marinheiro que davam sentido às viagens. Nunca os aprendi. E talvez por isso certos dias ainda me pareçam desatados, soltos, a boiar no tempo.
Partiste sem aviso, num amanhecer frio de Ano Novo, e a luz desse dia ficou para sempre com um brilho quebrado. O tempo, desde então, anda dividido em antes e depois.
Ficaram ecos dispersos, memórias toldadas, como se o sal do mar tivesse enevoado tudo o que era nítido.
Depois da tua partida, fui aprendendo devagar o que a vida exige. Mas nesse dia longínquo, no instante em que percebi que não voltarias, desaprendi a chorar. Fechei-me por dentro, como se o mar tivesse recolhido as ondas.
Às vezes reencontro-te nos sulcos do meu rosto, quando penso demasiado ou quando a tristeza se instala sem pedir licença. Vejo-te no voo das gaivotas, no desenho que fazem no céu como quem escreve mensagens que não se apagaram. Vejo-te no mar, manso ou revolto, trazendo sempre o cheiro antigo da tua presença.
O que ficou de ti ancorou-se em mim: o amor que nunca precisou ser explicado, os papéis onde escrevias rotas, as cartas de marear que hoje leio devagar, como quem tenta perceber, tarde demais, que o rumo também se sente com o coração.
E sigo, Pai. Sigo pelas águas que deixaste dentro de mim, tentando aprender ainda a arte de regressar ao que importa.
Autor © Piedade Araújo Sol 2026-01-01
Imagem :shawrus porto da Masúria
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, Prosa Poética


9 Comentários:
Deixou-me os olhos rasos de água, querida Piedade Sol... e fiquei sem palavras...
Um beijo
Linda homenagem e as saudades, por mais que passe o tempo, nunca acabam!Só crescem! beijos, chica
Um maravilhoso texto. Como a dor da perda pode despertar sentimentos e palavras das mais bela.
Um abraço.
Boa noite e Bom Ano, Pity.
Sublime e emocionante homenagem
ao teu pai.
A dor de ausência é uma dor constante.
Sei o que sentes, pois a partida da minha mãe,deixou - me sem "o meu porto seguro."
Vieram- me as lágrimas aos olhos.
Pity, o teu pai está longe e ausente,mas sempre perto de ti.
Beijinho 😘e um abraço 🫂 apertadinho, Pity.
Profunda reflexión. Te mando un beso.
Bom dia Pity,
Uma homenagem sentida, profunda, comovente e muito bela a seu Pai.
Fez-me lembrar a partida de meu pai no dia de Natal, de há oito anos atrás.
O chão parece que se abriu a meus pés.
Beijinho e abraço muito fraternos.
Emília
Preciosas palabras para un ser que os ha dejado. Pero nunca lo vas a olvidar, Piedade. Cualquier detalle te hará volver a él. Un fuerte abrazo, amiga.
Bom Ano 2026...A partida é sempre dolorosa... ficam as memórias espalhadas no vento, no mar...
Beijos e abraços
Marta
Ah! os pais, o primeiro homem das nossas vidas e seu texto comove-me muito, faz lembrar o meu que deixou tantas interrogações quanto motivações. Foi meu pai e minha mãe. Fez-me um pouco rebelde e quero muito vê-lo de novo. E, verei.
Bonita homenagem ,Pity , muito bonita ! deixando meu abraço e agradecendo sua presença durante o ano. Sigamos juntas o 2026. Beijinhos.
Enviar um comentário
Subscrever Enviar feedback [Atom]
<< Página inicial