O Piano
“Há coisas que permanecem, mesmo depois de já não terem onde ficar.”
Durante décadas foste presença
no centro da sala grande.
Quase todos os dias,
mãos hábeis roçavam-te
e de ti nasciam, Beethoven, Bach,
e outras formas de eternidade.
Depois, o tempo
foi fechando a tampa do som.
Ficaste ali,entre o pó e a penumbra,
com teclas que ainda guardavam
o calor dos dedos
que já não voltariam.
Houve dias difíceis
e tu sabias dizê-los melhor que nós.
Mas um dia, sem peso nem anúncio,
afinaram-te o silêncio
e partiste ___ tão inteiro
como quando chegaste.
Hoje, a sala respira mais vazia.
E, no entanto,
há qualquer coisa que permanece ,
não o som,
mas o lugar onde ele ainda insiste
em acontecer.
Autor © Piedade Araújo Sol 2026-06-22
Etiquetas: Direitos de autor, Piedade Araújo Sol, poesia

1 Comentários:
Bom dia, Piedade Sol,
belíssimo
O som retine
num recanto recatado da memória
(parece real)
Ouço-o pela noite dentro
com a nitidez de lua cheia,
o vibrar dos ossículos, suaves
dedos a afagar corpo
de leite e chocolate
Marfim e ébano imortais
Bom trabalho. Bj.
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