terça-feira, 23 de junho de 2026

O Piano

“Há coisas que permanecem, mesmo depois de já não terem onde ficar.”


Durante décadas foste presença
no centro da sala grande.

Quase todos os dias,
mãos hábeis roçavam-te
e de ti nasciam, Beethoven, Bach,
e outras formas de eternidade.

Depois, o tempo
foi fechando a tampa do som.

Ficaste ali,entre o pó e a penumbra,
com teclas que ainda guardavam
o calor dos dedos
que já não voltariam.

Houve dias difíceis
e tu sabias dizê-los melhor que nós.

Mas um dia, sem peso nem anúncio,
afinaram-te o silêncio
e partiste ___ tão inteiro
como quando chegaste.

Hoje, a sala respira mais vazia.

E, no entanto,
há qualquer coisa que permanece ,
não o som,
mas o lugar onde ele ainda insiste
em acontecer.

Autor © Piedade Araújo Sol 2026-06-22

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1 Comentários:

Blogger Agostinho disse...

Bom dia, Piedade Sol,
belíssimo

O som retine
num recanto recatado da memória
(parece real)

Ouço-o pela noite dentro
com a nitidez de lua cheia,
o vibrar dos ossículos, suaves
dedos a afagar corpo
de leite e chocolate

Marfim e ébano imortais

Bom trabalho. Bj.

terça-feira, 23 junho, 2026  

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