terça-feira, 17 de julho de 2018

Darei voz às vozes surdas

Marcela Bolivar

Arrumei todos os livros nas prateleiras mais altas
Não lhes queria aparecer em sorrisos imaginários
Para que o cântico dos sonhos morresse de vez nas palavras

Quis inventar crisântemos e riscar a minha pele
Com véus em murmúrios escuros de organza
Cerzidos por linhas cruas de tons densamente nublados

Florescia em mim a memória das coisas amargas
Porque era noite e tinha frio nos caminhos tortuosos
Que de tão ásperos percorria a sangrar num martírio

Estava demasiado cansada para prosseguir submersa
Na asfixia da insónia fertilizada por laivos de pesadelos
Indecifráveis que medravam como as ervas daninhas

Mas vou reler os livros
Darei voz às vozes surdas para que me deixem viver

©Piedade  Araújo Sol  2009-01-27

18 Comentários:

Blogger Larissa Santos disse...

Um poema muito bem construído. Adorei :))

Bjos
Votos de uma óptima Terça- Feira

terça-feira, 17 julho, 2018  
Blogger Cidália Ferreira disse...

Mais um poema exímio! :)

Alma adormecida sem rumo.

Beijos e um excelente dia!

terça-feira, 17 julho, 2018  
Blogger Rogerio G. V. Pereira disse...

Vai poeta
vai ler
dá voz às vozes caladas
para que soltem o grito
e iluminem
esses murmúrios escuros

és ou não és Sol?

terça-feira, 17 julho, 2018  
Blogger A Casa Madeira disse...

Belo poema.
Tenho por prática reler alguns livros.
Boa continuação de semana.

terça-feira, 17 julho, 2018  
Blogger Agostinho disse...

Encenaste no palco uma coreografia excelente.
Quando na releitura encontrares,nas prateleiras mais altas, a palavra que arredonda a obliquidade triangular da iniquidade, a espuma da praia virá beijar-te os pés.
Boa semana.

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger Os olhares da Gracinha! disse...

Um belíssimo momento poético Piedade pois dar voz é uma ajuda!!!bj

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger LuísM Castanheira disse...

É nas palavras guardadas, em espera, que as horas inexistem. Só a chegada, de quem as (re)lê, o tempo se torna presente. Pacientes, não esquecem. Genuínas, e sempre disponíveis. Essas são as palavras, em livros, criadas.

belo e criativo, o Poema, Amiga Pi.
Um beijo.

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger Marta Vinhais disse...

É sempre bom reler livros... despertam memórias, sentidos, ideias e sorrimos...
Porque as horas não se arrastam, não ficam negras, pesados...
Beijos e abraços
Marta

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger Teresa Durães disse...

Também tenho por hábito reler certos livros

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger Elvira Carvalho disse...

Não adianta colocá-los em prateleiras altas, não adianta tentar esquecê-las. As palavras lidas vão permanecer na memória.
Gostei de ler.
Abraço

quarta-feira, 18 julho, 2018  
Blogger Majo Dutra disse...

É imprescindível dar voz aos ausentes, reduzidos a palavras
caladas em livros.
Uma innspiração eloquente a partir da gravura expressa
em metáforas sábias e admiráveis.
Muito belo, estimada poetisa.
Beijos, Amiga.
~~~

quinta-feira, 19 julho, 2018  
Blogger Toninho disse...

Imagem fantástica para um titulo interessante e o fechamento do poema ficou uma maravilha de poetizar.
Beijo amiga e bom fim de semana.

sexta-feira, 20 julho, 2018  
Blogger Jaime Portela disse...

Parabéns pelo poema. É muito bem escrito e excelente.
Amiga Piedade, um bom fim de semana.
Beijo.

sexta-feira, 20 julho, 2018  
Blogger Mar Arável disse...

Há vozes que não deixamos que se calem

sexta-feira, 20 julho, 2018  
Blogger Pedro Luso disse...

Olá, Piedade, é sempre um prazer vir nesse espaço onde leio os poemas de tua autoria, sempre belo como este. Parabéns.
Uma boa semana.
Beijo
Pedro

segunda-feira, 23 julho, 2018  
Blogger Graça Pires disse...

Reler os livros e deixar que as palavras se soltem, tal como fez neste magnífico poema, minha Amiga Piedade…
Uma boa semana.
Um beijo.

segunda-feira, 23 julho, 2018  
Blogger Ana Freire disse...

E os livros são isso mesmo... vozes surdas... que nos dão a ouvir, murmúrios de outras vidas... que por vezes até nos conseguem devolver à nossa... mais plenos, atentos e preparados...
Como sempre, uma maravilhosa inspiração por aqui, Piedade!...
Beijinho! Feliz semana!
Ana

segunda-feira, 23 julho, 2018  
Blogger O Árabe disse...

Não apenas um belo poema, mas também uma bela definição dos livros: vozes surdas, que nos ajudam a viver! Boa semana, Piedade.

segunda-feira, 23 julho, 2018  

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