terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vidas Duplas

TJ  Scott
Deslizo o meu corpo sobre a tua cama deserta ainda desfeita. Revivo-te nos lençóis com as marcas do teu corpo e com o teu cheiro a plantas silvestres.

Durmo na tua cama, nestas águas furtadas que com tanto esforço vais pagando a mensalidade. Magoa-me o dividirmos as contas quando vamos jantar, tu a escolher sempre o prato mais acessível da carta e eu deixar-te pagar a tua parte. Porque se pagasse tudo irias pressentir de algo que eu não quero que saibas.

Não sabes quem sou, talvez nunca venhas a saber quem sou eu na realidade. 

Não sabes nada de mim. Nada vezes nada, resumido a nada. Mas talvez adivinhes o ilícito do corpo que trago impotente nos olhos, talvez que o teu instinto de mulher não queira questionar os silêncios inconfessáveis que me devoram a alma.

Foi essa a minha condição. Nada de perguntas!

Estou cansado! Tão cansado de tudo! De andar de viagem em viagem, de não saber quando é a próxima etapa. De partir com medo que um dia quando volte já não estejas aqui à minha espera.

Amanhã resolvo isto, digo sempre de mim para mim. Amanhã! Amanhã! E amanhã pode ser tarde. Demasiado tarde para mim e para ti e para os sonhos que desenhei além de ti e de mim.

Tu ris, dizes que gostas de rir e assim sentes-te bem. E por vezes o teu riso é um esgar para enganar o que sentes, quando me vês pegar na mala azul com rodinhas e seguir para o aeroporto. Mas sabes, eu sei que mentes. Mentes como eu também minto a mim próprio a ti e a tudo o que me rodeia.

Mentes sempre, pois no outro dia quando voltei para trás porque o voo tinha sido cancelado, encontrei-te deitada sobre a cama, onde agora estou. Estavas deitada na posição fetal e voltada para o postigo, por onde uma réstia de luz mal te distinguia. Choravas baixinho. Disfarçaste e alegaste estar constipada.

Tens medo de assumir o que temos e nem sei se temos alguma coisa, sei apenas que delimitei um prazo. Reformo-me “disto” aos quarenta anos e vou viver contigo de país em país. Talvez me refugie numa ilha junto ao mar e compre um barco onde possa viver contigo.

Talvez não tenhas mais que andar a fazer poupanças para pagar a renda destas águas furtadas e faças aquilo que gostas. Continuares a pintar o teu mar de verde e o céu de azul. Talvez eu não tenha que andar mais de aeroporto em aeroporto com a mala azul de rodinhas atrás de mim, sempre receoso do tiro que me persegue nos sonhos.

Nem sabes meu nome, pelo menos o que está nos documentos verdadeiros. Mas será esse que passarei a usar. Assim tentarei esquecer este que uso agora e esquecerei quem fui.

Sinto os olhos cansados, tão cansados, as pálpebras parecem-me de chumbo, quero abri-los e nem consigo.

Está decidido, amanhã resolvo isto....

(Obs:Este texto é pura ficção, qualquer semelhança com factos reais será mera coincidência)

©Piedade Araújo Sol  08-10-2007
(Reeditado)

24 Comentários:

Blogger Dilmar Gomes disse...

Ufa, um texto para tirar o fôlego! Muito bom, cara Piedade. Um abraço daqui do sul do Brasil. Tenhas uma linda semana.

segunda-feira, 02 outubro, 2017  
Blogger Os olhares da Gracinha! disse...

Mas olhe que provavelmente já aconteceu!
Gostei de ler ... Bj

segunda-feira, 02 outubro, 2017  
Blogger Rogerio G. V. Pereira disse...

Comento o outro lado do conto, com um segredo. Escuta: o outro(a) não nos conhecer é uma condição para a sobrevivência de uma ligação. Acontece comigo (com ela)...
Se fosse caso
de comprar um barco
não tenho ideia nenhuma se ela escolheria um veleiro, um iate de cruzeiro ou um simples, a remos...

terça-feira, 03 outubro, 2017  
Blogger Marta Vinhais disse...

E adia-se.... porque sabemos que vamos ficar magoados...
Mas, se acontecer, não será pior a dor?
Pode ser mais profunda e nunca se recupera....
Gostei muito...
Beijos e abraços
Marta

terça-feira, 03 outubro, 2017  
Blogger Elvira Carvalho disse...

Um texto muito real, ainda que seja só ficção. Porque tantas vezes somos assim. Levamos a vida a adiar aquilo que realmente queremos.
Um abraço

terça-feira, 03 outubro, 2017  
Blogger Luis Eme disse...

Amanhã pode ficar quase noutro país, Piedade...

abraço

quarta-feira, 04 outubro, 2017  
Blogger Tais Luso disse...

E assim é a vida, entre encontros, tantos desencontros!
Resolve-se um, aparecem outros...Texto meio angustiante, mas belo, real também, as coisas são assim, infelizmente. Tudo meio complicado.
Beijo, querida Piedade.

quarta-feira, 04 outubro, 2017  
Blogger (CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Belíssimo texto de ficção... baseados em fatos reais. Tantos por aí. Beijos. Parabéns.

quarta-feira, 04 outubro, 2017  
Blogger Franziska disse...

Es un relato que intriga y nos deja con una enorme duda, es un misterio. Hay amor pero el amor no es suficiente para la entrega total y definitiva y aparece el sufrimiento que genera la inseguridad. Es en realidad muy triste. Me parece sumamente interesante y muy semejante al modo de entender las relaciones entre muchas parejas que quieren no comprometerse como si los sentimientos del otro no contaran...así están las cosas.

Un abrazo. Franziska

quarta-feira, 04 outubro, 2017  
Blogger Fá menor disse...

Um bom enredo.
Quantas vidas duplas não andarão por aí sem ser ficção!
Quantos adiamentos disto e daquilo não temos na nossa vida?!

Beijinhos.

quinta-feira, 05 outubro, 2017  
Blogger Agostinho disse...

Estranharás a minha ausência
simplenamente esqueci-me de mim
e um saco de chumbo levou-me ao fundo
Felizmente nadei à procura de luz.
Desgraçado coração tão farto de mim.

Um beijinho 😷

sábado, 07 outubro, 2017  
Blogger Elvira Carvalho disse...

Bom fim de semana
Abraço

sábado, 07 outubro, 2017  
Blogger Profª Lourdes disse...

Linda mensagem ! A vida é assim, encontros e desencontros e vamos seguindo. Obrigada amiga pela visita e o comentário que deixou. Amo suas visitas, saibas que serás sempre bem vinda aos meus blogs. Tenha um abençoado fim de semana. Abraços

sábado, 07 outubro, 2017  
Blogger Victor Barão disse...

Uma ficção muito, muito literariamente digna! Eu ia lendo num crescendo de imaginar uma longa história, um verdadeiro romance e então de entre o antepenúltimo e o último parágrafo como que fica tudo em aberto, sem ao mesmo tempo deixar de ficar fechado _ encanta-me este tipo de abordagem, em especial num pequeno que ao mesmo tempo é um grande texto como este "Vidas Duplas".
Parabéns minha amiga, é um verdadeiro e honroso gosto ter o privilégio de participar com estes meus humildes comentários neste seu belo (poético-literário) espaço.
Beijo de estima e admiração

domingo, 08 outubro, 2017  
Blogger Ana Freire disse...

Um trabalho ficcional... mas que eu acho ter tanto de real... deixamos para um amanhã... tanta coisa, que muitas vezes, não se tem coragem de resolver/mudar no hoje... e um belo dia... o amanhã... poderá ter deixado de existir para um dos envolvidos, por qualquer razão... e a oportunidade perdeu-se!...
Adorei o texto, Piedade! Diferente da linha de trabalhos, que vinha apreciando, por aqui... mas gostei imenso!...
Beijinhos! Feliz domingo!
Ana

domingo, 08 outubro, 2017  
Blogger Pedro Luso disse...

Olá, Piedade!
Parabéns pelo belíssimo texto. Muito bom.
Uma ótima semana.
Um abraço.
Pedro

segunda-feira, 09 outubro, 2017  
Blogger Graça Pires disse...

Um texto com uma narrativa excelente que nos deixa presos às palavras e ao imaginário aqui criado. Há vidas assim. Com encontros e desencontros. Com amores clandestinos. Com sonhos por cumprir... Parabéns pelo texto, minha Amiga.
Uma boa semana.
Um beijo.

segunda-feira, 09 outubro, 2017  
Blogger José Carlos Sant Anna disse...

Qualquer semelhança, que aparece subscrito, significa dizer que a verossimilhança é tão forte que necessário se faz a explicação para que não se confunda o "narrado" com a realidade. Mas o que é a ficção se não o “ato de fingir” através da linguagem para que tenhamos a “realidade” transfigurada? Há sempre um duplo dentro de cada indivíduo: o de dentro e o de fora. O que acha um pacote de cédulas na rua e não sabe se deixa no lugar que o encontrou ou se o leva. Se o entrega na primeira delegacia ou o leva para casa. Enfim, muitas são as formas de o exemplificar. Mas o duplo aqui encerra, pela ambiguidade, o conflito que o narrador experimenta diante do Outro, e o carrega. Há muitas palavras-chave que podem nos ajudar decifrar o enigma do narrador, por exemplo, “reformo-me “disto”, mas não há da parte do criador o propósito se não de deixar em aberto o móbile da vida do narrador. É abrir o leque de possibilidades para saber "a vida que ele leva e que o subtrai da "amada".
Beijinhos, Piedade!
Uma boa semana para ti,

segunda-feira, 09 outubro, 2017  
Blogger LuísM Castanheira disse...

vidas duplas - uma cativante estória no segredo dumas águas-furtadas.
para mim, ele era um espião ao serviço do Trump.
um beijo, amiga Pi.

sexta-feira, 13 outubro, 2017  
Blogger Jaime Portela disse...

Um belíssimo pequeno conto. Gostei muito da narrativa, parabéns.
Bom fim de semana, amiga Piedade.
Beijo.

sábado, 14 outubro, 2017  
Blogger O Árabe disse...

Pura ficção, sim... mas tão bem escrito, que não é nada difícil imaginá-lo real! Ótimo post, Piedade; boa semana.

segunda-feira, 16 outubro, 2017  
Blogger Louraini Christmann - Lola disse...

Sim, eu também resolvo amanhã,
porque hoje estou com muita saudade!!

abraço

segunda-feira, 16 outubro, 2017  
Blogger Profª Lourdes disse...

Olá amiga, mais uma postagem que dá gosto de ler.Lindo e com grandes verdades.

Abraços com desejos de uma noite de paz e um amanhecer feliz.

quarta-feira, 18 outubro, 2017  
Blogger Majo Dutra Rosado disse...

Não conhecia a tua faceta de contista e fiquei otimamente impressionada.
Um texto bem construído, com sentimentos humanos e atitudes emocionais
muito bem descritos.
Parabéns, Pi Sol.
Beijos
~~~

terça-feira, 24 outubro, 2017  

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