terça-feira, 25 de outubro de 2016

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christine ellger

eu leio as palavras, que um dia escrevi
ao lusco-fusco
quando tu desenhavas no quarto branco
uma tela com o meu rosto.

para não te importunar,

fui ver os barcos parados no cais,
pela noite de temporal,
lembro que o dia estava morno.

tanto tempo passou, tantas luas…

hoje preciso apagar todos os vestígios de ti,
é necessário, só assim lavarei ,esta saudade indefesa que escorre
lânguida e sem pudor, por todos os poros dum corpo
e das palavras que ficaram  escondidas.

é urgente…

hoje rasguei a tela em quatro bocados,
por inexplicável que seja, guardei os bocados
na arca que ainda tem os teus pincéis e as tintas
totalmente secas e dispensáveis.

© Piedade Araújo Sol 2016-10-24

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Sementeira

Xetobyte
Semeei palavras por aí,
por vezes maviosas
outras agressivas, outras ainda em estado
de combustão.

Incendiaram –me os dedos,
e queimei vocábulos sem querer,
e evoquei metáforas,
sem querer saber.

Será que semear palavras
traz frutos, questionei-me
e questionei,
e não me souberam responder.

Fiquei perdida de mim, a imaginar
um campo de searas de letras,
que nunca serão colhidas.

Que ficarão apenas a baloiçar sentires
embaladas pelo vento, em torno do poente
e do tempo.


© Piedade Araújo Sol 2016-10-17

terça-feira, 11 de outubro de 2016

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Mira Nedyalkova

a poesia não precisa de rima,
não precisa ser alinhada,
nem ter linha de montagem,
precisa apenas ser livre e sentida,
em estado bruto,
sem metamorfoses,
esculpida apenas com as palavras,
que o poeta dedilha com precisão,
e sentires que lhe nascem,
na alma e na pele.

©Piedade Araújo Sol  2016-10-10

terça-feira, 4 de outubro de 2016

memórias




Miho Hirano

Mastiguei as sílabas
soletrei seu nome
e o eco inundou todo o horizonte
sua história ficou em mim
e foi a nossa história.

Não se pode negar
as memórias
e os versos que o vento levou
e dobrou e em nós resguardou
e o eco espalhou.

© Piedade Araújo Sol 2016-10-04