terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um frio



Um frio brando percorre a casa. Ninguém se lembra das cortinas que cobriam as janelas. Lá fora os pássaros debicam os frutos maduros não colhidos.  Os trilhos para o regato – seco - esvaíram-se.

Ali ainda sobrevivem as paredes do moinho que outrora girou em mãos calejadas pela sorte – madrasta ou não.  E os dedos esgotados escrevem solidão nas pedras de granito gastas pelo tempo, massacradas pelo vento – agreste – eternamente.
Até as letras acabaram por tombar, decepadas com golpes de facas, lâminas que incrustam o uivo do vento no lamento da tarde.

Um frio brando goteja na memória das paredes da casa desamparada – de velha – num país de estátuas que pululam nos corredores do poder e se entranham no tempo sem tempo de ninguém e de todos – nós.

Sei dos labirintos do sol – morno - que em labaredas varre o céu, ainda e sempre azul.

Mas é um frio branco que escorre pelos dias sem o sabor da revolta, deslavrada no sal das lágrimas que se confundem com o vento em seu perpétuo lamento…
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© Piedade Araújo Sol  2012-02-07
foto: asiasido