vi a minha cidade
vi a tristeza entrelaçada
com teias de aranha nas montras
os vidros embaciados
as portas fechadas
o silêncio dolente
vi a minha cidade – abandonada.
era dia de sol
e cheirava a mofo e a chuva
as minhas mãos crispadas
no fundo dos meus bolsos vazios
e a solidão com feridas profundas
no esquecimento anunciado.
o chão amargo da melancolia
prenhe de fragrâncias com história
e de cheiro a fado nas esquinas
a calçada à portuguesa impregnada de rostos
de olhar em quebranto cingido.
já ninguém sabe de mim
nem dos meus sonhos tresmalhados por aí
nos barcos ancorados
e nos livros da cidade
já ninguém me conhece nas esplanadas da tristeza
vi a minha cidade – abandonada.
© Piedade Araújo Sol 2011-12-06
Foto: timbarber

25 Comentários:
E eu vi uma cidade nos olhos embaciados pela melancolia, pela saudade e nas mãos vazias, a precisar de serem preenchidas. Mais uma vez ler-te, me faz identificar com tantos sentidos. Beijinhos ;)
Uma nostalgia linda, a que aqui nos deixas...
Beijos.
tanbem com nostalgia?
kredo...
estou intesso..dou-te cores
vamos ver o arco-iris.
:)*
beijo!!
Piedade
A nostalgia da Cidade viva, que parece estar moribunda e fria.
Como te "sinto" cidade, Amiga.
É muito triste olhar esplanadas repletas de tristeza, sem livros, abandonada...
Beijos
SOL
http://acordarsonhando.blogspot.com/
que seja apenas um momento passageiro
na sua, minha, nossa cidade
como passageiro o barco
o fado
o abandono
um abraço, Pi!
Eu sei de ti.... adivinho-te pelas palavras porque elas chamam-nos como a areia chama o mar...... e tens sempre aromas de maresia.
Uma solidão escondida...
Não se fala...não se pensa....porque já não se sabe como....
Lindo....
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta
Uma cidade que nos vem de dentro. Um poema que nos veste de si.
Muito belo.
Beijinho, Piedade
A crise também se faz sentir na cor das coisas que os nossos olhos vêem...
Excelente poema. Gostei.
Beijo, querida amiga.
Nas esplanadas da tristeza já vão aparecendo sorrisos(poucos ainda), mas já vão aparecendo!
Beijinhos
As cidades tornaram-se lugares de dispersão, de solidão, onde tantos podem ser ninguém...
Lindo!
Um beijo
Olá
Partilho dessa frustração colectiva, é realmente triste ver o abandono, os braços caídos quase sem esperança, mas tenho fé que os sonhadores os poetas deste país, consigam manter a chama acesa...
Brilhante poema, é um bom ponto de partida para uma reflexão que se impõe.
Parabens é sempre um prazer passar por cá.
O olhar adquire sempre novas tonalidades e dimensões com a ausência. Mas há sempre algo que fica, que nos agarra...
Beijo :)
Olá Piedade.
Saberemos sempre se ti e dos teus sonhos tresmalhados nos barcos ancorados e nos livros da tua cidade.
Linda a tua poesia.
Beijo
mas nós sabemos da tua poesia, que também ecoa na tua cidade.
Beijinhos Piedade
Minha querida
Os nossos sonhos vão perdurar para sempre por dentro do tempo.
Beijinhos
Sonhadora
A tristeza, quando pregoada, é um espantalho desolador que espanta quanto pássaros há!... Quem quer ser encosto da tristeza, da mágoa, da inércia e dos corpos que se deixam amolecer?... Ninguém, nem os mais tristes!...
Raios partam a tristeza e que o relâmpago ilumine sorrisos e lábios doces!...
Abraço
Uma nostalgia que espero se transforme num tempo novo, sob pena de as cidades perderem a identidade, reflexo da falta dela no próprio Homem.
As grandes cidades têm esse perigo, mas tudo é passível de reversão, basta querer...e a luta por essa vida nunca será em vão.
Beijos
Branca
um olhar melancólico sobre a cidade que é, muitas vezes, lugar de anonimato, mas aqui também reflexo das vicissitudes actuais, como uma perda afectiva e social, um abandono sem deixar rumo.
abraço.
Na cidade abandonada ... há gente que senta nostalgicamente a vida a pulsar, no silêncio dolente.
Parabéns amiga, pelo belíssimo poema.
Beijinho
Boa semana.
Ná
nostálgico e belo...
beijo
Bela poesia...Espectacular....
Cumprimentos
viste o teu fado
no longo adormecer da cidade:
a tua.
Minha querida amiga Poetisa Pi;
Da melancolia das imagens e das palavras à lucidez da alma.
Belo poema. Comovente.
Adorei.
Beijo.
Uma cidade que cada um/a carrega no coração, no olhar e na emoção, e se espelha e reflete naquilo que tanto nos toca: no abandono!
Um poema que é o lamento de todas as vozes...
Beijos!
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